No nonagésimo nono dia de seu doce casamento com Henrique, Alice apresentou ao diretor do hospital seu pedido para se juntar à missão de ajuda médica na África do Sul.
O diretor perguntou repetidamente: "Dra. Alice, você acabou de se casar. Tem certeza de que quer ir para tão longe? E o seu marido..."
"Tenho certeza," Alice respondeu com uma calma absoluta.
O diretor suspirou e, finalmente, assinou e carimbou o formulário de inscrição.
"O projeto de assistência médica na África do Sul dura três anos e a partida será em dez dias. O hospital cuidará das passagens. Dra. Alice, espero que não se arrependa".
Alice olhou pela janela e, por algum motivo, lembrou-se das begônias que Henrique havia plantado para ela no jardim.
Ela balançou a cabeça: "Eu não vou me arrepender".
Ao mesmo tempo, Henrique havia alugado os telões de LED de todos os prédios da cidade para exibir mensagens celebrando o aniversário de sua amada esposa.
Naquela noite, fogos de artifício iluminaram o céu.
Henrique queria que a cidade inteira soubesse o quanto ele amava Alice.
Quando Alice saiu do trabalho, caía uma tempestade. Henrique já a esperava ansiosamente no portão do hospital.
Ao vê-la sair, ele se aproximou com um guarda-chuva para buscá-la.
"Está com fome? Reservei aquele jantar francês que você adora. Desculpe, eu prometi que celebraríamos a cada noventa e nove dias de casados, mas tive uma viagem de negócios inesperada ontem. Gostou da surpresa que preparei?"
Henrique colocou a mão sobre o teto do carro, protegendo Alice enquanto ela se acomodava no banco traseiro.
Dentro do carro, Alice olhou para cima e viu as mensagens românticas nos prédios. Foi, de fato, uma surpresa.
Os letreiros exibiam declarações profundas: — Alice, felizes noventa e nove dias de casados. — Henrique amará Alice para sempre. — Alice, ficaremos juntos até envelhecermos.
Durante todo o dia anterior, Alice foi alvo da inveja alheia.
No café da manhã, as enfermeiras que a cumprimentavam comentavam: "Dra. Alice, que inveja! Ser bonita é ótimo, você conseguiu domar aquele 'garotão' do Sr. Henrique direitinho".
"Dizem que a senhora é o primeiro amor dele. Onde se encontra um homem tão fiel hoje em dia? Rico, bonito e um verdadeiro romântico".
"Doutora, ensina a gente? Como conquistar o coração de um homem seis anos mais novo?" as enfermeiras brincavam, apontando para as luzes nos prédios.
"O Sr. Henrique era conhecido por ser um deus intocável, cercado de mulheres lindas, mas nenhuma chamava sua atenção..."
Mesmo durante o dia, os telões brilhavam. O prédio em frente ao hospital pertencia ao Grupo Henrique.
Henrique dizia que queria poder olhar pela janela, estivesse em uma reunião ou trabalhando, e ver onde Alice trabalhava.
Naquela época, Alice respondia feliz: "É o destino".
Ela era seis anos mais velha que Henrique.
Quando Henrique estava no último ano do ensino médio, ela já estava no mestrado.
Se não fosse por aquele terremoto, eles nunca teriam se conhecido.
Alice lembrou-se subitamente daquele desastre repentino.
Naquele ano, antes mesmo de se formar, ela se voluntariou para ir ao campo de batalha pós-desastre com seu orientador.
Lá, ela trabalhou dia e noite, lutando contra a morte para salvar uma vida após a outra.
Henrique foi um dos feridos que ela atendeu.
O ferimento dele era justamente na área de especialidade dela: os olhos.
Quando ele foi levado às pressas para o hospital, a situação era crítica; ele tinha uma lesão ocular grave e corria o risco de perder a visão.
No entanto, ao ouvir outras crianças chorando, ele ignorou o sangue que escorria de seus olhos, segurou firmemente a mão de Alice e disse calmamente: "Salve as crianças primeiro".
Naquele momento, Alice começou a ver aquele jovem herdeiro com outros olhos.
——————————
Havia ordens para priorizar o tratamento de Henrique, por ser ele o único herdeiro do Grupo Henrique.
Mas Henrique cedeu seu tempo de ouro para salvar uma criança desconhecida.
Naquele dia, Alice pediu aos colegas que atendessem a criança primeiro, enquanto ela enfrentava todas as dificuldades para realizar a cirurgia em Henrique.
Eles criaram um vínculo através daquela cirurgia de emergência.
Desde então, Henrique não largou mais Alice.
No entanto, no dia anterior, enquanto todas as mulheres da cidade a invejavam, Alice se envolveu em uma pequena colisão de carro a caminho de casa.
A mulher do outro veículo, com um sorriso radiante, pediu para verificar as gravações da câmera de bordo.
No momento em que abriu o vídeo, Alice ouviu claramente a voz de seu marido, Henrique: "Amor, você é tão quente." "Como você pode ser tão provocante, hein? Diga, onde conseguiu esse jaleco de médica?"
A voz rouca e apaixonada de Henrique, que deveria ser calorosa, fez Alice se sentir em um abismo de gelo.
De volta ao presente, Henrique abraçou Alice e sussurrou em seu ouvido: "Alice, senti sua falta".
Alice ficou rígida em seus braços. Pelo canto do olho, ela viu claramente, entre as frestas do banco traseiro, uma camisinha usada.
Henrique, naturalmente, também viu.
Sem mudar a expressão, ele pegou o objeto e questionou o motorista na frente de Alice: "Eu não exigi que, ao emprestar o carro, avisasse para não fazerem bagunça? Eu e a Alice somos sistemáticos com limpeza".
O motorista, suando frio, aceitou a culpa constrangedora: "Sim, sim, Sr. Henrique".
Alice soltou um sorriso debochado.
"Sistemáticos com limpeza."
Ele sabia que ela era detalhista, e ainda assim teve a coragem de usar aquele carro para suas aventuras sexuais baratas.
Isso era o que ele chamava de amor profundo?
Alice encarou Henrique. Quando ele começou a fingir?
Ela não conseguia notar. Henrique passava a maior parte do tempo ao lado dela.
Lá fora, a chuva voltou a cair.
Henrique tentou beijá-la com fervor, mas ela não retribuiu.
Sempre que ele se aproximava, ela lembrava dos sons da gravação.
Estridente, repugnante.
Alice acabou soltando um som seco de náusea.
Henrique franziu a testa, um pouco descontente, mas logo demonstrou preocupação e acariciou o ventre dela em tom de brincadeira: "Será que já tem um principezinho ou uma princesinha morando aqui dentro?"
Alice pensou com amargura: por mais que Henrique brincasse, eles nunca teriam filhos.
Ela já havia perdido o útero por causa dele.
E no momento em que Henrique escolheu traí-la, ele se tornou impuro.
Alice havia dito, ao aceitar seu pedido de namoro, que não queria um homem "sujo" por outras.
Henrique prometeu repetidamente que ela era o suficiente, que não queria filhos, não queria nada além dela.
Aquelas palavras de amor eram tão comoventes outrora.
Ontem mesmo, no trabalho, durante as cirurgias, ela ainda se sentia imersa em uma felicidade imensa.
Quando Alice tinha doze anos, seus pais morreram em um país distante; ambos eram médicos humanitários.
Tendo perdido os pais cedo, Alice dedicou toda a sua paixão à medicina.
Ela achava que nunca se apaixonaria, nem se casaria.
Seu plano era percorrer todos os cantos do mundo que precisassem dela, sendo uma médica salvando vidas.
Aquela cirurgia em Henrique mudou tudo.
Após o silêncio sufocante entre os dois, Alice lembrou-se da operação que alterou o rumo de sua vida.