Este era o quarto ano do nosso namoro à distância.
Era realmente difícil. Todos os meses eu viajava para vê-lo; eram apenas doze encontros por ano. Tínhamos o combinado de fazer videochamadas alternadas todos os dias e, por mais ocupados que estivéssemos, nunca desligávamos sem um "boa noite".
Não sei dizer exatamente quando começou, mas o nome de Sophia passou a surgir com frequência nas conversas de Lucas.
"A enfermeira que trabalha comigo é meio atrapalhada, não conseguiu acertar a veia de um paciente nem depois de várias tentativas."
"Ela é uma pessoa bondosa, vive dando carne de panela do refeitório escondido para os gatos de rua."
"Ouvi o diretor comentar que a família dela passa por dificuldades. Ela fez faculdade com financiamento estudantil, igualzinho a mim na época. Mas ela não teve a mesma sorte que eu... minha maior sorte foi ter te conhecido na universidade."
Eu não dei importância, vi apenas como uma colega de trabalho comum.
Um mês atrás, Lucas viajou a trabalho e me avisou com antecedência que não poderíamos fazer nossa ligação de boa noite. Só quando um colega dele me ligou dizendo que ele estava internado é que descobri que o destino da viagem dele era a minha cidade.
Não era uma surpresa preparada; ele simplesmente não pretendia me contar.
"Estava muito corrido, não tive tempo de avisar. Como eu não ficaria muito tempo mesmo, achei que não valia a pena o transtorno."
Para ele, nossos encontros pareciam ter se tornado um fardo.
Enquanto eu estava perdida em pensamentos, a sopa que eu segurava foi bruscamente empurrada. Uma mulher com uniforme de enfermagem abriu sua própria marmita e me encarou:
"O Doutor Lucas está internado com dor de estômago, ele não pode comer alimentos gordurosos!"
Ela se movia de um lado para o outro, agindo como se fosse a dona do lugar. Ela jogou fora a maçã que eu havia descascado para Lucas, dizendo que eu não tinha seguido a técnica correta de higienização das mãos e que estava suja. Quando eu observava o gotejamento do soro, ela dizia que eu era leiga e que não deveria atrapalhar.
Bastou eu sair por um instante para ir ao banheiro e, ao voltar, encontrei os dois rindo sem parar. Lucas, sabendo que não me interesso por medicina, explicou:
"Assuntos do trabalho."
Mas ela fez questão de completar:
"Mesmo que ele explicasse, você não entenderia."
Senti o sangue ferver:
"Existe acompanhante como você? Você está demitida."
Ela estancou, estufando o peito:
"Sou uma enfermeira formada por uma instituição renomada, não sou uma acompanhante barata!"
Foi então que percebi: aquela era Sophia.
Claramente, ela tinha cruzado a linha. E Lucas permitiu.
O distanciamento emocional em relações de longa distância é comum, mas eu achei que fôssemos a exceção, que não teríamos um fim trágico. Se antes eu ainda tentava me enganar, achando que estava sendo apenas sensível ou paranoica, aquela encenação de "casal" destruiu qualquer ilusão que me restava.
...
No shopping, comprei um presente para Camila e aproveitei para retirar um terno que havia mandado fazer sob medida. Jantei rapidamente com ela e mergulhei de cabeça no trabalho. Após dias seguidos de horas extras e de ter tomado uma chuva forte, acabei com uma febre alta e fui parar no hospital.
O destino é irônico: quem veio colher meu sangue foi Sophia.
Ela apertou o torniquete com uma força desnecessária. A agulha perfurou minha pele várias vezes sem encontrar a veia, deixando hematomas horríveis na minha pele clara.
Perdi a paciência:
"Quero outra enfermeira!"
Sophia não demonstrou nenhum remorso, respondendo com um tom arrogante:
"O hospital não é seu. Os recursos médicos são limitados e há outros pacientes esperando. Por favor, não desperdice o tempo de ninguém."
Eu ri de nervoso: "Sua técnica é péssima, tenho o direito de exigir a troca."
Sophia ergueu o queixo, obstinada:
"Não insulte minha capacidade profissional. Se você fica se mexendo, é claro que não vou conseguir acertar."
Não perdi mais tempo discutindo e apertei o botão de chamada.
Quem apareceu correndo foi Lucas.