Capítulo 20
Clarice pareceu sentir aquele olhar ardente atrás dela, capaz de atravessá-la. Ela terminou com habilidade o último nó, cortou a gaze, acariciou a cabeça da criança e murmurou algo. Então, lentamente, ela se levantou e virou-se.
Seu olhar, calmo, pousou em Henrique Cavalcante, que estava estático na entrada da tenda. Os olhos de ambos se cruzaram. O tempo pareceu parar naquele instante.
Os lábios dele tremeram e ele finalmente recuperou a voz, seca e quebrada:
— Cla... Clara...
— Sr. Cavalcante, algum problema? — A voz dela estava tranquila.
— Como você me chamou?
— Sr. Cavalcante. Ou prefere que eu o chame de CEO Henrique?
Sr. Cavalcante. CEO Henrique. Distante, frio, uma linha clara de separação. Cada palavra era como um picador de gelo cravado no coração já destroçado de Henrique. Nos olhos dela não havia ódio, nem mágoa, apenas uma indiferença absoluta, como se ele fosse apenas um estranho qualquer.
Um pânico imenso e uma dor avassaladora o dominaram. Ele esticou a mão bruscamente e agarrou o pulso dela.
— Clara! — Ele quase forçou o nome pela garganta, com a voz embargada em um apelo humilde. — Eu errei... eu sei que errei... deixe-me explicar... sobre a Paola, a explosão, a cirurgia, o Bobi... eu já sei de tudo! Eu fui cego, fui um idiota, um canalha! Por favor, deixe-me explicar... eu imploro...
Clarice puxou o braço com força:
— Por favor, comporte-se. Estamos muito ocupados na zona de guerra.
Ela virou-se para sair, mas Henrique a abraçou por trás, com a voz embargada:
— Desculpe... desculpe... Clara, eu imploro... me dê uma chance... só uma... deixe-me me redimir... farei qualquer coisa... eu imploro...
Ele soluçava, falando de forma desconexa como uma fera acuada. Sua dignidade e orgulho foram reduzidos a nada diante do medo de perdê-la para sempre.
O corpo de Clarice ficou rígido:
— Me solte, ou chamarei os guardas.
Henrique não ouviu; apenas a abraçou com mais força, como se soltá-la significasse que ela desapareceria para sempre. Clarice não repetiu o aviso. Ela levantou a cabeça e disse algo claramente no idioma local para dois guardas armados que patrulhavam por perto.
Os guardas imediatamente apontaram suas armas e caminharam em direção a eles com expressões severas, gritando para Henrique em um inglês rústico:
— Senhor! Solte a Dra. Clarice! Agora!
Henrique foi forçado a soltá-la e foi arrastado para longe. Ele lutou em vão, com os olhos vermelhos fixos na silhueta dela que caminhava de volta para a tenda sem olhar para trás.
— Clarice! Eu te amo! Eu te amo de verdade! Você está ouvindo?! Clarice!
Clarice não hesitou nem por um segundo, nem sequer olhou para trás. Henrique foi escoltado para fora da linha de segurança do acampamento. Ele ficou ali, como uma casca vazia, parado na poeira, observando as tendas simples que abrigavam todo o mundo dela. Sentia um buraco no peito por onde o vento frio soprava, fazendo cada osso de seu corpo tremer.
Ela não o queria mais. Nem sequer o odiava.
Henrique não deixou a zona de guerra. Ele encontrou uma casa abandonada em uma aldeia em ruínas a alguns quilômetros do hospital de campanha. O ambiente era terrível, com falta de água e energia, mas ele não se importava. Ele permaneceu como voluntário, carregando suprimentos, limpando lixo, alimentando os feridos; suas mãos ficaram cheias de bolhas e suas roupas cobertas de sujeira.
Através de conversas casuais com outros médicos e enfermeiras, Henrique reconstruiu a trajetória de Clarice naquele último ano. Após deixar a Clínica Mayo, ela se juntou aos Médicos Sem Fronteiras. Dos campos de refugiados no sul da Ásia às zonas de conflito no Oriente Médio, ela finalmente chegara àquela zona de guerra na África. Ela nunca mais mencionou o passado; todo o seu tempo e energia eram dedicados a salvar os feridos. Ela era talentosa e calma, realizando cirurgias complexas em condições precárias e salvando inúmeras vidas.
Havia cirurgiões europeus que a admiravam, que a cortejavam com flores e livros raros na região, convidando-a para jantar. Clarice sempre recusava com firmeza e educação:
— Agradeço a sua gentileza. Mas sinto muito, eu nunca mais amarei ninguém nesta vida.
Henrique, por acaso, ouviu-a dizer isso a um médico decepcionado enquanto carregava uma caixa de gaze. Ele parou abruptamente. Seu coração pareceu ser esmagado por uma mão de gelo, causando uma dor tão aguda que ele se curvou, quase sem ar.
Ela nunca mais amaria ninguém nesta vida. Incluindo ele. Para sempre.