O plano de Lucas era ganhar experiência em um hospital público de renome antes de migrar para a rede particular na capital. Já o meu plano era economizar o valor integral do imóvel e fingir que o dinheiro tinha vindo do trabalho dele, para que meus pais finalmente cedessem.
Para isso, abandonei a área que amava e mudei de carreira para vendas B2B. Em quatro anos, cheguei ao cargo de diretora de vendas; dá para imaginar o quanto sofri nesse caminho.
Eu sempre compartilhava as alegrias e escondia as dores, pois não queria que ele se sentisse sobrecarregado.
Se não fosse por Sophia, eu já teria contado a ele, transbordando felicidade, que finalmente consegui o valor necessário.
Sophia continuava falando: "Doutor Lucas, eu sou muito direta e posso acabar ofendendo a Isabela, mas pelo seu bem, eu preciso dizer..."
Escancarei a porta com um chute. Os dois olharam em minha direção imediatamente. O rosto de Lucas empalideceu: "Isa, o que você está fazendo aqui?"
Sophia, por instinto, esticou seu corpo de um metro e sessenta e ergueu o queixo ainda mais, como um pavão que se recusa a perder. O que, convenientemente, facilitou as coisas para os meus um metro e setenta.
Pensei em lhe dar um tapa, mas me contive no meio do caminho; e se ela resolvesse me extorquir? No entanto, minha mão já estava no ar e não dava para voltar atrás. Então, mudei o alvo e desferi o golpe direto no rosto de Lucas.
8
Sophia me empurrou bruscamente, em pânico, tocando o rosto de Lucas enquanto lágrimas de aflição escorriam por seus olhos.
"Sua louca!" "O Doutor Lucas é tão bom para você, como tem coragem de tratá-lo assim?"
Camila me segurou, e toda a sua fúria acumulada explodiu de uma vez: "Com que autoridade você está falando aqui?" "Diz que é 'pelo bem dele', mas acha que ninguém percebe esse seu joguinho? Quer um atalho na vida e o embala como se fosse amor. Tenta rebaixar os outros para se elevar... nem um caminhão de lixo consegue ser tão fingido quanto você."
Lucas franziu a testa: "Chega!"
Camila imediatamente virou o ataque para ele: "Ela é sonsa e você é cego? Acha mesmo que casar com você seria um luxo para a Isa?" "Eu avisei a ela para não se meter nessa furada. Você tem ideia do quanto ela sofreu por você todos esses anos? Sofreu acidente de carro e levantou para continuar atendendo clientes; bebeu até vomitar sangue e teve que continuar bebendo no jantar de negócios. Trabalhou sem folgas o ano inteiro e, no único dia de descanso, ainda encarava o cansaço de vir até aqui. E o pior: ela morre de enjoo em aviões, passa mal a viagem toda! Quando vinha de trem, eram horas a fio no trajeto." "Quantas vezes ela brigou com os pais por sua causa? Os tios ficaram tão furiosos que disseram que não tinham mais filha, que era para ela nem voltar para casa. E você não menciona nada disso, não é? O seu cansaço é sagrado, mas o dela é 'vida boa'?"
Lucas ficou paralisado, como se tivesse levado um tapa ainda mais forte que o anterior. Ele abriu a boca, mas não conseguiu articular uma única palavra; apenas me encarava fixamente, com o olhar transbordando uma culpa devastadora.
Nesse exato momento, Sophia pegou um bisturi e o encostou no próprio pescoço. "Prefiro morrer a ser insultada dessa forma! Eu e o Doutor Lucas somos inocentes. Eu só disse a verdade. Você pode inventar mentiras e me xingar, mas não aceito que joguem lama no meu nome!"
Camila soltou uma risada sarcástica: "Gente como você é esperta demais. Enche a boca para falar em morrer, mas valoriza a própria vida mais que qualquer um. Se você cortar de verdade, eu até admito que tem coragem, mas tente ser mais convincente no seu teatrinho."
Sophia, num impulso, fez um corte no próprio braço. Com a voz trêmula, disparou: "Agora você está satisfeita?"
O semblante de Lucas mudou drasticamente. Ele se virou para mim e disse, apressado: "Isa, peça para sua amiga se desculpar com ela. Vamos encerrar esse assunto aqui, pode ser?"
Olhei para ele com total indiferença: "Nos seus sonhos."
Lucas suavizou o tom de voz: "Isa, eu sei o quanto você sonha com o nosso casamento. Eu já recebi uma proposta de emprego; se eu aceitar, posso me casar com você ainda este ano. Se houver um pedido de desculpas hoje, eu aceito o cargo. Depois disso, nunca mais viveremos longe um do outro!"
Com os olhos vermelhos, mas firme em cada palavra, Sophia interrompeu: "Doutor Lucas, não precisa aceitar um trabalho que não gosta por minha causa! Eu não sou o tipo de mulher que fica atrás de alguém esperando que resolvam tudo para mim!"
Eu permaneci em silêncio. De repente, a lembrança de Lucas conhecendo meus pais invadiu minha mente. Naquela época, aos vinte e seis anos e recém-doutorado, ele se sentou no sofá da minha casa e jurou para meus pais, palavra por palavra: "Primeiro, vou subir para médico assistente sênior em um hospital público de ponta, depois irei para a rede privada. Em cinco anos, terei um salário de um milhão." "Vou me casar com a Isa pelo meu próprio esforço. Vou provar aos senhores que não são apenas palavras; eu realmente quero passar a vida inteira com ela."
Agora, tudo aquilo era passado. Falei em voz baixa: "Eu errei."
Lucas visivelmente relaxou e soltou um suspiro de alívio: "Tudo bem, então vamos deixar isso para trás."
Sophia, no entanto, continuou insistindo, puxando a manga dele com ansiedade: "Doutor Lucas, ela te deu um tapa! Como pode deixar passar assim tão fácil? Não se sacrifique por minha causa..."
Lucas puxou o braço de volta: "Isso é entre mim e a Isa, não tem nada a ver com você."
Dei um sorriso leve e completei o que tinha para dizer: "Meu erro foi não ter terminado com você antes."
Lucas congelou. Continuei, palavra por palavra, enquanto via o rosto dele perder a cor gradualmente: "Eu deveria ter terminado no exato momento em que você mencionou o nome da Sophia pela primeira vez."