O rosto do diretor se iluminou instantaneamente, e ele deu um tapinha no ombro dela: "Ótimo! Maravilhoso! Eu sabia que você não me decepcionaria! Esta é uma oportunidade única na vida! Organize a entrega do seu trabalho nestes próximos dias; o hospital vai ajudar a agilizar o seu visto para que você possa partir o quanto antes!"
"Obrigada, diretor."
Clarice assentiu, forçando um sorriso que parecia mais uma careta de dor, e se virou para sair.
De volta ao seu consultório, ela começou a organizar alguns prontuários e documentos, preparando-se para a transição.
No meio da organização, ouviu vozes de colegas fofocando do lado de fora.
"Meu Deus, eu já vi de tudo! Trabalho neste hospital há cinco anos, já vi reconstrução pélvica pós-parto, já vi vaginoplastia, mas é a primeira vez que vejo uma paciente pedir voluntariamente uma cirurgia de alargamento vaginal!"
"É sério? Por que faria algo assim?"
"Quem sabe! Ouvi dizer que é por causa do noivo dela... parece que ele é absurdamente dotado, um tamanho impressionante. Ela não aguenta, tentou várias vezes e todas falharam por causa da dor terrível. Então ela quer a cirurgia para poder... bem, você entende. Mas a paciente é linda de morrer, parece uma estrela de cinema, dizem que é de família rica e o noivo é ainda mais influente, aquele do Grupo Cavalcante..."
A enfermeira não terminou a frase, mas o nome do Grupo Cavalcante foi como uma agulha perfurando os ouvidos de Clarice.
Instintivamente, ela levantou a cabeça e olhou pela janela de vidro do consultório em direção à sala de ginecologia oposta.
Como era de se esperar, Paola Furtado estava sentada lá.
Nesse exato momento, uma figura familiar apareceu apressada no fim do corredor, caminhando a passos largos em direção à ginecologia.
Era Henrique!
Ele entrou direto na sala de exames, agarrou o pulso de Paola e falou com uma voz que misturava raiva contida e angústia.
"Paola, eu já disse que não permito que você faça esse tipo de cirurgia!"
Paola olhou para ele com os olhos marejados.
"Mas... Henrique, sexo e amor não se separam. Agora que você tem aquela ferramenta, e se... e se você acabar amando ela mais do que a mim?"
O corpo de Henrique ficou visivelmente rígido. Ele olhou para Paola em seus braços com um olhar de uma complexidade que Clarice nunca vira: havia impotência, dor e uma ternura profunda, quase transbordante.
Ele levantou a mão, limpando suavemente as lágrimas no rosto de Paola, e sua voz soou baixa, mas cristalina aos ouvidos de Clarice.
"Paola, ouça bem, eu só amo você..."
"Eu me deito com ela, mas todas as vezes que a possuo, não há uma única vez em que não esteja pensando no seu rosto e lembrando da sua voz."
"Ela é apenas um objeto, eu nunca vou gostar dela."
"Se não fosse por você insistir que eu encontrasse uma ferramenta para me aliviar, eu estaria disposto a ter uma vida platônica com você para sempre!"
Cada palavra era como um ferro em brasa, marcando cruelmente o coração de Clarice.
Então, toda vez que ele ofegava sobre o corpo dela, estava pensando em outra mulher.
O amor dele por Paola era tão grande que ele preferia uma vida sem sexo apenas para ficar ao lado dela.
E ela, Clarice, nem sequer chegava a ser uma substituta; era apenas um objeto desprezível, permitido por Paola para satisfazer necessidades fisiológicas!
Uma dor lancinante se espalhou por todo o seu ser, mas ela mordeu os lábios com força, sem deixar escapar um único som ou uma única lágrima.
Tremendo, ela baixou a cabeça e continuou a organizar os prontuários, fingindo que não ouvira nem vira nada.
Não se sabe quanto tempo passou antes que a porta do setor fosse aberta abruptamente.
Paola entrou, exibindo o sorriso de uma vencedora.
"Senhorita Clarice, você ouviu o que o Henrique acabou de me dizer, não ouviu? Diga-me, como se sente?"
A mão de Clarice que segurava a caneta hesitou por um segundo, mas ela não levantou a cabeça nem respondeu.
Paola ficou irritada com o silêncio e aumentou o tom de voz: "Estou falando com você, não está ouvindo?"
Clarice permaneceu calada, apenas arquivando um documento de volta na estante.
O silêncio enfureceu Paola completamente.
Ela soltou uma risada fria: "Por que essa pose de santinha? Um objeto de prazer que subiu na vida usando o corpo, realmente acha que é alguém? Eu te aviso, o Henrique nunca vai te amar! Se ele te toca, é apenas..."
"Senhorita Paola," Clarice finalmente levantou a cabeça, interrompendo-a. Sua voz estava calma, mas seu olhar era frio como gelo. "Isto é um hospital, um local de trabalho. Se não tem uma consulta médica, por favor, retire-se e não interrompa o meu serviço."
A calma e a expulsão fizeram Paola sentir uma humilhação profunda.
O rosto de Paola mudou, um brilho de ódio passou por seus olhos e ela pegou um copo de água sobre a mesa, jogando-o com força contra o rosto de Clarice!
"Eu vou acabar com essa sua pose!"
Clarice estava atenta e, ao vê-la se mover, instintivamente se esquivou para o lado!
"Splash—!"
A maior parte da água não atingiu Clarice, mas caiu sobre um monitor de precisão que estava ligado logo atrás dela!
O aparelho estava conectado à energia. A água fria atingiu a carcaça quente e os conectores expostos, gerando um estalo ensurdecedor de curto-circuito, seguido por um estrondo —
Uma bola de fogo explodiu dentro do equipamento, fumaça escura começou a subir e vários fios derretidos saltaram com faíscas!
"Ah—!"
"Explodiu!"
"Saiam daqui!"
Gritos e caos tomaram conta do corredor instantaneamente!
Clarice, que estava mais próxima, foi atingida pela onda de choque e pelas faíscas. Ela sentiu uma dor ardente no braço e no rosto; o impacto a fez cambalear e bater contra a mesa atrás dela, enquanto sua visão escurecia.
No meio da confusão, ela viu um vulto na porta: Henrique havia voltado, com o rosto tomado por um pânico raro.
Seus olhos vasculharam freneticamente a fumaça até pararem em Paola, que estava encolhida no chão, gritando e cobrindo a cabeça.
"Paola!!!"
Sem hesitar um segundo, ele afastou a multidão em pânico, correu até ela, pegou Paola nos braços para protegê-la com o próprio corpo e saiu correndo do consultório enfumaçado sem olhar para trás, desaparecendo no corredor.
Do começo ao fim, ele não dirigiu um único olhar para Clarice, que estava caída no chão, com o braço sangrando e o rosto contorcido de dor.
Era como se ela não existisse.
Como se a vida dela não tivesse a menor importância para ele!