Alguns dias depois, Henrique estava imobilizado em uma maca, incapaz de enxergar qualquer coisa, com os olhos cobertos por gazes brancas como a neve. A cada duas horas, o sangue começava a transbordar pelas bandagens, e Alice, usando apenas uma das mãos, trocava os curativos com extrema lentidão.
"Alice?", chamou Henrique ao recobrar a consciência, com a voz profundamente rouca.
"Sim, sou eu", respondeu ela.
"Você está bem?", perguntou ele, demonstrando preocupação.
Alice franziu a testa: "Henrique, quantas vezes eu te disse para voltar para casa? Você não ouviu. Estava esperando por este momento? Você tem noção de que quase morreu?".
Henrique hesitou por um instante: "Eu não planejei este momento, mas agora que ele chegou, fico feliz por estar aqui e ter salvado você". "Eu não consigo imaginar... se eu estivesse longe, no meu país, e recebesse a notícia de que algo aconteceu com você, eu certamente enlouqueceria!", ele soluçou.
"E você acha que eu me sinto bem vendo você deitado aqui? Se você morresse por minha causa, acha que eu teria paz pelo resto da minha vida?", Alice disse pausadamente. "Henrique, você sempre foi tão egoísta. Você só pensa em si mesmo, nunca em mim". "Você sabia que este lugar é perigoso e mesmo assim insistiu em vir, matando sua família de preocupação!" Alice não conseguia conter as lágrimas. Antes de ele acordar, ela não parara de chorar.
Embora em seu coração eles já estivessem divorciados e não houvesse mais amor ou possibilidade de volta, ela não podia aceitar ver o homem que um dia amou naquele estado à sua frente. Ela lutara tanto para partir, para finalmente se sentir livre, mas Henrique insistira em segui-la, tentando novamente usar o chamado "amor" para acorrentar suas asas. No passado, ela fora acorrentada, e qual foi o resultado? Henrique se cansara e buscara diversão fora de casa.
Henrique engoliu em seco e, após um longo silêncio, disse: "Eu não sabia que você... pensava assim". "Fique tranquila, eu te salvei porque quis. Não espero gratidão nem agradecimentos. Se eu morrer ou ficar ferido, a culpa é minha. Não usarei este incidente para te forçar a me perdoar ou a ficar comigo", explicou ele com seriedade.
"Meu braço direito sofreu uma fratura cominutiva, mas o problema são os seus olhos. O período ideal para a cirurgia é dentro de dez dias. Se eu pudesse operar você, a chance de recuperar a visão seria de sessenta por cento", Alice fez uma pausa, e Henrique entendeu a gravidade.
"Então eu sou realmente azarado. Justo quando você se fere, eu preciso de cirurgia. Seu braço dói?", perguntou Henrique em um tom casual.
Alice perdeu o controle emocional: "Você pode ficar cego para sempre, entende?!". "O Gabriel não tem confiança para fazer esta operação. Aqui, eu sou a única médica capaz de realizá-la!", enfatizou ela.
"Talvez seja o carma agindo. No passado, quando eu feri os olhos, foi você quem me salvou. Nas entrevistas, eu até dizia que você era os meus olhos". "Quem diria que eu passaria por um segundo terremoto, feriria os olhos novamente e, justo quando ninguém mais pode me salvar exceto você, o seu braço estaria quebrado". "Alice, eu mereço isso. Não se sinta culpada, falo sério", confortou Henrique.
"Eu já avisei seus pais. Eles chegam em dois dias", disse Alice, recuperando a calma.
Henrique disse ansioso: "Eu salvei aquela idosa, não você".
"Está com medo de que sua mãe me ataque?", Alice riu com amargura.
"Tenho medo de que você saia machucada", Henrique suspirou. Dois dias depois, os pais de Henrique de fato chegaram.
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Ao ver Henrique com a parte superior do corpo enfaixada como uma múmia, Helena sentiu o coração despedaçar-se. Ricardo apenas olhou por um instante e desviou o rosto, profundamente abalado. Ao saberem que apenas Alice poderia operar os olhos de Henrique, Helena ajoelhou-se publicamente aos pés de Alice. Ela acreditava que Alice guardava rancor e, por isso, se recusava a operá-lo.
"Por favor, não faça isso, levante-se...", Alice pediu angustiada.
"Alice, me desculpe. Nós fomos preconceituosos com você no passado, mas agora só você pode salvá-lo. Pelo tempo em que foram casados, você vai mesmo deixá-lo ficar cego?". "Eu te imploro, salve o meu filho", Helena implorou entre lágrimas.
"Não é que eu não queira salvar, é que eu não posso. Se esperarmos meu braço curar totalmente, o tempo para a cirurgia dele terá passado. Sugiro que o levem de volta para o nosso país e busquem o melhor especialista em oftalmologia", Alice explicou. Helena então notou o braço imobilizado de Alice e caiu ao chão, desolada.
Henrique, ouvindo o barulho, tentou descer da maca e disse ansioso: "Mãe, não a pressione. A culpa não é dela". "Eu te disse para não vir, mas você insistiu! É claro que a culpa é sua!", Ricardo exclamou furioso. Henrique gemeu de dor e tentou se aproximar rastejando: "Pai, mãe, voltem para casa. Aqui é perigoso demais".
Helena enxugou as lágrimas e ajudou Henrique: "Meu filho, vamos voltar. Eu vou encontrar o melhor médico para você". Henrique deu um sorriso amargo: "Mãe, a melhor médica é a Alice...". "Vamos procurar, talvez exista alguém melhor, quem sabe?", Helena disse, com o coração pesado.
"Eu não vou embora", afirmou Henrique obstinado. "Você vai sim", Alice disse friamente. "Eu quero ficar aqui...".
Alice o interrompeu: "Você agora é um paciente. Se houver outro desastre, teremos que mobilizar recursos para transferir você ou tratar complicações. Você não pode ajudar em nada aqui. Por que quer ficar?". "Mas...", Henrique suava de ansiedade.
Ricardo tomou a decisão final: "Tragam alguém, amarrem-no se necessário e levem-no daqui. Trataremos dele em casa". "Pai, eu não vou!", Henrique gritou, golpeando o chão com força. Alice interveio: "Saiam todos, por favor. Quero falar com ele a sós". Gabriel olhou para ela preocupado, mas Alice balançou a cabeça tranquilizando-o.
Quando todos saíram, Alice sentou-se ao lado de Henrique. "Henrique, você sabe quando foi que eu mais te odiei?", perguntou ela, olhando para a terra árida à distância. Henrique balançou a cabeça confuso.
"O momento em que mais me emocionei foi quando soube que, após eu perder o útero, você subiu a montanha sob a tempestade para buscar um amuleto para mim". "Naquela hora, achei que fosse a mulher mais feliz do mundo". "Todos diziam que eu tinha sorte por ter você, rico, bonito e tão apaixonado", ela sorriu tristemente.
Henrique balançou a cabeça com força: "A sorte era minha. Sem você, eu estaria cego ou morto há muito tempo".
Alice continuou: "Mas o momento de maior dor e ódio foi descobrir que, na noite da minha cirurgia, você estava com a Camila". "Não estou trazendo isso à tona para cobrar dívidas antigas, eu já deixei isso para trás". "Na África do Sul, lidamos com a vida e a morte todos os dias. Diante da morte, o amor e o ódio perdem o peso. Não há nada que eu não possa perdoar aqui".
As palavras de Alice atingiram o coração de Henrique como um golpe fatal. Ele percebeu, de repente, que não importava o que fizesse, nunca recuperaria aquele amor. Nem mesmo oferecendo a vida. Sua Alice já havia partido definitivamente do mundo dele.