O final do ano se aproximava, e meu noivo finalmente havia entregado o pedido oficial de casamento aos seus superiores. Chorei de alegria e arrastei minha melhor amiga até a mercearia para comprar os itens necessários para o grande dia.
Ao chegarmos, ela correu direto para a área dos telefones públicos. Não resisti e provoquei: — Por que tanta pressa? Por acaso vai ligar para algum amante secreto?
Ela apenas sorriu em silêncio. Momentos depois, foi chamada por um vendedor. Olhando para o telefone ainda conectado, balancei a cabeça e estiquei a mão para desligar, quando de repente a voz do meu noivo ecoou do outro lado da linha: — Seja boazinha, estarei de volta da base hoje à noite.
Fiquei estática. Achei que as linhas tivessem se cruzado, mas antes que eu pudesse conferir, a voz dele ressoou novamente: — Vivi, lembre-se de comprar mais alguns acessórios... hoje à noite não vamos pregar o olho.
Vivi era minha melhor amiga, Viviane. E o homem que falava era meu noivo, Lucca.
...
Fiquei parada no mesmo lugar. Apesar de estar agasalhada, um frio insuportável subiu pelas solas dos meus pés. Eu não conseguia associar aquelas palavras vulgares ao rosto de Lucca. Ele sempre foi um homem reservado e contido; nunca diria algo tão ousado na minha frente.
O que era ainda mais inacreditável era que eles estavam juntos pelas minhas costas. Lucca era o homem com quem eu estava prestes a casar, e Viviane era minha única amiga desde a infância. Os dois nunca pareceram se dar bem; eu tive que me esforçar muito para que eles fizessem as pazes.
Mesmo assim, Viviane vivia reclamando: — Sâmia, você é maravilhosa, como pode ter escolhido o Lucca? Ele vive trancado naquela base... é como uma flor jogada no lixo. Mas tudo bem, se você o ama, eu aceito. Se ele se atrever a te machucar, eu serei a primeira a acabar com ele.
Ao ver o jeito protetor dela, meu coração sempre se aquecia, acreditando que ela queria apenas o meu bem. Do outro lado, Lucca também não parecia suportar Viviane. Sempre que voltava da base, ele perdia a calma habitual por causa dela; eu precisava acalmá-lo constantemente.
Antes de partir, ele sempre me alertava: — Me prometa, Sâmia, não dê ouvidos às bobagens da Viviane enquanto eu estiver fora.
Eu sorria, segurando o braço dele: — Ah, a Vivi só se preocupa comigo. Não se preocupe, nosso amor é inabalável.
Só então Lucca mostrava um sorriso discreto. Ver aquele sorriso me fazia sorrir também. Naquela época, eu realmente acreditava que nossa conexão era eterna. Até que aquela voz incessante no telefone destruiu minha fantasia.
Lucca nunca foi de falar muito; comigo, ele era sempre contido e paciente. Eu nunca tinha percebido que ele só demonstrava aquela intensidade vibrante e humana quando estava "discutindo" com Viviane. Ao pensar nisso, meu corpo endureceu. Nem sei como consegui desligar aquele aparelho.
Olhando para Viviane, que ainda escolhia produtos na seção de utilidades, senti vontade de confrontá-la, mas a coragem me faltou. Saí da loja e entrei em uma cabine telefônica externa. Meus dedos tremiam. Mesmo sabendo o número de cor, errei várias vezes antes de completar a ligação.
O telefone tocou por um longo tempo. Quando pensei que ninguém atenderia, uma voz estranha surgiu: — Alô? Quem fala?
Apertei o fone com força, pronunciando cada sílaba: — É a Sâmia.
Ao ouvir meu nome, o homem do outro lado brincou imediatamente: — Capitão Lucca! A patroa ligou para fiscalizar! Antes de passar o telefone, o homem ainda tentou defendê-lo: — Fique tranquila, Sâmia. O Capitão é o exemplo de integridade por aqui. Todos os rapazes se espelham nele!
Lucca era o comandante do esquadrão. Ele sempre me dizia que aqueles soldados eram como sua família, homens que enfrentavam a morte ao lado dele. Logo, o telefone estava em suas mãos:
— O que foi, Sâmia?
— Eu...
Eu não sabia como começar. Percebendo minha hesitação, Lucca ficou tenso imediatamente: — Aconteceu alguma coisa? Estarei em casa em breve, não se desespere. Respire e me conte devagar.
Sua voz era gentil como sempre, mas agora trazia apenas um frio cortante. Antes que eu pudesse falar, Lucca acrescentou, como se tivesse lembrado de algo: — Foi a Viviane de novo, não foi? Falando bobagens no seu ouvido? Ela não suporta nos ver bem, ignore o que ela diz. Eu já entreguei o relatório de casamento, logo estaremos juntos para sempre.
Juntos para sempre? Ao ouvir aquilo, senti apenas o gosto amargo da ironia.
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