Capítulo 9
A expressão de Henrique finalmente mudou, mas ele logo recuperou a calma. Sua voz soou fria como de costume, carregando até um tom de deboche.
"E então?"
"E então?" Clarice soltou uma risada baixa, um som rouco e amargo. "Henrique, eu não quero mais ser seu objeto de prazer. Acabou! Terminamos de vez!"
Henrique franziu o cenho, encarando-a com um olhar gélido: "Terminar? Clarice, o relacionamento entre nós não é algo que você começa ou termina quando bem entende."
Ele caminhou até a beira da cama, olhando-a de cima com um tom de superioridade inquestionável:
"Eu sei que você está insatisfeita. Posso te compensar. Dinheiro, casa, carro ou os recursos médicos que você quiser, eu posso te dar. Estou prestes a me casar com a Paola e não quero complicações por causa disso."
"Seja boazinha e não faça cena. Quando eu me casar com ela e as coisas se estabilizarem, naturalmente voltarei a procurar você. Afinal," ele fez uma pausa, percorrendo o corpo dela com um olhar de indiferença, como se avaliasse uma mercadoria, "já me acostumei com você e, por enquanto, não tenho paciência para procurar outra."
Clarice apenas o observava em silêncio. Olhando para aquele rosto de beleza impecável, mas transbordante de crueldade, seu coração morreu completamente, apodreceu e virou cinzas.
Para ele, ela não tinha sequer o direito de encerrar aquela farsa. Ela era apenas uma ferramenta da qual ele se habituara; usava quando precisava, descartava quando não era conveniente e, após acalmar a "oficial", pretendia pegá-la de volta para continuar usando.
Era o cúmulo do ridículo e da abjeção!
Por fim, ela apenas soltou um riso curto e gélido. Fechou os olhos, sem olhar para ele novamente, e não pronunciou mais nenhuma palavra.
Henrique sentiu a raiva subir ao vê-la recusar qualquer comunicação, mas ao olhar para o rosto pálido e as mãos cobertas de gaze, acabou não dizendo mais nada. Apenas virou as costas e saiu do quarto com o rosto fechado.
"Aproveite estes dias para esfriar a cabeça. Volto a te procurar depois do casamento."
Nos dias seguintes, como esperado, Henrique não apareceu.
Clarice ouvia as conversas das enfermeiras e via as notícias na TV do quarto sobre os preparativos intensos para o casamento do século entre as famílias Cavalcante e Furtado. As reportagens eram onipresentes, descrevendo um luxo extremo, um casal perfeito e uma união de almas gêmeas.
Paola também não parava de enviar mensagens provocativas, ostentando o vestido de noiva, o anel e vangloriando-se de como Henrique era atencioso com ela. Ao final, sempre lembrava Clarice de que deveria se conformar em ser uma amante escondida e servir bem ao Henrique, sem alimentar ilusões.
Clarice não respondeu; apenas bloqueou o número.
Um dia antes do casamento de Henrique e Paola, Clarice finalmente teve alta. Sem avisar ninguém, ela mesma resolveu os trâmites.
Primeiro, foi ao hospital e bateu à porta do Diretor.
"Diretor, vim buscar a carta de recomendação e os documentos para a Clínica Mayo," disse Clarice com serenidade.
O Diretor, vendo-a pálida e magra, mas com um olhar estranhamente calmo e firme, suspirou e entregou-lhe um envelope grosso: "Está tudo pronto. Quando chegar lá, cuide bem de si mesma, esqueça as coisas desagradáveis daqui e comece de novo."
"Obrigada, Diretor." Clarice recebeu o envelope e fez uma reverência profunda.
Ao sair do hospital, ela voltou para casa uma última vez. Tudo estava como antes, frio e luxuoso, sem qualquer sinal de calor doméstico ou vestígio de que ela pertencera àquele lugar. Ela pegou apenas a pequena mala que trouxera no início e alguns livros de medicina importantes.
Então, pegou um táxi e foi direto para o aeroporto.