Capítulo 90: Deletar a Memória?
Num ponto onde ela não conseguia ver, a face da Alice paciente começou a mudar gradualmente. Não era mais o rosto idêntico ao de Alice, mas uma face diferente. Um rosto que Alice conhecia.
— Song Yewang?!
Alice ficou perplexa. Um segundo atrás era o seu próprio rosto, como ele pôde mudar no tempo de uma volta? Ou será que, desde o início, era com Song Yewang que ela estivera conversando?
Song Yewang ficou parado ali, acenando para Alice com um brilho de riso nos olhos: — Há quanto tempo.
Neste exato momento, Alice só conseguia pensar:
"Há quanto tempo o quê? Não aja como se tivéssemos intimidade"
.
— Senti sua falta.
A cada passo que Song Yewang dava para frente, Alice dava um passo para trás.
— Você... — sua voz soou rouca e hesitante. — Você é...
— Sou o inventor deste jogo e também o seu melhor amigo.
Assim que ele falou, as memórias na mente de Alice começaram a turbilhonar. Melhor amigo? Ela só tinha um melhor amigo: Wan Suhe. Sem ele, Alice imaginava que seria solitária para sempre. Com esse pensamento, um rastro de ódio por Song Yewang brotou em seu peito. Se não fosse por ele, seus entes queridos não teriam partido um após o outro. Ela não teria sido deixada sozinha, vivendo num estado entre a vida e a morte.
Uma ponta de dúvida surgiu nas sobrancelhas de Song Yewang: — Você não se lembra? Será que você deletou?
— Deletou o quê?
— As memórias sobre mim — Song Yewang foi honesto, sem esconder nada. — Antes de você entrar no primeiro cenário, você veio me procurar. Disse que iria para um lugar muito perigoso, do qual talvez não voltasse. Você não queria que eu me preocupasse, então... então usou o método que eu te ensinei para deletar a própria memória.
Alice entortou o canto da boca.
Eu deletei minha memória? Tá brincando?
Pela primeira vez na vida, ela desejou que a
【Precognição】
aparecesse. Ansiava saber o que viria a seguir. Mas, fosse por ser algo direcionado a ela ou por outro motivo, a habilidade não deu sinal de vida.
Ouvir um estranho dizer que foram melhores amigos, sem provas e sem lógica... ninguém acreditaria. Ele corria o risco de ser tratado como um louco.
— Eu nunca acredito em palavras sem evidências. A menos que você possa provar.
Song Yewang já esperava por isso. Sem pressa, tirou do bolso uma foto preparada com antecedência e a entregou a Alice. Na foto, um rapaz e uma moça estavam abraçados pelos ombros, sorridentes, fazendo o sinal de "V" para a câmera. Um era a Alice de quinze ou dezesseis anos, vestindo o uniforme escolar, com um sorriso radiante e iluminado. O outro... era naturalmente Song Yewang. Somente melhores amigos fariam um gesto tão próximo e familiar.
Diante da prova absoluta, a suspeita de Alice diminuiu alguns graus.
— Tiramos isso um dia antes de você deletar a memória — disse Song Yewang. — Lembro-me até hoje de que tiramos a foto para servir de recordação.
Alice encarou a foto presa em sua mão. Parecia lembrar-se. Parecia realmente estar lembrando. Song Yewang era o jovem que costumava matar aula com ela, jogar videogame e observar as estrelas no telhado. O jovem que a ensinou a arrombar fechaduras, a mentir e a sobreviver no perigo. O único que sabia o quão louca ela era e que nunca a achou louca por isso.
— Você...
Antes que ela terminasse, Song Yewang antecipou o que ela diria: — Sou eu. Estive aqui te esperando o tempo todo.
— Mas por quê?
— Porque eu também queria te ver — Song Yewang não escondeu a saudade, uma saudade que transcendia a amizade, como se fossem família. — Usei o seu método e me enviei para dentro do jogo também. Não sou um jogador, eu sou... — Ele apontou ao redor. — Sou o criador deste mundo.
— Por que não veio me procurar diretamente? Por que não veio antes me contar essas coisas?
Song Yewang suspirou: — Não podia. As regras do jogo não permitiam. Eu precisava que você me encontrasse. — Ele olhou para Alice com um olhar tão gentil quanto o do jovem de muitos anos atrás. — Mas felizmente, embora um pouco tarde, você me encontrou. Mesmo que não tenha sido de propósito!
Alice perguntou com sinceridade: — O que fazemos agora?
Song Yewang balançou a cabeça: — Não sei. Você pode me matar, o jogo acaba e, ao voltar para o mundo real, você esquecerá de tudo, inclusive de mim. Ou... ou você pode ficar e se juntar a mim.
Os olhares se cruzaram. Notaram que, na escuridão fora da janela, algo piscava incessantemente. Eram estrelas? Ou algo mais? Eles não sabiam e, naquele momento, não queriam saber. O olhar de Alice para Song Yewang não continha confiança, nem fúria. Ela o examinava. Como se examinasse uma nova entidade de um cenário.
Quando voltou a falar, abandonou a atitude de concordância e recuperou uma calma anormal: — Você diz que éramos amigos, então deve saber o que eu mais odeio.
Song Yewang inclinou levemente a cabeça: — Que mintam para você?
— Não — disse Alice. — Que me tratem como idiota.
Ele não achou mesmo que eu acreditaria, achou? Rá!
Alice balançou a foto que ele lhe dera diante de Song Yewang de um lado para o outro.
— Coisas assim podem ser forjadas facilmente num cenário. Para falar a verdade, já vi coisas mais reais que isso. Você diz que eu deletei a memória. Eu te pergunto: por que eu faria isso?
— Você disse que tinha medo de não voltar.
— Eu voltei agora. Por que ainda não consigo lembrar?
O "lembrar" de antes fora apenas um fingimento proposital para fazê-lo crer que ela recuperara tudo. Na verdade, não houve nada disso. Song Yewang pensou por alguns segundos: — Quando você deletou a memória, não queria que a "você" de agora se lembrasse.
— Por quê?
— Lembrar traria mais sofrimento.
Alice o encarou, o canto da boca se elevando num arco, desmascarando-o impiedosamente: — Você hesitou. Quando disse isso, seu olhar desviou por zero vírgula três segundos.
Percebendo que algo estava errado, Song Yewang perguntou desconfiado: — Você está me testando?
Sentiu que havia caído na armadilha dela.
— Sim — Alice jogou a foto de volta com indiferença. — E você mordeu a isca.
A atmosfera no vagão congelou subitamente. O que estava fora da janela continuava a se agitar inquieto. Song Yewang olhou para a foto e soltou um riso nasal.
— Você continua como antes, não confia em ninguém.
— Quem não confia em ninguém vive mais tempo.
— E no que você acredita?
Alice respondeu prontamente: — Acredito em mim mesma, no Madeirinha e... em que posso sair daqui viva.
No ombro dela, Madeirinha ficou extremamente comovido.
"Buááá, mestra! Com essa frase, prometo que não vou mais reclamar quando sairmos!"
Song Yewang percebeu que falar mais seria inútil e guardou a foto em silêncio.
— Está bem. Você não precisa acreditar em mim. Daqui em diante, terá que contar apenas consigo mesma.
Ele ergueu a mão e estalou os dedos. A escuridão ao redor estilhaçou-se subitamente. Num instante, Alice estava de volta à plataforma.