Capítulo 87: O Trem Expresso da Meia-Noite
Havia um convite preso na maçaneta da porta.
— Mestra, não me diga que vamos ter que...
— Fecha essa matraca.
Alice entrou segurando o convite e o largou sobre a mesa. Pouco depois, as reclamações de Madeirinha preencheram toda a sala de estar.
— Mestra, você já está na sétima tigela de macarrão instantâneo!
Sim, eram exatamente sete tigelas. Desde que voltara até aquele momento, Madeirinha vira, com seus próprios olhos, Alice preparar uma tigela atrás da outra. Ele não entendia, mas respeitava. E o mais bizarro: mesmo comendo tanto, ela não parecia nem um pouco empanturrada.
— Hum — Alice respondeu com indiferença.
— Você está de mau humor?
— Não.
— Então por que está comendo tanto?
Alice largou os hashis e fixou o olhar no bilhete que trouxera do Jardim de Infância do Movimento Perpétuo. O papel que dizia:
"Quem entrar deve deixar algo"
.
— Sinto que o próximo cenário será diferente.
Madeirinha inclinou a cabeça: — Diferente como?
A habilidade de
【Precognição】
de Alice tornara-se extremamente agitada há três dias, como uma fera enjaulada tentando desesperadamente romper algo. As imagens que ela via eram quase todas fragmentos dispersos. Em um vagão com iluminação fraca, rostos sorridentes surgiam; todos tinham olhares vazios e sinistros. Na penumbra, uma voz repetia incessantemente:
"Você finalmente chegou"
. Aquela frase passava a sensação de que alguém a esperava há muito, muito tempo. Mas a voz era, para Alice, completamente desconhecida.
Naquela noite, ela dormiu de forma inquieta. Não sabia se era sonho ou realidade, mas a voz mecânica do sistema ecoou em sua mente:
【Nome do Cenário: Trem Expresso da Meia-Noite】
【Número de Jogadores: 8】
【Tempo Limite: Até chegar à estação final】
【Nota: Este cenário é o "Cenário Final". Após a conclusão, o jogador poderá escolher se desligar permanentemente do jogo.】
No sonho, Alice leu aquelas palavras e ergueu uma sobrancelha.
"Cenário Final... parece o clímax de uma história."
Ela já ouvira falar sobre o "Cenário Final" antes; a probabilidade de ele aparecer era de apenas 0,01%. Diziam que, em cada dez pessoas, nenhuma o encontrava, mas Alice não estava entre as dez comuns. Ela fora a felizarda a trombar com o Cenário Final. Isso deveria ser algo bom, certo?!
Madeirinha agarrou o colarinho de Alice, tenso: — Mestra, este é o último?
— Hum.
— Se terminarmos este, não precisaremos mais entrar no jogo?
— Teoricamente, sim. — O tom dela era carregado de incerteza.
Assim que a névoa branca se dissipou, Alice viu-se dentro de um vagão de trem. O interior exibia marcas de velhice, mas estava impecavelmente limpo. Assentos de veludo carmesim, corrimãos de latão e janelas com molduras esculpidas tentavam criar um ambiente confortável, mas não conseguiam aplacar o medo inevitável. Fora da janela, reinava a escuridão absoluta; nada era visível, exceto pelo brilho ocasional de luzes de sinalização solitárias.
Havia oito jogadores no vagão, incluindo Alice. Ela os analisou rapidamente e seu olhar parou subitamente. Um jogador vestindo um sobretudo preto, de silhueta magra e cujo gênero era difícil de definir, estava sozinho na extremidade do vagão, de costas para todos. No momento em que Alice viu as costas daquela pessoa, sua
【Precognição】
explodiu:
【O trem descarrila; gritos de pavor preenchem o vagão.】
【Fogo e sangue por toda parte, janelas estilhaçadas. Aquela silhueta está parada entre as chamas e olha para trás, para ela.】
【O rosto continua borrado.】
A premonição terminou. Alice respirou fundo. O jogador de sobretudo virou-se; era um homem jovem na casa dos vinte anos, de aparência comum, com um olhar que transmitia uma aura mansa, quase tímida. Ao perceber que Alice o observava, o jovem acenou levemente com a cabeça, como um cumprimento. Alice, no entanto, não retribuiu.
De repente, a porta na extremidade do vagão abriu-se e uma comissária de bordo surgiu. Ela vestia um uniforme azul-escuro, luvas brancas e ostentava um sorriso profissional padrão. Mas Alice notou que sua pele tinha a cor de porcelana branca, de um brilho artificial, como se estivesse coberta por uma camada espessa de verniz. Mais uma entidade metade normal, metade bizarra.
— Boa noite, senhores passageiros — disse a comissária com voz suave. — Bem-vindos ao Trem Expresso da Meia-Noite. Este trem possui oito vagões. A estação final é a "Estação Alvorada". Tempo estimado de viagem... desconhecido. — Ela fez uma pausa e o sorriso em seu rosto se aprofundou. — Durante a viagem, por favor, sigam estas regras:
Letras vermelho-sangue flutuaram no ar:
【Trem Expresso da Meia-Noite · Manual do Passageiro】
Cada vagão possui um "Guardião". O Guardião irá protegê-lo, mas também irá testá-lo.
O trem fará três paradas. Em cada estação, um passageiro deve desembarcar obrigatoriamente.
Passageiros que desembarcarem receberão uma "Recompensa Exclusiva". Passageiros que permanecerem no trem continuarão a jornada.
Todos os passageiros devem participar da votação para decidir quem desembarca. Regra de votação: um voto por pessoa, quem tiver mais votos desce. Em caso de empate, ninguém desce, mas o trem sofrerá uma "redução de velocidade aleatória".
Quando o trem chegar à estação final, todos os passageiros restantes terão completado o cenário.
Após a leitura das regras, o silêncio no vagão era mortal. Um homem de meia-idade vestindo terno foi o primeiro a falar: — Alguém tem que descer em cada estação? Ou seja, após três paradas, restarão apenas cinco pessoas no trem?
— Sim — respondeu a comissária sorrindo.
— E se alguém não quiser descer?
— Deve-se votar para que ele desça — disse ela. — A regra número quatro é bem clara.
Uma jovem de vestido branco, na casa dos vinte anos e com aparência de recém-formada, empalideceu e gaguejou: — Isso... isso não é nos obrigar a matar uns aos outros?
A comissária manteve o sorriso de porcelana, em silêncio absoluto.
Alice fixou o olhar nas regras e sua
【Precognição】
flutuou. Na imagem da primeira parada, a votação começou. Uma mulher de meia-idade vestindo agasalho esportivo foi a mais votada. Ela chorava, implorando por outra chance, mas a atitude dos outros era implacável. Assim, a mulher foi levada à força pela comissária para fora do trem. No instante em que as portas se fecharam, o choro cessou abruptamente.
A cena mudou: na plataforma fora da janela, a mulher estava parada, imóvel. Sua pele gradualmente tornava-se lisa, adquirindo a mesma cor de porcelana branca da comissária, e seus olhos escureceram. Ela se tornara a nova "Guardiã".
Ao ver isso, Alice assentiu mentalmente.
Entendi. Passageiros que desembarcam tornam-se a próxima leva de entidades.
Alice recolheu a premonição e olhou para os outros. Alguns limpavam o suor frio, outros tremiam de medo, e havia quem jogasse celular distraidamente. Um idoso fechou seu livro e sentou-se sem expressão. Já o homem do sobretudo preto olhava calmamente para fora da janela.
Alice caminhou até ele e acompanhou seu olhar. Lá fora era um breu total.
— O que você está vendo? — perguntou ela.
O homem não virou a cabeça e disse baixinho: — A estação final.
— Você consegue vê-la?
— Não — respondeu ele. — Mas consigo senti-la.
Dito isso, ele virou o rosto para encarar Alice.