Capítulo 21
Um mês depois, um intenso tiroteio eclodiu na zona de guerra, forçando a evacuação imediata do posto médico.
Clarice saltou para o último caminhão, e Henrique Cavalcante a seguiu de perto, espremendo-se ao seu lado e usando o próprio corpo para protegê-la da multidão apressada. "Eu vou com você." Clarice o ignorou, virando-se para verificar as talas dos feridos.
O comboio partiu em alta velocidade pela estrada de terra acidentada. De repente, tiros dispararam pelo flanco lateral!
"Cuidado!" Henrique jogou Clarice no chão do veículo instantaneamente, cobrindo-a com o próprio corpo.
Puff—
Uma bala atravessou a lateral do caminhão e atingiu o ombro direito dele.
O sangue quente jorrou no mesmo instante, manchando as costas de Clarice. Ela arregalou os olhos, encarando o rosto pálido de Henrique.
Ele forçou um sorriso distorcido, com a voz quase imperceptível: "Clara... desta vez... eu te salvei primeiro..."
"Desculpe... e... eu te amo..." Dito isso, ele desmaiou.
"Maca! Rápido!" Clarice gritou desesperada, com a voz carregada de um tremor quase imperceptível.
No centro cirúrgico improvisado, Clarice vestiu o avental manchado de sangue. Como quase não restava anestesia, ela limpou a ferida e procurou o projétil sem mudar a expressão.
Henrique acordou parcialmente em meio à dor terrível. Olhando para o perfil focado de Clarice, perguntou com a voz rouca: "Clara... se eu morrer... você vai se lembrar de mim?"
A mão de Clarice era firme e precisa. Com a pinça, ela extraiu a bala de uma vez.
"Não," respondeu ela com a voz serena.
Henrique, deitado na mesa cirúrgica simples, olhou para o halo de luz oscilante acima de sua cabeça e, de repente, soltou uma risada baixa.
O riso repuxou a ferida, fazendo-o fazer caretas de dor, mas ele não conseguia parar de rir. Riu até que as lágrimas caíssem, misturando-se ao suor frio e à sujeira de sangue que escorria por seu rosto.
"Hehe... você é mesmo implacável, Clarice..." Ele ria entre arquejos, com a voz entrecortada.
Então, o riso cessou. Ele virou a cabeça para observar Clarice, que terminava de dar os pontos, e com o olhar vazio, acrescentou baixinho, como um suspiro ou um veredito final:
"Mas eu mereço."
Sim, ele merecia. Merecia carregar aquela dor que dilacerava a alma, merecia aquela resposta gélida e definitiva, e merecia passar o resto da vida em luto por aquele amor que ele mesmo incinerou.
Clarice continuou a sutura sem olhar para ele novamente.
Ao fim da cirurgia, Henrique ardeu em febre e permaneceu inconsciente. Clarice, do lado de fora da tenda, disse ao assistente: "Assim que ele estiver fora de perigo, leve-o de volta para casa."
"O Sr. Henrique não vai embora."
"Então o apague e o leve à força," Clarice sentenciou de forma resoluta. "Estamos quites. Eu devolvi a vida dele."
Meio mês depois, o estado de Henrique estabilizou e ele já podia ser transportado. Seguindo a sugestão de Clarice, o assistente aproveitou uma das trocas de curativo para misturar uma dose generosa de sedativo no antibiótico injetado.
Henrique foi levado em um jato particular enquanto dormia profundamente, deixando para trás aquela terra devastada pela guerra e a pessoa que ele, por mais que tentasse, jamais conseguiria recuperar.
Dois meses depois, ele apareceu novamente no novo posto médico de Clarice. Sob o pôr do sol, Clarice trocava o curativo de uma menina. Após algumas palavras, a pequena sorriu entre as lágrimas, e Clarice riu junto, com um sorriso terno e sereno. Henrique, parado a poucos passos, observava a cena hipnotizado.
Clarice levantou a cabeça e, ao vê-lo, o sorriso desapareceu instantaneamente.
Henrique caminhou até ela e ajoelhou-se, abrindo com as mãos trêmulas uma caixa de veludo que revelava um anel de diamante.
"Clara, eu sei que não mereço... mas poderia me dar uma chance de passar o resto da vida me redimindo? Nem que seja apenas observando você de longe..."
Clarice baixou o olhar para ele, com os olhos calmos como águas paradas.
"Henrique Cavalcante, você ainda não entendeu?"
"Desde o dia em que você me enganou como uma ferramenta, desde o dia em que viu minhas mãos serem queimadas e virou as costas, desde o dia em que mandou arrancar o meu útero, e desde o dia em que matou o Bobi—"
Ela fez uma pausa, com o olhar gélido. "Tudo entre nós acabou. Acabou para sempre."
"Agora eu estou bem. Salvo quem eu quero salvar e faço o que quero fazer. Sem você, eu finalmente vivo como um ser humano."
"Sua redenção, seu anel, o resto da sua vida... eu não preciso de nada disso, e nem quero."
Ela virou-se para partir, mas Henrique agarrou a barra da roupa dela, com a voz rouca: "Clara... se eu morresse, você ficaria ao menos um pouco triste?"
Clarice parou, virando-se lentamente. Ela olhou para ele por um longo tempo.
"Não."
"Sua vida ou sua morte não têm nada a ver comigo."
Ela soltou, dedo por dedo, a mão que a segurava com força e partiu com as costas eretas, sem olhar para trás uma única vez.
Henrique permaneceu ajoelhado, vendo-a desaparecer atrás das tendas. O anel de diamante rolou de sua mão e afundou na areia. Ele manteve aquela postura humilde e patética por muito, muito tempo.
Até que o sol mergulhou totalmente no horizonte e a escuridão absoluta cobriu o deserto. O vento frio soprava, levantando grãos de areia que castigavam seu rosto com dor.