Sempre que Henrique encontrava alguém que conhecia Alice e tinha uma boa impressão dela, um sorriso de satisfação surgia em seu rosto.
Mesmo que eles se desencontrassem repetidamente — muitas vezes Henrique chegava a um local logo após a partida de Alice —, ele não desanimava. Ele sentia silenciosamente tudo o que a África do Sul tinha a oferecer, observando a fumaça das batalhas e fazendo o possível para ajudar as pessoas locais.
Ao presenciar tantos desastres, Henrique começou a entender o que significava ser um médico sem fronteiras e a grandeza da missão que Alice escolhera.
Em várias ocasiões, ele quase perdeu a vida em zonas de guerra e acumulou cicatrizes por todo o corpo, mas nunca proferiu uma única palavra de queixa.
Quando outros médicos lhe perguntavam se ele se arrependia de estar ali, em vez de estar no conforto de um escritório com ar-condicionado, Henrique apenas balançava a cabeça; encontrar Alice era agora o único propósito de sua vida.
Dois anos e meio se passaram. Henrique percorreu todos os caminhos que Alice trilhara e conheceu pessoas de todas as realidades.
Ele começou a escrever um diário, inspirado pelo hábito de Alice de escrever notas e lembretes. Suas páginas transbordavam saudade e a dor do remorso. Sempre que encontrava uma criança que Alice atendera, pedia que alguém tirasse uma foto dele com ela.
Naquele caos, ninguém sabia se teria um amanhã. Caso ele não visse o sol nascer novamente, ao menos Alice ou seus pais poderiam vê-lo através das fotos nos celulares de terceiros. Ele despertava todos os dias ao som da artilharia e adormecia exausto, abraçado à fotografia de Alice.
Antes do amanhecer, um médico acordou Henrique com pressa. "Precisamos partir! Houve um terremoto severo a dez quilômetros daqui. Todos os médicos estão indo para lá. Talvez a Dra. Alice esteja presente!" Ao ouvir o nome dela, Henrique levantou-se num salto. Ele arrumou suas coisas rapidamente e partiu junto com os primeiros raios de sol.
O trabalho de resgate era incessante. Alice, que mal conseguira dormir às duas da manhã, fora acordada às três e meia para continuar o atendimento sem fim. Após tanto tempo de trabalho exaustivo, ela mal tinha tempo para o café da manhã. Naquele momento, seu estômago começava a latejar de dor. Somente ali ela percebera que as chamadas "horas extras" no Hospital Sanmin não eram nada comparadas a isso. Naqueles hospitais de campanha, não havia horários para refeições, sono ou sequer higiene básica. Quando a artilharia se aproximava, precisavam se mover instantaneamente.
Gabriel já perguntara a Alice se ela se arrependia. No país de origem, o máximo de cansaço vinha de algumas cirurgias a mais; ali, a luta pela vida era contra o relógio e a tensão era constante, mesmo durante o sono. Mas Alice não se arrependia. Comparado a reuniões e lidar com familiares difíceis, ela sentia que ali seu papel era muito mais significativo. Após seis meses na região, sua gastrite piorara. Gabriel sempre tentava cuidar dela, preparando alimentos leves para que ela pudesse forrar o estômago entre os atendimentos, mas quando ele também estava sobrecarregado, Alice precisava apenas resistir. Naquele exato momento, ela ignorava a dor gástrica enquanto realizava uma ressuscitação cardiopulmonar em uma criança. Henrique chegou ao local, mas inicialmente não conseguiu avistá-la.
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O cenário era de destruição total após o terremoto. Henrique via feridos por toda parte e médicos correndo desesperados entre eles. Alguém implorou por comida, e Henrique entregou a única espiga de milho que tinha na mochila. Embora não fosse médico, ele seguia os profissionais, ajudando no que podia. Ao entrar na área mais caótica do acampamento de refugiados, ele finalmente viu a figura familiar.
Dois anos e meio. Henrique lembrava-se com precisão: era o dia setecentos e trinta e oito desde que Alice o deixara, e seu setecentésimo trigésimo dia em solo sul-africano. Ele finalmente a encontrara. Seus olhos se encheram de lágrimas instantaneamente. No segundo seguinte, ele percebeu que o corpo de Alice vacilava, prestes a desabar. Ele correu e a segurou cuidadosamente pelos ombros.
Alice, tentando recobrar os sentidos, murmurou: "Obrigada, Gabriel...". O coração de Henrique, que batia acelerado, gelou no mesmo instante. Gabriel? Quem era ele? Alice, percebendo o silêncio, ergueu os olhos e encontrou o olhar do homem que outrora fora seu mundo. Ela jamais imaginara ver Henrique ali. "Você... como você...", ela disse, desvencilhando-se de seus braços.
"Você não está bem?", perguntou Henrique, franzindo a testa preocupado. "Não é nada, apenas um pouco de dor no estômago", respondeu Alice, voltando imediatamente ao atendimento. Henrique ficou ao seu lado e, após pensar, tirou um pão de sua mochila e o ofereceu a ela. Alice recusou.
"Você vai desmaiar no meio dessa emergência se não comer!", insistiu Henrique, ansioso. Finalmente, Alice cedeu e deu uma mordida. Conseguir comida naquela situação era um luxo. Henrique usara quase todas as suas economias naqueles anos, e o que restava vinha do apoio que sua mãe enviava em segredo para que ele não passasse necessidade. Henrique permaneceu ali, observando-a terminar o pão. Quando Gabriel se juntou a eles para salvar a criança, Henrique sentiu uma pontada de inveja da sintonia entre os dois.
Tarde da noite, quando o perigo imediato passou, Henrique sentou-se ao lado de Alice. Após um longo silêncio, perguntou com dificuldade: "Gabriel é o médico que estava com você hoje?".
"Isso não é da sua conta. Você não leu o acordo de divórcio?", respondeu Alice friamente. "Li, mas eu não aceito o divórcio", retrucou ele. Henrique tirou o documento amassado do peito e o rasgou diante dela. Enquanto os pedaços de papel voavam com o vento, Alice disse suavemente: "Como queira. No meu coração, já estamos divorciados".
"Alice... eu te procurei por dois anos e meio. Sonhei com você todas as noites. Eu sei que errei, me dê apenas uma chance", implorou ele. "Veja, escrevi diários para você...". Alice derrubou o caderno ao chão e o olhou com frieza: "Não sei como me encontrou, nem como seus pais permitiram que viesse para um lugar tão perigoso. Mas dizer que o passado foi esquecido é hipocrisia. Não há mais volta entre nós. As luzes da cidade deixaram claro: eu não te amo mais. Essa é a verdade".