Diante do pedido, Alice não se impressionou.
— Você me superestima. Sinto muito, mas não tenho força para enfrentar algo assim. Procure outra pessoa.
Song Yewang retrucou imediatamente, tentando convencê-la:
— Eu sei que você não confia em mim, sei que suspeita de mim, mas eu te imploro: salve-os. Eles podem estar mortos, mas suas almas ainda estão presas dentro daquela criatura. Se você matá-la, eles finalmente estarão livres.
Alice olhou em silêncio para a massa colossal à sua frente. No meio daquela multidão de rostos que compunham a face da entidade, ela viu a mulher de meia-idade da segunda parada — aquela que matara doze pessoas no mundo real, mas que também fora uma vítima. Viu também os moradores da Vila Névoa Oculta que ela tentara salvar, mas que acabaram morrendo em outros cenários. Viu jogadores do Ghost Ruins que lutaram ao seu lado e crianças do Jardim de Infância que, apesar de libertadas por ela, não conseguiram escapar do sistema.
Fosse por acaso ou por esforço, Alice fizera muito em sua jornada. Salvara inúmeras vidas, mas o destino parecia zombar dela: no fim, todos falharam e tornaram-se apenas mais um rosto naquela face gigantesca.
Madeirinha disse com a voz trêmula:
— Mestra, eles estão todos olhando para você.
— Eu sei.
Naquelas faces complexas não havia fúria ou ressentimento. Havia, em vez disso, uma expectativa anormal. Eles esperavam por ela. Esperavam que Alice destruísse a coisa que os aprisionava há tanto tempo. Esperavam que ela lhes desse a libertação.
— Alice — Song Yewang chamou-a subitamente, com a voz embargada. — Se eu morrer, espero que você se lembre de mim para sempre.
Alice não olhou para trás.
Quem vai lutar sou eu, por que diabos você morreria?
Assim que Alice se moveu, a entidade avançou. Ela estendeu uma mão gigantesca e desferiu um golpe esmagador contra Alice. Alice não recuou; permitiu que seu corpo fosse arremessado brutalmente. Suas costas estilhaçaram uma rocha enorme antes de ela cair ao chão.
Instantaneamente, uma dor lancinante percorreu todo o seu ser. Ela sentiu como se cada osso do seu corpo tivesse sido moído.
DOR! Muita dor.
Para falar a verdade, era a primeira vez que sentia um sofrimento daquela magnitude. Era realmente excruciante.
Alice soltou um riso nasal e levantou-se com dificuldade.
— Você tem força, mas não é para tanto — provocou ela, forçando um sorriso. Antes de se erguer totalmente, suas feridas desapareceram, e até a dor que penetrava até a medula evaporou.
A entidade, incrédula, aumentou a força e desferiu outro golpe. Não havia espaço para piedade. Como esperado, Alice foi arremessada de novo e, mais uma vez, ergueu-se com uma vontade inabalável.
Entidade:
"Ora, ora."
Parece que ela é teimosa. Vamos ver quem aguenta mais: o corpo dela ou a velocidade da minha palma.
Terceira vez, quarta vez, quinta vez...
Conforme o tempo passava, Alice estava coberta de sangue. Mesmo assim, ela se esforçava para manter-se de pé, recusando-se a ser motivo de chacota para eles. A entidade pareceu cansar-se de bater e parou por um momento para descansar.
Alice arquejava pesadamente, olhando para a face composta por milhares de rostos. De repente, ela percebeu uma fresta. No meio daquelas faces unidas, havia um brilho tênue.
Era o coração da criatura.
— Alice, destrua-o! — Alguém gritou lá atrás, encorajando-a a avançar.
Sem tempo para pensar, ela disparou. Ao notar a intenção dela, a entidade estendeu inúmeras mãos para bloquear seu caminho. Mas, aos olhos da criatura, Alice era rápida demais; as mãos estendidas não conseguiam capturá-la. Na realidade, a
【Precognição】
fizera o seu trabalho, calculando cada rota e movimento com antecedência.
Graças aos benefícios da premonição, Alice esquivou-se habilmente das mãos que tentavam atingi-la e saltou em direção ao coração. Escondido em sua mão direita, ela apertava o clipe de papel deformado. No instante em que se aproximou, cravou o objeto no centro do brilho com a velocidade de um raio.
Uma luz dourada explodiu.
O monstro soltou um urro que abalou a terra, e a onda de choque arremessou Alice e Song Yewang longe. Os rostos que compunham a face da entidade começaram a se desprender como flocos de neve, flutuando em direção ao céu cor de sangue e transformando-se em estrelas.
Inúmeras estrelas.
Alice ficou deitada na terra calcinada, olhando fixamente para os pontos brilhantes no céu. Enquanto olhava, ela sorriu. Mas Madeirinha sentia que ela estava no seu limite.
— Mestra... — chamou ele, comovido.
Nesse momento, uma lágrima cristalina escorreu do canto do olho de Alice, que estava úmido sem que ela percebesse.
Pelo canto do olho, ela viu um sapato aproximar-se. Era Song Yewang. Alice limpou a lágrima rapidamente; não queria passar vergonha na frente de ninguém. Song Yewang estendeu a mão para ajudá-la a levantar. Afinal, ela fora incrível. Derrotara uma entidade poderosa. Era a grande heroína daquela jornada. E ele não deixaria a heroína passar por desfeitas.
Alice ignorou a mão e levantou-se sozinha.
— E agora? O jogo acabou? — perguntou ela secamente.
Ela fizera o que ele pedira. Se, depois de passar por tanto sofrimento, o jogo não terminasse, ela teria vontade de xingar tudo e todos.
Song Yewang balançou a cabeça, com um rastro de culpa no olhar.
— Não. Enquanto houver pessoas sentindo medo, desespero ou morrendo, ele renascerá. Sempre renascerá.
Alice sentiu subitamente que fizera um esforço estúpido. No fim das contas, ela eliminara apenas uma entidade irrelevante no grande esquema, não o chefe final.
— Por que você me trouxe aqui, afinal?
— Para que eu pudesse te ver uma última vez.
Alice o encarou com um olhar afiado.
— O que você quer dizer com isso?
— Eu usei energia demais para criar este mundo — disse Song Yewang, abrindo os braços com falsa leveza. — Não aguento mais segurar a ponta.
Nesse instante, Alice teve a impressão de que o corpo dele se tornara transparente por um breve momento.
— Song Ye...
— Não tenha pressa — interrompeu ele, paciente. — Eu ainda não terminei.
Sob o olhar atônito de Alice, Song Yewang pegou a mão dela gentilmente. No contato, Alice sentiu que não segurava uma mão, mas um bloco de gelo; era um frio absoluto.
— Você lembra do que eu te disse?
Alice balançou a cabeça com franqueza.
— Eu disse que esperaria você vir me buscar. Você veio. Então, estou satisfeito.
Enquanto falavam, a transparência de Song Yewang tornava-se mais evidente. Só então Alice entendeu o peso das palavras que ele dissera antes da luta. Agora, o que ela apertava não era mais uma mão, mas o ar intangível. Antes de desaparecer totalmente, Song Yewang deixou uma frase que Alice achou irônica, mas muito pragmática:
— Da próxima vez que entrar em um cenário, lembre-se de levar o macarrão instantâneo.
Alice ficou parada, em transe, por um tempo indefinido. Tempo suficiente para as estrelas perderem o brilho e o céu voltar ao breu total. Tempo suficiente para o apito do trem soar novamente. O comboio parou atrás dela, e as portas abriram-se automaticamente com um suspiro pneumático.
A comissária estava à porta, com seu sorriso profissional, fazendo um gesto de convite:
— Senhorita Alice, por favor, embarque.