Capítulo 93: Atrocidades
Desta vez, quem estava na plataforma era uma mulher de meia-idade; mesmo naquele estado, ela ainda segurava firmemente seu pote térmico. A diferença era que sua aparência não era mais a mesma de quando desembarcara: seu rosto tornara-se liso e de uma porcelana branca, com olhos totalmente negros, idêntica à comissária que Alice vira na primeira estação.
Uma Guardiã. No entanto, a comissária não olhava para ela, mas sim para alguém dentro do vagão.
Alice seguiu o seu olhar e viu a comissária lançar um sorriso demoníaco para a mulher de agasalho esportivo. A mulher era um pouco rechonchuda, com feições gentis, parecendo alguém que estava prestes a entregar comida para alguém, mas suas mãos tremiam violentamente sobre o pote térmico.
— Não — murmurou ela. — Não pode ser.
"Por que eu? Por que tem que ser logo eu?", pensava ela. Todos sabiam que desembarcar era quase uma sentença de morte. Independentemente de como Alice conseguira voltar ilesa, o destino desta mulher parecia selado.
A Guardiã na plataforma exibia um sorriso benevolente que, combinado com o rosto de porcelana, era de arrepiar os ossos.
— Senhores passageiros — a voz da comissária ressoou. — A segunda parada é a "Estação da Escolha". A regra de desembarque é a mesma da primeira: votem para escolher quem sai. — Ela fez uma pausa, e sua voz adquiriu um tom de prazer sinistro. — Mas, antes da votação, todos terão a oportunidade de "conhecer" a história do passageiro desembarcado em seu mundo real.
"Isso... ainda precisa de votação?", pensou Alice. O sistema praticamente gritava quem era o escolhido; a votação seria mera formalidade. Uma tela gigantesca ergueu-se lentamente na plataforma. Antes de ela acender, todos — exceto Alice — rezavam em silêncio para não serem os protagonistas. Uma vez na tela, não haveria escolha: o único caminho seria o desembarque.
【Início da Imagem】
A cena mostrava uma cozinha comum. A mulher de agasalho usava um avental e cortava vegetais com calma. Ao lado, no fogão, uma panela de sopa fervia, soltando vapor. Ao verem que o alvo não eram eles, os outros jogadores suspiraram aliviados. A mulher, porém, empalideceu e recuou alguns passos.
A imagem continuava. "Mãe, cheguei!", disse uma voz juvenil vinda de fora. A mulher virou-se com um sorriso largo: "Chegou? Vá lavar as mãos, o jantar está quase pronto".
Uma menina de sete ou oito anos, vestindo uniforme escolar e com um sorriso radiante, entrou saltitante na cozinha. "Mãe, o que tem de bom hoje?". A mulher afagou a cabeça da menina com doçura e disse suavemente: "Costelinha agridoce e sopa de milho, o que você mais gosta".
A menina aproximou-se curiosa para espiar a panela, sem notar que, atrás dela, a mulher erguia um cutelo e desferia um golpe cruel. O sangue jorrou no rosto da mulher e manchou a parede atrás dela. A menina arregalou os olhos, com a boca entreaberta tentando gritar, mas nenhum som saiu. No segundo seguinte, ela desabou no chão, morta.
A mulher segurava a faca sem expressão, com um sorriso aterrador nos lábios: "Pronto, querida. Vai ficar tudo bem logo". Logo poderiam comer.
Nesse ponto, os jogadores a encaravam em uníssono. A mulher balançava as mãos em negação, desorientada: — Não é isso... não é o que vocês estão vendo.
— Que coração perverso, ser capaz de fazer isso com a própria filha.
— Gente como ela deveria ir direto para o inferno, para parar de infestar o mundo.
Os comentários cresciam. A mulher, incapaz de calá-los, cobriu os ouvidos tentando se isolar. A imagem prosseguia, revelando cada detalhe de suas atrocidades. O que parecia o fim era apenas o começo.
Após algum tempo, o corpo da menina estava irreconhecível. A mulher levantou-se calmamente, limpou o sangue do rosto com uma toalha e voltou ao trabalho, como se nada tivesse acontecido. Com os ingredientes prontos, ela arrastou o corpo da menina para um canto e o cobriu com um plástico. Feito isso, serviu-se de uma tigela cheia de sopa e disse para si mesma: "Hora de comer".
Sob os olhares de horror e desprezo, a cena mudou. No mesmo local, a mulher repetia o crime. Desta vez, a vítima era um homem: seu marido. Em seguida, o vizinho teve o mesmo destino. Depois veio um vendedor de porta em porta, um entregador que errou o endereço, uma idosa que veio pedir sal, uma criança perdida... Enquanto vidas eram ceifadas, a mulher mantinha a rotina de cozinhar, limpar e comer.
Certo dia, enquanto ela lidava com um cadáver, a polícia invadiu o local. Ela não ofereceu resistência, deixando-se levar com apatia. No tribunal, diante dos fatos, o juiz declarou a sentença: Pena de morte!
【Fim da Imagem】
Pálida e sem forças, a mulher desabou na cadeira sob os olhares que a perfuravam como facas. O pote térmico escorregou de suas mãos e a tampa se abriu ao cair.
— Olhem! Aquilo não é uma mão humana decepada?!
— Meu Deus, ela não só matava, ela guardava as mãos como troféu!
A mão que rolou não estava inteira; fora cortada em vários pedaços, com as extremidades enegrecidas. A jovem de branco recuou horrorizada, afastando-se dela. O idoso fechou os olhos, balbuciando algo ininteligível.
Song Yewang, no canto, mantinha um olhar calmo. Para ele, era como assistir a um filme antigo — um filme muito bom.
Alice alternou o olhar entre os pedaços de mão e a mulher. Perguntou por curiosidade: — Então, o que tem no seu pote térmico são... lembranças?
A mulher tremia, sem dizer palavra, apenas encarando a "si mesma" na plataforma. A Guardiã acenou para ela com um sorriso, dizendo docemente: — Venha. Aqui é silencioso, ninguém vai te julgar.
Ao ouvir isso, o tremor da mulher intensificou-se.
— Eu... eu não fiz por querer... — gaguejou ela, desviando o olhar. — Foram eles que começaram... eles que...
— Eles que o quê? — insistiu Alice.
A Guardiã na plataforma antecipou-se e respondeu por ela:
— Foi o marido quem traiu primeiro; foi a filha quem respondeu mal; foi o vizinho quem viu o corpo primeiro; foi o vendedor quem entrou pela porta errada; foi o entregador quem olhou para ela com luxúria; foi a velha quem percebeu que algo estava errado; foi a criança quem correu para onde não devia. Todos tiveram um motivo para "começar".
A intenção era clara: a mulher não agira sem razão. Cada golpe tinha um motivo indescritível por trás. A mulher cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar.
— Eu... eu não consegui me controlar. Eles me irritavam, e então eu...
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