A polícia chegou rápido. Afinal, o valor envolvido chegava a três milhões de reais. Quando dois policiais uniformizados entraram no quarto, Bernardo ainda estava estático, segurando aquela pilha de registros de hotéis.
"Foi a senhora Larissa quem fez a denúncia?", perguntou o oficial que liderava a equipe.
"Fui eu", respondi, apontando para o Dr. Ricardo, que estava ao meu lado. "Meu advogado fornecerá todas as evidências necessárias."
Ricardo prontamente se adiantou, entregando os registros de transferência organizados e a investigação sobre o passado de Yasmin. "Oficiais, suspeitamos que a senhorita Yasmin, com o objetivo de apropriação indébita, forjou fatos para extorquir uma grande quantia do patrimônio do marido da minha cliente, o senhor Bernardo."
O oficial folheou os documentos, franzindo a testa cada vez mais. "Quem é o senhor Bernardo?"
Bernardo finalmente levantou a cabeça, como se estivesse despertando de um pesadelo. "Sou eu." Sua voz soava seca, como se passasse por uma lixa.
"Senhor Bernardo, sobre os três milhões transferidos para a senhorita Yasmin, tem algo a declarar?", o oficial o encarou com seriedade.
"Eu...", Bernardo abriu a boca, mas as palavras não saíram. O que ele poderia dizer? Que deu o dinheiro por vontade própria para sua "paixão platônica" ou que foi feito de idiota por uma golpista?
"Esse dinheiro... foi um empréstimo que fiz a ela", Bernardo disse entre dentes, forçando as palavras.
"Existe alguma nota promissória ou comprovante de dívida?", insistiu o policial.
"Não", Bernardo baixou a cabeça.
"Já que não há comprovante de dívida e o valor é exorbitante, temos motivos para suspeitar que se trata de estelionato." O oficial fechou a pasta. "Por favor, senhor Bernardo, acompanhe-nos até a delegacia para colaborar com a investigação. A senhorita Yasmin, no quarto ao lado, também será levada."
Bernardo levantou a cabeça bruscamente. "Ela não está bem, ainda está internada."
"Organizaremos uma avaliação com o médico plantonista. Se ela estiver em condições de depor, a lei deverá ser cumprida", afirmou o oficial, de forma inquestionável.
Dez minutos depois, gritos agudos de Yasmin ecoaram pelo corredor.
"O que vocês estão fazendo? Me soltem, eu não dei golpe nenhum! Bernardo, me salva!"
Deitada na cama, eu ouvia a confusão lá fora sem qualquer emoção. Bernardo estava parado na porta do quarto, observando duas policiais conduzirem Yasmin para fora do quarto vizinho. Ao ver Bernardo, Yasmin tentou se lançar em sua direção, como se ele fosse sua última salvação.
"Bernardo, diga a eles! Diga que você me deu o dinheiro porque quis, que não foi golpe!" Ela chorava copiosamente, as lágrimas escorrendo pelo rosto.
Bernardo a encarou. Seu olhar era de uma complexidade extrema: choque, fúria e um nojo impossível de esconder.
"Yasmin", ele começou, com a voz pausada. "De quem é o filho que você está carregando?"
O choro de Yasmin parou instantaneamente. Seus olhos se arregalaram, olhando para Bernardo com incredulidade. "Do... do que você está falando?"
"Eu vi o seu relatório pré-natal", a voz de Bernardo era fria como gelo. "Naquela data, eu nem sequer estava na cidade."
O rosto de Yasmin ficou pálido no mesmo segundo. "Não... não é isso, Bernardo, me deixa explicar!" Ela tentou agarrar as mãos dele desesperadamente.
Bernardo a repeliu com um empurrão. "Não me toque." Ele recuou um passo, como se ela fosse algo imundo. "Você me dá nojo."
Yasmin entrou em pânico total. De repente, ela virou o rosto e me encarou com ódio através da porta do quarto.
"Larissa, foi você, não foi? Você me armou uma cilada!" Ela tentou avançar para dentro do quarto, mas foi contida firmemente pelos policiais.
"Fique quieta!", ordenou o policial. "Levem-na."
O silêncio finalmente retornou ao corredor. Bernardo permanecia parado à porta, como uma estátua sem alma.
"Senhor Bernardo, por favor", o oficial fez um gesto para que ele seguisse.
Bernardo virou-se e me lançou um olhar profundo, carregado de emoções que eu já não me importava em decifrar.
"Pode ir, não farei falta", eu disse, fechando os olhos.
"Dr. Ricardo, amanhã vá até o local de trabalho do Bernardo. Conte detalhadamente aos superiores e colegas dele sobre esses seus grandes feitos."