"Volte para casa. Ficar aqui não faz sentido para você, e eu não quero te ver."
Cada palavra de Alice era como uma lâmina cravada no peito de Henrique, deixando-o em carne viva. Mas ele não tinha o direito de reclamar da dor. Não tinha esse direito há muito tempo. Ele mesmo havia criado aquela situação. Após dizer isso, Alice se virou e partiu, chegando a pisar no diário dele caído ao chão.
Henrique não ousou mais pedir perdão de forma agressiva. Nos dias que se seguiram, ele apenas a acompanhava em silêncio, observando-a e também analisando o Dr. Gabriel. Eles tinham uma sintonia incrível; bastava um olhar para saberem o que o outro precisava. Gabriel cuidava muito bem de Alice, e o brilho em seus olhos revelava sua admiração por ela.
Ver alguém muito mais adequado ao lado de Alice fazia Henrique sentir um misto de inveja e ódio, mas ele não ousava intervir. Não queria ver o olhar de desprezo dela novamente. Durante os dias de reconstrução da área atingida pelo desastre, Henrique trabalhou duro. Ele se tornou como um tijolo na construção: ia para onde quer que fosse necessário. Para garantir que todos tivessem água, ele caminhava dezenas de quilômetros para buscá-la. Para que as crianças tivessem pão, como não conseguia o produto pronto, buscava farinha e aprendia a fazê-lo.
Alice começou a não reconhecê-lo mais. Henrique havia mudado muito. Infelizmente, aquelas mudanças não tinham mais nada a ver com ela. Outros médicos perguntavam sobre a relação deles e até tentavam falar bem de Henrique, mas Alice nunca cedeu. Em seus olhos, o amor simplesmente havia acabado. Às vezes, quando ela não estava ocupada, Henrique tentava compartilhar notícias do país, como o destino trágico de Camila, mas Alice não demonstrava o menor interesse.
Em um piscar de olhos, três meses se passaram com Henrique seguindo Alice. Ali, ninguém sabia de sua infidelidade ou de que ele era o famoso CEO do Grupo Henrique. Graças ao esforço da equipe médica por três meses, a situação dos feridos finalmente se estabilizou. No campo de refugiados, Henrique sugeriu organizar uma pequena festa ao redor de uma fogueira, o que deixou as crianças sobreviventes muito animadas.
Naquela noite, Henrique bebeu pela primeira vez desde que chegara à África do Sul. Embriagado, ele observava Alice de longe enquanto ela servia leite para as crianças. Seus olhos estavam vermelhos de emoção.
"O Henrique é esforçado... vir de tão longe, deixar de ser um grande CEO para buscar a esposa. A Dra. Alice tem um coração de pedra", comentou um médico. "Então ele veio atrás dela?", fofocavam outros. "Claro, quem mais deixaria a presidência de uma empresa para fazer o que ele faz?".
Henrique conseguiu um buquê de begônias um tanto murchas e, cambaleando, aproximou-se: "Ela está brava comigo... ela quer o divórcio...". "Dra. Alice também é difícil, por que vir se torturar num lugar desses?", questionou um colega. "Ela não está se torturando, estar aqui sempre foi o ideal dela", respondeu Henrique.
Ao cair da noite, sob um céu estrelado, Henrique ajoelhou-se diante de Alice e ofereceu as flores: "Alice, você pode me perdoar?".
Alice suspirou: "Se eu te perdoar, você vai se sentir em paz? Se for assim, eu te perdoo".
Ela se curvou e aceitou o buquê. As begônias colhidas jamais teriam o brilho daquelas que ainda estavam no pé. E o coração dela já havia morrido junto com as árvores do antigo jardim, enterrado em algum lugar distante.
Henrique sentiu os olhos brilharem e soltou um sorriso bobo: "Sério? Você me perdoa?". Alice assentiu: "Mas não há mais chance para nós". O sorriso dele congelou.
Alice partiu, e ele permaneceu ali, ajoelhado. Uma criança africana aproximou-se curiosa, perguntando se ele havia deixado a "mamãe" brava. Muitas crianças ali haviam perdido suas mães e viam em Alice uma figura materna, já que ela era a única médica mulher na missão há tempos. Como não podia mais ter filhos, Alice tratava todas com imenso carinho, e elas até aprendiam mandarim para chamá-la de "mãe".
Ao ouvir o termo, Henrique desabou em lágrimas. Lembrou-se do acidente de carro e de como Alice sacrificara sua fertilidade para salvá-lo. "O que eu devo fazer? O que eu faço?", ele soluçava abraçado à criança, que batia em suas costas tentando confortá-lo.
Henrique adormeceu devido à embriaguez, mas às três da manhã, um forte tremor secundário o despertou. Atordoado, ele viu todos correndo em meio à escuridão e ao caos. Desesperado, começou a procurar por Alice.
"Viram a Dra. Alice?". Ele perguntava a cada médico que passava. "Deve estar lá na frente", indicou um deles. Ao correr para lá, Henrique viu o chão cedendo e uma enorme rocha prestes a atingir uma idosa. Gabriel estava ocupado resgatando uma criança e apenas pôde gritar o nome de Alice enquanto ela corria para ajudar a senhora.
Henrique lançou-se sem hesitar, empurrando a idosa e protegendo Alice com o próprio corpo. No momento do impacto, Alice ouviu nitidamente o som de ossos se quebrando atrás dela. Henrique cuspiu sangue quente no rosto de Alice antes de desmaiar. Ele bloqueou a maior parte do impacto, mas um fragmento de rocha atingiu o braço direito de Alice, causando-lhe uma dor insuportável.
"Rápido, ajudem aqui!", gritou Gabriel, tentando mover a pedra. "Henrique, você está bem?", Alice perguntava, tentando olhar para trás. Henrique estava inconsciente, com ferimentos graves no dorso e na cabeça.
Após moverem a rocha, Alice tentou verificar Henrique, mas sentiu uma pontada terrível; seu braço sofrera uma fratura cominutiva. "Seu braço está muito mal, não se mexa", alertou Gabriel. Alice apenas pôde observar Gabriel realizar os primeiros socorros. Lágrimas caíam sem parar; naquele momento de vida ou morte, ela sentiu que o amor ou o ódio não tinham mais importância.
Henrique quebrou cinco costelas, passou por horas de cirurgia e sofreu um traumatismo craniano. O pior de tudo foi que, na queda, fragmentos de pedra atingiram seus olhos, causando uma lesão ocular gravíssima.