Desde aquela noite, o olhar de Arthur sobre mim mudou completamente. Não era mais aquela condescendência misturada com desdém de antes, mas sim um escrutínio explícito e carregado de uma agressividade predatória.
Era como se um lobo faminto estivesse fixando os olhos em um pedaço de carne.
Comecei a evitá-lo. Evitá-lo de verdade. Inclusive, passei a procurar Beatriz ativamente, tentando construir uma boa relação com ela para que servisse como meu escudo humano.
"Beatriz, este tom de batom combina muito com você, é seu."
"Beatriz, esse vestido ficou maravilhoso em você, por que não vai mostrá-lo ao Arthur?"
Beatriz era esperta. Ela parecia ter percebido a vibração sinistra que pairava entre Arthur e eu.
Certo dia, enquanto podava algumas flores no jardim, ela disse calmamente: "Não precisa tentar me agradar. Não tenho interesse no Arthur; para mim, ele é apenas um estranho com quem compartilho o sangue. No entanto..." Ela virou a cabeça, encarando-me com olhos afiados. "Você deveria ter cuidado. Já vi esse tipo de olhar em certos animais. Uma vez que mordem, eles não soltam mais."
Senti um calafrio percorrer minha espinha.
Justo quando eu vivia em constante estado de pânico, surgiu uma reviravolta. Meu irmão biológico, Diego, veio me procurar.
Naquele dia, na porta da faculdade, vi um homem vestindo uma jaqueta de couro montado em uma moto pesada. Ele tinha um visual selvagem, com um ar rebelde e audacioso, mas segurava um saco de castanhas portuguesas assadas que acabara de comprar.
"Alice?", chamou ele.
Fiquei paralisada por um instante: "Você é... o Diego?"
"Me chame de irmão." Ele empurrou o saco de castanhas para os meus braços e coçou a cabeça, parecendo um pouco sem jeito. "Saí faz pouco tempo e não tenho muito dinheiro. Ouvi dizer que você gosta disso, comprei no caminho."
Naquele momento, meus olhos arderam. Seria isso o laço de sangue? Mesmo sem nunca termos nos visto e com vidas tão diferentes, o gesto desajeitado dele me trouxe uma sensação de segurança que eu não sentia há muito tempo.
Sentamos em um quiosque de rua para comer churrasquinho. Ele não era o canalha que eu imaginei; embora falasse de um jeito meio rude, era extremamente protetor.
"Se a família Silva te fizer sofrer, volte para mim. O irmão é pobre, mas consigo garantir um prato de comida para você. Se precisar, vou trabalhar em obra carregando tijolo."
Sorri enquanto servia uma cerveja para ele. Foi exatamente nesse momento que um Maybach preto estacionou no meio-fio.
A porta se abriu e Arthur Silva desceu. Vestindo um terno sob medida impecável, ele parecia totalmente deslocado naquele ambiente popular e barulhento. Seu olhar caiu sobre a mão de Diego, que estava apoiada no meu ombro. Instantaneamente, a temperatura ao redor pareceu cair abaixo de zero.
"Solte ela", disse Arthur, friamente.
Diego tinha o pavio curto. Levantou-se na hora, batendo a garrafa de cerveja na mesa: "Quem você pensa que é, porra? Quer mandar em mim?"
"Eu sou o irmão dela", afirmou Arthur.
"Mentira! Eu sou o irmão de sangue!", Diego apontou o dedo para o nariz de Arthur. "Você é o impostor que ocupou o lugar dela todos esses anos. Eu ainda nem acertei as contas com você!"
Essa frase foi o estopim para o barril de pólvora. E atingiu em cheio o ponto sensível de Arthur.
"Irmão de sangue?" Arthur riu, um riso de dar calafrios. Ele caminhou passo a passo, ignorando a provocação de Diego, e agarrou meu pulso, puxando-me para trás dele.
"Laços de sangue são coisas que, às vezes, só servem para atrapalhar." Ele olhou para Diego com desprezo. "Já que você é o irmão biológico, então se limite a ser apenas isso: o irmão. Quanto a quem ela deve obediência..." Ele fez uma pausa e se virou para mim, com uma loucura borbulhando no fundo dos olhos. "Alice, diga a ele: a quem você pertence?"
Eu estava prensada entre os dois homens, sentindo que ia sufocar. E as legendas, ignorando o perigo, celebravam como se estivessem abrindo champanhe:
[Briga! Briga!]
[O ápice do drama familiar! Mesmo que um seja real e o outro falso!]
[O que o Arthur quis dizer com isso? Ele não quer mais ser o irmão?]
Antes que eu pudesse falar, Diego desferiu um soco. Arthur não desviou; recebeu o golpe em cheio, e um filete de sangue escorreu do canto de sua boca. Mas ele nem sequer franziu a testa; revidou com um soco que lançou Diego ao chão.
A cena tornou-se um caos. Só parou quando eu comecei a gritar e chorar.
"Parem com isso! Arthur, você ficou louco?!"
Arthur limpou o sangue da boca e, ao me ver protegendo Diego, seu olhar tornou-se sombrio ao extremo.
"Alice, você está com pena dele?"
"Ele é meu irmão!"
"Eu também sou seu irmão!", rugiu Arthur. "Vinte anos de convivência não valem mais do que esse maldito sangue?"
"É diferente!", rebati em voz alta. "Você foi o irmão que me criou, mas eu não posso simplesmente ignorar a existência dele!"
"Certo. Muito bem." Arthur assentiu, rindo de puro ódio. "Já que você quer tanto esse reencontro familiar, aproveite-o bem."
Dito isso, ele virou as costas e partiu com uma frieza definitiva.