Clarice continuava caída ao chão, observando a direção por onde eles haviam desaparecido. Sentia um frio gélido, um desespero profundo e uma dor avassaladora que se espalhava do coração para cada extremidade de seu corpo. Sua visão escureceu e ela desmaiou completamente.
Quando despertou, estava em um leito de hospital. Henrique Cavalcante estava sentado na cadeira ao lado da cama, com o paletó do terno pendurado no encosto e o colarinho levemente aberto. Ele parecia exausto, mas mantinha aquela beleza estonteante da qual era impossível desviar o olhar.
Ao vê-la acordar, ele se inclinou em sua direção. "Você acordou? Como se sente?"
A cena de antes do desmaio — ele carregando Paola Furtado nos braços sem hesitar e ignorando Clarice completamente — surgiu nítida em sua mente de novo. Ela esquivou-se da mão dele e perguntou com a voz rouca: "Henrique Cavalcante, você não acha que me deve uma explicação?"
A mão de Henrique parou no ar e ele franziu levemente o cenho. "Explicação de quê?"
"Explique por que, no momento da explosão, você salvou apenas a Paola e não a mim." Clarice o encarou, questionando palavra por palavra: "Eu sou sua esposa, ela é uma pessoa que não tem nada a ver com você. Por que você escolheu salvá-la em vez de mim?"
Ela estava apostando. Apostando se ele sentiria um pingo de culpa, se finalmente escolheria ser honesto com ela e pediria desculpas, mesmo que fosse um simples "sinto muito".
Mas Henrique apenas hesitou por um instante e logo recuperou a calma.
"A Paola não é alguém que não tem nada a ver comigo. Ela é a herdeira do Grupo Furtado e uma parceira comercial importante para os Cavalcante. Hoje eu a acompanhei ao hospital para exames e sou responsável pela segurança dela. Naquele momento, o consultório estava com muita fumaça e a situação era caótica; eu só a vi agachada ali, não percebi que você também estava dentro".
Ele falava com clareza e argumentos sólidos, como se aquela fosse a verdade absoluta.
O coração de Clarice afundou, centímetro por centímetro, em um abismo de gelo sem fim. Ele não fora honesto. Pior, continuava a enganá-la com mentiras. Fazia sentido; ela era apenas um objeto de prazer, uma ferramenta para satisfazer necessidades fisiológicas conseguida através de uma certidão de casamento falsa. Ele não tinha sentimentos por ela. Se ela sofria, se estava ferida ou se até morresse, nada disso entrava em suas considerações. Ele só precisava que a ferramenta ainda funcionasse e não queria ter o trabalho de procurar a próxima.
Clarice soltou uma risada baixa, um som mais amargo que um choro. Ela parou de olhar para ele e fechou os olhos exausta, enquanto lágrimas escorriam dos cantos de seus olhos cerrados, perdendo-se entre seus cabelos.
Henrique observou as lágrimas dela e aquela postura desesperada de quem quer distância, sentindo uma irritação inexplicável. Ele pegou o paletó no encosto da cadeira. "Tenho uma videoconferência internacional importante na empresa e preciso voltar para presidir. Contratei uma acompanhante que chegará daqui a pouco para cuidar de você. Descanse bem e não alimente bobagens na cabeça".
Sem dizer mais nada, ele se virou e saiu do quarto. Clarice, de olhos fechados, ouviu os passos dele se afastarem com o coração em cinzas. Ela sabia que ele não estava indo para reunião nenhuma. Ele fora cuidar de Paola Furtado, que estava assustada. Aquela era a pessoa que ele realmente amava e protegia. Quanto a Clarice, ela não era nada.
Nos dias seguintes, Clarice cuidou de suas feridas sozinha no hospital. Henrique não apareceu mais, apenas a acompanhante trazia as refeições e roupas limpas pontualmente todos os dias.
Assim que se recuperou, ela continuou com a transferência de suas tarefas, preparando-se para ir ao exterior. Até que, no dia em que finalizava os detalhes do último prontuário, a porta do consultório foi aberta bruscamente e uma enfermeira do centro cirúrgico entrou correndo, desesperada.
"Dra. Clarice, há uma cirurgia de apendicite na emergência, o cirurgião principal não pôde vir de repente. Você poderia assumir o lugar dele?"
Clarice pegou o prontuário e deu uma olhada. Informações da paciente: mulher, vinte e oito anos, apendicite aguda, necessidade de cirurgia imediata. Embora fosse da cirurgia cardíaca, a apendicectomia era uma das cirurgias cirúrgicas mais básicas; ela já havia realizado inúmeras durante sua residência e internato, então não haveria problemas.
Ela assentiu, vestiu o traje cirúrgico e entrou na sala de operação. A cirurgia correu bem e terminou em quarenta minutos. "Podem levá-la", disse ela. A enfermeira retirou a paciente da sala.
Clarice tirou as luvas e, quando se preparava para sair, seu olhar pousou na paciente e ela congelou no lugar. Durante todo o tempo, a paciente estivera coberta por campos cirúrgicos estéreis, deixando apenas a boca e o nariz expostos. Clarice estivera totalmente concentrada na cirurgia e não prestara atenção especial. Agora, a enfermeira estava retirando o campo estéril da cabeça da paciente, revelando completamente aquele rosto que, mesmo inconsciente, permanecia belo e sofisticado. O sangue de Clarice gelou instantaneamente!
Paola Furtado! A paciente deitada na mesa de cirurgia, cujo apêndice ela acabara de remover, era Paola Furtado!
Como isso era possível?! O prontuário que ela vira pertencia claramente a uma mulher desconhecida!
Clarice ficou estática, com a mente em branco. Naquele exato momento, a porta da sala de cirurgia foi aberta com uma força brutal. Henrique Cavalcante entrou a passos largos, com o rosto sombrio e os olhos injetados de sangue. Seu olhar localizou imediatamente Paola inconsciente na cama e, em seguida, voltou-se bruscamente para Clarice, que estava parada ao lado.
"CLARICE!" Ele rugiu o nome dela entre dentes, com uma voz carregada de fúria avassaladora e uma indignação inacreditável: "O que você fez com ela?!"