Aquele aplicativo havia sido instalado por ela e Henrique antes do casamento; por segurança, nenhum dos dois jamais havia desligado a localização. Alice voltou para casa sozinha.
Faltavam nove dias para a partida.
Ela ficou parada no jardim sob a chuva, com os olhos vermelhos, ordenando que cortassem aquelas begônias. Ao ver suas preciosas árvores sendo arrancadas pelas raízes, Alice não sentiu nenhum alívio. Sentia que seu amor havia morrido junto com aquelas árvores.
Cenas de Henrique plantando as begônias com ela surgiam diante de seus olhos. "Quando as begônias florescerem, vamos andar de balanço juntos no jardim, tudo bem?" Eles haviam prometido. No entanto, Alice olhava fixamente para as árvores caídas: ela não esperaria mais pelo florescer.
"Que pena, estavam tão bonitas, iam florescer no mês que vem..." comentou um dos trabalhadores. "Não se meta, se a patroa disse que não quer, é porque não quer. Para o Sr. Henrique, a palavra dela é lei," cochichou o outro.
Após a perda das begônias, Alice sofreu uma crise de pancreatite, algo que não acontecia há muito tempo. A dor a deixou confusa. Em meio ao torpor, ela ligou várias vezes para Henrique, mas ele não atendeu. Por fim, ela se lembrava de ter discado para a emergência antes de desmaiar.
Henrique só voltou no dia seguinte, embriagado. Ao passar pelo jardim, olhou para o espaço vazio por um longo tempo, mas não notou nada de diferente. Então, curvou-se e vomitou exatamente onde as begônias costumavam estar. Após vomitar, recuperou um pouco da sobriedade, entrou na sala e subiu para o quarto principal. Ao deitar-se e abraçar Alice, soltou um suspiro de satisfação.
No segundo seguinte, o som da sirene da ambulância ecoou do lado de fora. Henrique tentou acordar Alice e percebeu que ela estava inconsciente. Pressentindo o pior, pegou-a nos braços e desceu as escadas. "A Dra. Alice ligou para o hospital, disse que teve uma crise de pancreatite..." disse um colega dela que chegava.
"Levem-na depressa para o hospital," ordenou Henrique, tentando manter a calma, embora suas mãos estivessem geladas de pavor. Não era a primeira vez que ela tinha pancreatite, mas a última crise fora há anos. Devido à profissão, Alice frequentemente pulava refeições e virava noites, o que causava as crises. No entanto, desde que Henrique passara a cuidar dela, garantindo suas refeições, ela nunca mais adoecera.
Agora, Henrique segurava a mão de Alice, sem saber o que fazer, olhando para as chamadas perdidas no celular e arrependendo-se da noite que passara com Camila. Camila ligou novamente, mas ele desligou sem hesitar.
Alice foi levada para o hospital onde trabalhava e recebeu tratamento de emergência. Quando abriu os olhos, deparou-se com os olhos injetados de Henrique. "Meu amor, você me deu um susto mortal," ele sussurrou, beijando a mão dela com as mãos trêmulas. Alice deixou uma lágrima escapar, mas não disse uma única palavra.
Durante os três dias de internação, ele quase não saiu do lado dela. Contudo, sempre que Camila tentava contatá-lo, ele sentia o peso da culpa. No dia da alta, ao passarem pelo jardim, Henrique finalmente notou o desaparecimento das begônias.
"O que aconteceu? Onde estão nossas árvores? Quem teve a audácia de destruir nossas begônias?" Henrique explodiu de raiva, questionando a Sra. Vera, que estava trêmula a um canto.
"Eu mandei cortar. Elas morreram," respondeu Alice, pálida, com um sorriso forçado.
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Henrique entrou em pânico: "Então vou mandar trazer outras já crescidas, talvez ainda floresçam este ano..."
Alice olhou para o terreno vazio e murmurou: "Não precisa. O que morreu, morreu."
Henrique a abraçou por trás: "Não fale assim de morte, não me assuste."
"Henrique, seu aniversário está chegando. Preparei um presente para você," disse Alice suavemente. "Sério? Mal posso esperar," ele sorriu, radiante.
De repente, o toque do celular quebrou a paz. Henrique atendeu e sua expressão escureceu. "Alice, houve um problema na obra e um acionista quer se retirar, preciso resolver isso agora. Se não quiser jantar fora, peço ao motorista que te leve, pode ser?" Alice assentiu em silêncio, observando as costas dele enquanto ele partia. No passado, era Henrique quem observava as costas dela; agora, ela via que não podia salvar o amor deles.
Pouco depois, Alice recebeu uma foto de Camila: um teste de gravidez positivo. O coração de Alice doeu. Henrique havia quebrado a promessa novamente.
Há seis meses, a caminho de um encontro, eles sofreram um acidente. No momento crítico, Alice protegeu Henrique, o que resultou em uma hemorragia grave e na perda de seu útero. Henrique ficou aterrorizado. Antes da cirurgia, ele jurou que a amaria não importasse o que acontecesse. Ao saber que ela não poderia mais ter filhos, ele disse que não se importava, que só queria Alice bem. Henrique a pediu em casamento pela oitava vez ali mesmo. "Alice não só me trouxe a luz, como perdeu o útero por minha causa. Se eu falhar com ela, que o céu me castigue," ele declarou.
Alice, comovida, aceitou. Mas a realidade agora lhe dava um tapa na cara. O homem que fizera tais promessas não se conteve e engravidou outra mulher.
Camila enviou: [Estou grávida. Henrique riu de você na minha frente, dizendo que você é uma galinha que não põe ovos, que é inútil. Ele está vindo me ver agora.]
[Como um homem de sucesso aceitaria não ter um herdeiro? Só você foi burra de acreditar nisso.]
[Alice, talvez ele tenha te amado no passado, mas isso ficou para trás. Agora a paixão dele é toda minha. É ruim se sentir sozinha em casa?]
[Meu Deus, ele é incrível. Chegou rápido e trouxe meu lanche de carne favorito.]
Camila enviou uma foto de um doce japonês e outra de Henrique lavando os pés dela. Alice olhava para tudo aquilo entorpecida. Ela retrocedeu no feed de Camila até encontrar a postagem de 31 de julho, às 23h58.
Naquela hora, Alice estava na sala de cirurgia removendo o útero. Camila postara: [Meu herói atravessou a tempestade para me trazer meu lanche favorito. Quem te ama não poupa esforços.] A foto mostrava o lanche e a camisa branca de Henrique, transparente pela chuva. Alice lembrava-se que naquele dia caíra a maior tempestade em décadas.