Capítulo 84: Monólogo
Qin Zhao estancou o passo. Ele sentia, no fundo, que as palavras de Alice podiam não ser totalmente falsas. Aquele soco que dera nela antes foi a coisa mais estúpida que fizera na vida. Não porque ela não merecesse, mas porque ela era alguém com quem ele não podia lidar.
Xu Zhixing perguntou timidamente: — Se for assim, como vamos sair?
Alice olhou para a fenda no topo sem qualquer expressão.
— Escalando.
— Escalar?!
— Sim — ela afirmou categoricamente. — Escalar.
Enquanto todos ainda estavam em transe de confusão, Alice caminhou decidida em direção à fenda. Abaixo da abertura, havia uma pilha colossal de blocos de montar que se estendia até o topo. Os blocos tortos pareciam oferecer, minimamente, pontos de apoio para a subida.
Os outros ficaram parados, entreolhando-se, enquanto viam Alice começar a escalar.
— Vocês também sentem que ela enlouqueceu? — Xu Zhixing esboçou um sorriso de deboche.
— Tenha mais confiança — rebateu Qin Zhao, mordendo o lábio inferior. — Não é sensação, é um fato!
Em qualquer outra situação, eles passariam longe de alguém como ela, mas agora não tinham escolha. A menos que conseguissem bolar um plano melhor. Após pesar os riscos, Qin Zhao pegou Beibei no colo e caminhou até a pilha de blocos. Por ora, teria que confiar em Alice uma última vez! Vendo isso, os outros hesitaram, mas logo o seguiram.
Lin Yuntang permaneceu parada, observando a fenda, perdida em pensamentos.
— Você não vem? — gritou Xiao Nian, olhando para trás.
Lin Yuntang balançou a cabeça com pesar: — Eu... não sou uma jogadora. Eu não consigo sair.
Se aquela fenda era a verdadeira condição de saída, ela não teria chance. Como alguém que já fora a Diretora, suas possibilidades de fuga eram nulas.
— Mas...
— Vão vocês — interrompeu Lin Yuntang, implacável consigo mesma. — Eu fico. Talvez... talvez quando vocês saírem, este cenário feche para sempre, e então eu serei livre.
Xiao Nian abriu a boca para retrucar, mas seu pulso foi agarrado com força por Ah Yuan.
— Ela está certa. Vamos embora.
Ah Yuan a puxou, e o grupo começou a subida épica.
Só ao começar a escalar é que perceberam: os blocos eram muito mais escorregadios do que pareciam. Cada peça estava coberta por um verniz brilhante que fazia os pés deslizarem como se estivessem no gelo; o risco de queda era constante.
Dentre os jogadores, Qin Zhao era o mais lento por carregar Beibei. A menina estava comportada, em silêncio absoluto, abraçando seu cavalinho de balanço. Xu Zhixing subia com rapidez, mas parava a cada poucos passos para anotar algo em um caderninho. Ah Yuan e Xiao Nian guiavam as crianças, uma a uma, subindo devagar.
Alice liderava a fila. Embora não fosse rápida, subia com firmeza inabalável! Madeirinha, em seu ombro, vigiava a escuridão lá embaixo, tenso.
— Mestra, a fenda parece estar se movendo!
Alice olhou para o alto. De fato, como o boneco dissera, a fenda estava se fechando lentamente.
— Temos que acelerar, o tempo está acabando — ordenou ela. Caso contrário, seriam esmagados como carne moída.
Ela aumentou o ritmo. Os outros perceberam o perigo e começaram a subir freneticamente. Foi nesse momento que o pé de Qin Zhao escorregou. Ele quase caiu levando Beibei consigo. No último segundo, Qin Zhao rangeu os dentes e cravou os dedos nas frestas dos blocos; suas unhas quase foram arrancadas pelo esforço. Beibei o agarrou pelo pescoço com força.
— Não solte!
Alice olhou para trás e fez algo que ninguém esperava. Ela simplesmente pulou para baixo, caindo ao lado de Qin Zhao, agarrou o pulso dele e o arremessou para cima com toda a sua força.
— Escala! — gritou ela.
Qin Zhao foi jogado a mais de dois metros de altura e conseguiu agarrar um bloco a tempo, estabilizando-se. No entanto, o preço daquela manobra foi Alice deslizando uma grande distância para baixo.
Com o rosto calmo, ela olhou para a fenda que se fechava e depois para o grupo de crianças que ainda lutava para subir. Um sorriso enigmático surgiu em seus lábios.
— Madeirinha.
— Sim?
— Segure-se firme.
— Hein?
Antes que o boneco entendesse, Alice respirou fundo e saltou para o lado. O salto foi calculado: ela aterrissou em outra pilha de blocos e continuou a descer propositalmente.
— Mestra, o que você está fazendo?! — gritou o boneco, tremendo todo.
— Ganhando tempo — explicou Alice sem pressa. — A fenda fecha mais rápido do que eles conseguem subir. Alguém precisa atrasá-la.
— Como?!
No momento em que ele perguntou, Alice chegara à base da fenda. Ela parou no chão, olhou para o alto e gritou a plenos pulmões: — Ei! Olhe para mim!
A fenda não reagiu. Madeirinha ficou confuso; a fenda era apenas um rasgo no espaço, não um ser vivo. Como poderia falar ou responder? Sua mestra teria enlouquecido de vez?
Alice pensou por um instante e tirou do bolso as duas notas de papel que arrancara do portão. Rasgou-as ao meio e as incendiou. Instantaneamente, uma luz morna e brilhante surgiu na escuridão. No mesmo momento, a fenda parou milagrosamente de se fechar.
Por um breve instante, algo pareceu espiar de dentro do rasgo. Alice estreitou os olhos e viu: era um olho gigantesco, totalmente negro, sem esclera. Ele encarava Alice e as cinzas em chamas em suas mãos.
— O que você queimou? — uma voz rouca ecoou da fenda.
— Regras — respondeu Alice em tom de brincadeira. — As regras que você criou.
O olho nas sombras piscou: — Você sabe as consequências de queimar as regras?
Não era algo que qualquer um pudesse suportar. Estava ali há muito tempo e era a primeira vez que via alguém fazer aquilo. Antes de Alice, tal ato era inaudito!
Alice assentiu com um brilho no olhar: — Eu sei.
Justamente por saber é que eu queimei.
Olho: "???"
Você sabe e ainda assim queima? Que criaturinha audaciosa.
— Você só vai ficar com raiva, nada demais — debochou ela.
Sentindo-se insultado, o olho soltou uma gargalhada arrogante: — Eu realmente fiquei com raiva.
Assim que ele falou, a fenda começou a se rasgar para os lados, ficando cada vez maior, até engolir o céu inteiro. A escuridão jorrou de dentro dela como uma parede infinita, caindo pesadamente sobre o chão e sobre todos que ainda tentavam subir.
— Alice! — o grito de Qin Zhao veio do alto.
Alice ignorou. De pé sob a escuridão, ela abriu os braços. Naquele momento, ela parecia repetir o que fizera na sala da diretoria: permitindo que o breu a consumisse por inteiro.
Após o que pareceu uma eternidade, Alice abriu os olhos. Percebeu que estava deitada sobre a pilha de blocos. Todo o seu corpo ardia de dor.
O
【Corpo Imortal】
a revivera. Isso provava que a escuridão podia matar humanos; Alice achara que finalmente encontraria seu fim, mas fora trazida de volta pela habilidade. Com esse pensamento, ela sentiu um rastro de ódio pelo próprio talento. Se não fosse por ele, seu desejo já teria se realizado.
Alice tentou se levantar com uma expressão de decepção. Olhou para cima e viu que a fenda ainda estava lá. A escuridão havia recuado.