Capítulo 11
A vida de recém-casados não era tão doce quanto se imaginava.
Henrique continuava extremamente ocupado: reuniões internacionais, processos de fusão e aquisição, jantares de negócios... sair cedo e voltar tarde era a rotina.
Paola começou a demonstrar insatisfação.
"Henrique, me acompanhe no jantar na casa dos meus pais este fim de semana, eles disseram que sentem sua falta."
"Na próxima quarta-feira tenho a festa de aniversário de uma amiga, você precisa ir comigo."
"Este colar é bonito? Combina perfeitamente com o vestido que encomendei."
"Não me importa, você prometeu no mês passado que me levaria para esquiar na Suíça!"
As exigências dela tornavam-se cada vez mais frequentes, com um tom de voz cada vez mais presunçoso, misturando manha com um desejo de controle impossível de recusar.
Henrique atendia a tudo: comprava colares de preços astronômicos, cancelava reuniões importantes para acompanhá-la à casa dos Furtado e até começou a pedir à secretária que organizasse a agenda para a viagem de esqui.
Contudo, no fundo de sua alma, o sentimento de exaustão crescia dia após dia.
Nesse relacionamento, parecia que era sempre ele quem cedia, quem baixava a cabeça e quem satisfazia todas as vontades dela.
Paola era como um canário sofisticado que precisava ser constantemente alimentado e paparicado; o amor dela assemelhava-se mais a uma cobrança por atenção, por companhia e pelo brilho que a riqueza e o poder dele proporcionavam.
Enquanto isso, Clarice...
Henrique estava sentado em seu escritório tarde da noite, com um cigarro aceso pela metade entre os dedos. A fumaça pairava no ar, embaçando seu olhar.
Clarice nunca fora assim.
Ela era sempre silenciosa.
Esperava por ele em casa, não importava quão tarde fosse; sempre havia uma luz quente acesa na sala. Se ele bebia, havia sopa para ressaca aquecida na cozinha. Se ele estava de mau humor, ela não fazia perguntas, apenas permanecia ao seu lado em silêncio.
Ela também fazia pedidos, mas sempre de forma cuidadosa e hesitante.
"Fiz sopa hoje, você vem tomar?"
"Você terá tempo... no fim de semana?"
Se ele recusasse, ela apenas assentia e dizia "entendo, bom trabalho", com um brilho de tristeza nos olhos que logo desaparecia enquanto ela voltava aos seus afazeres.
Com Clarice, ele não precisava se esforçar para enganar ou agradar; não precisava estar em constante tensão.
Ele conseguia sentir claramente o amor vindo dela: um amor pleno, sem reservas, tão intenso que chegava a ser ardente.
Aquele amor outrora lhe parecera um incômodo, um fardo.
Mas agora, comparado às exigências incessantes de Paola, aquele afeto silencioso e profundo fazia com que, em algum canto de seu coração, surgisse um vazio estranho e doloroso.
Quase por impulso, ele pegou o celular e abriu o histórico de mensagens com Clarice.
Os balões verdes de conversa ocupavam a maior parte da tela, todos enviados por ela.
"Está chovendo, você levou guarda-chuva?"
"Seu estômago ainda dói? Comprei remédios novos para você, deixei na primeira gaveta à esquerda no escritório."
"Fiz sopa hoje, você vem tomar?"
"Cuidado no caminho."
"Boa noite."
Já as respostas dele eram escassas e invariavelmente monótonas.
"Hum."
"Ok."
"Ocupado."
"Não."
"Entendido."
A última mensagem datava de três meses atrás. Exatamente no dia em que ele acompanhara Paola para provar o vestido de noiva.
Clarice escrevera: "Fiz sopa hoje, você vem tomar?"
Ele, naquele momento sendo puxado por Paola para comparar dois tipos de véu, respondera impaciente com apenas duas palavras: "Hoje não."
Clarice não respondeu mais.
Dali em diante, o histórico de conversas era um deserto.
Henrique fixou o olhar naquelas duas palavras simples, "Hoje não". A cinza do cigarro caiu, queimando-lhe a pele, e só então ele recobrou os sentidos bruscamente.
Ele apagou o cigarro com irritação, desligou a tela do celular e afundou o corpo na poltrona de couro.
Em algum lugar de seu coração, parecia que aquelas duas palavras haviam queimado um buraco por onde soprava um vento gelado.