Na verdade, eu não voltei para aquela suposta "família biológica".
Embora os comentários tivessem me dado o spoiler de que meus pais biológicos já faleceram e que só restou um irmão problemático chamado Diego — um vira-lata que não quer nada com a vida —, eu não estava nem um pouco a fim de encarar outro problema desconhecido logo agora.
Aluguei um apartamento de luxo no centro da cidade. Não se comparava à mansão dos Silva, mas era confortável o suficiente.
Eu tinha dinheiro. Com a venda das joias e bolsas, somada às economias que guardei todos esses anos, minha conta bancária exibia algumas dezenas de milhões. Se eu ficasse longe de jogos de azar ou vícios, daria para viver tranquilamente pelo resto da vida.
No entanto, a família Silva não pretendia me deixar ir tão fácil. Ou melhor, Arthur não pretendia.
No terceiro dia da minha "fuga", enquanto eu comia alegremente um macarrão instantâneo bem temperado assistindo a uma série, a campainha tocou. Achei que fosse o delivery, mas ao abrir a porta, dei de cara com Leonardo, o assistente pessoal de Arthur.
Atrás de Leonardo, dois seguranças montavam guarda.
"Senhorita", disse Leonardo com total respeito. "O Diretor Artur solicita que a senhora retorne."
"Não vou voltar", respondi, sugando um fio de macarrão. "Eu já saí do grupo, o que eu iria fazer lá?"
Leonardo parecia constrangido: "O Diretor disse que, se a senhora não voltar, ele cortará todos os seus cartões adicionais e... congelará todos os ativos em seu nome."
Quase cuspi a comida.
"Com que direito? Aquele dinheiro é meu!"
"O Diretor Artur disse que aquele dinheiro foi dado pela família Silva. Já que a senhora quer acertar as contas, ele quer que o acerto seja completo."
Mercenário! Capitalista! Sem coração!
Segui Leonardo de volta para a mansão, espumando de raiva. Não é que eu fosse covarde, é que o meu dinheiro estava nas mãos dele.
Ao pisar novamente na casa dos Silva, o clima estava ainda mais estranho. Beatriz já usava roupas de grife e, embora ainda parecesse um pouco retraída, seus traços realmente lembravam os da Sra. Silva.
Ao me ver chegar, minha mãe pareceu genuinamente feliz. Ela segurou minha mão e disse: "Alice, querida, por que você fugiu sem dizer nada? Aqui sempre será sua casa."
Beatriz estava ao lado, observando-me com indiferença: "Se a irmã não quer ir embora, seria ótimo que ficasse. Afinal, espaço não falta nesta casa."
Aquele "irmã" me deu arrepios. Mas eu não tinha tempo para os joguinhos de afeto dela. Meus olhos estavam fixos em Arthur, que lia o jornal sentado no sofá.
Ele vestia uma camisa cinza-chumbo com o colarinho levemente aberto, revelando uma clavícula atraente. Ao ouvir a movimentação, ele baixou o jornal lentamente e ergueu o olhar. Aquela expressão... era como se estivesse observando um canário que acabara de ser recapturado para a gaiola.
[O Arthur é o típico caso de 'mesmo que eu não queira, ninguém toca no que é meu'!]
[Alerta de climão!]
[Aposto um pacote de salgadinho que o Arthur está se sentindo vitorioso por dentro agora.]
"Voltou?", disse ele, com a voz plana.
"Arthur Silva, descongele meus cartões agora!", eu disse entre dentes.
"Me chame de irmão", ele corrigiu.
"Diretor Artur", insisti.
Arthur jogou o jornal sobre a mesa de centro com um estalo seco. A pressão no ambiente despencou instantaneamente. Minha mãe e Beatriz não ousaram dizer uma palavra. Ele se levantou, caminhou até mim e me encarou de cima.
"Alice, você acha que já pode voar sozinha?" De repente, ele segurou meu queixo, forçando-me a olhá-lo. "Fugir de casa? Quem te ensinou isso?"
Eu também perdi a paciência e tirei a mão dele com um tapa.
"Você está louco, Arthur? Sua verdadeira irmã está bem ali e você nem liga. Por que está obcecado por mim, a falsa? Já estou aqui, pode descongelar tudo agora? Assim que liberar, eu sumo daqui e não atrapalho mais a vista de ninguém!"
"Tente sumir para ver o que acontece." A voz de Arthur soou como um rosnado vindo do fundo da garganta, carregada de ameaça. "Até que a Beatriz se adapte a esta casa, você não vai a lugar nenhum. Se tentar fugir, eu quebro as suas pernas... e as daquele tal de Diego também."
Ao ouvir o nome do Diego, eu paralisei. Era o meu irmão biológico.
"Você o investigou?"
"Eu não deveria?", Arthur debochou. "Um bandidinho que acabou de sair da prisão... você espera que ele te sustente? Alice, você tem serragem na cabeça?"
Eu tremia de raiva. Mas eu sabia que Arthur não blefava. Pelas minhas pernas, e pelas pernas daquele irmão que eu nem conhecia, eu teria que aguentar.
E assim começou nossa bizarra convivência de "família de quatro pessoas".