Capítulo 78: Conversa Particular
— Coma isto e você se tornará comportada. Depois que se tornar comportada, não fará mais essas perguntas que não deve, não irá mais a lugares proibidos e não dirá mais coisas malcriadas.
A Diretora falava em uma velocidade frenética enquanto levava o doce aos lábios de Alice, tentando convencê-la pacientemente a comer: — Vamos, abra a boca.
O olhar de Alice alternava entre o doce e a Diretora. Através da
【Precognição】
, ela viu três resultados distintos:
Ao comer o doce
: seu corpo encolheria pela segunda vez e sua consciência se tornaria turva, transformando-se em uma nova figura agachada no tanque de areia, presa ali para sempre. Completar o cenário deixaria de ser uma opção.
Ao recusar o doce
: o sorriso da Diretora Doce desapareceria instantaneamente e sua atitude mudaria 360 graus. Fios de açúcar envolveriam o corpo de Alice, triturando-a pouco a pouco. O
【Corpo Imortal】
a reviveria apenas para ser triturada novamente, em um ciclo infinito. O resultado seria o mesmo: aprisionamento eterno.
O terceiro resultado
: Alice viu uma imagem diferente. Em meio às mortes em ciclo infinito, ela avistou uma porta idêntica àquela colorida do portão da Área de Reflexão. Da fresta da porta, uma luz tênue se infiltrava, e ela ouviu uma voz borrada, mas audível:
"Ela pode ser a primeira... capaz de encerrar este cenário de verdade"
.
Era Su Mu?!
A premonição terminou e Alice soltou um riso de desdém.
— Eu não vou comer.
A Diretora Doce disse, incrédula: — O que você disse?
— Eu disse que não vou comer o seu doce.
Alice estendeu a mão e agarrou o pulso de fondant da Diretora. O açúcar começou a derreter sob a palma de sua mão, pingando no chão com um som de "chiado".
— Você sabe por que eu deixei você tirar todas as minhas flores vermelhas?
A Diretora estacou. Claramente, não entendera o que ela quis dizer. Alice abriu um sorriso de causar calafrios e foi direta:
— Somente quando as flores chegam a zero é que você me traz para cá. E este lugar... — Ela olhou ao redor e completou: — ...é o único onde se pode ver a sua verdadeira face.
A Diretora Doce: !!!
Fui enganada!
Alice soltou a mão dela com calma e caminhou até o espelho. No reflexo, ela ainda tinha a aparência de uma criança de sete ou oito anos. Sob o olhar indignado da Diretora, ela deu batidinhas leves na superfície do vidro.
Crec—!
O espelho partiu-se ao meio, revelando o que havia atrás: uma porta colorida, com exatamente as mesmas cores do arco-íris do portão da cerca. Na maçaneta, pendia um bilhete:
【Quem entrar deve deixar algo.】
Sem hesitar, Alice arrancou o bilhete, dobrou-o e o guardou no bolso, junto com o anterior. Ao olhar para trás, a Diretora Doce estava com o olhar vago, o corpo rígido e imóvel.
— Deixe que eu completo a quarta regra para você.
Alice empurrou a porta colorida, mas o que havia atrás era... um vazio absoluto! Não havia cor alguma. Ela estava parada no nada: sem chão sob os pés, sem céu acima, nada nas laterais. Havia apenas uma mesa comprida com um livro aberto sobre ela.
【Jardim de Infância do Movimento Perpétuo: Diário de Operações】
Curiosa, Alice começou a folhear o livro. Madeirinha, percebendo a movimentação, espiou pelo colarinho para ler junto com ela.
1: Boas crianças não mentem.
Nota do Criador: Faça as crianças terem medo de mentir e elas se tornarão totalmente dependentes da professora.
2: Boas crianças compartilham.
Nota do Criador: Acostume-as a compartilhar e ninguém guardará a "verdade" apenas para si.
3: Boas crianças são obedientes.
Nota do Criador: Crianças obedientes nunca se rebelam; assim, elas são mais queridas.
Alice aproximou-se para ver melhor. A quarta regra estava riscada de preto. Os borrões pareciam antigos, mas as palavras por baixo ainda eram visíveis. Ela tocou a página; ao contato de seus dedos, a tinta preta começou a descascar como lama seca, revelando o texto oculto:
4: Nunca houve uma quarta regra.
A verdadeira quarta regra é: Lembre-se de quem você é.
Alice mergulhou em pensamentos. Seria este um cenário que causava amnésia? Enquanto divagava, as páginas viraram sozinhas:
【Apêndice: Manual de Instruções da Diretora】
Quando um jogador descobrir a quarta regra, inicie imediatamente o "Programa de Purga".
Conteúdo do programa:
Apagar todas as memórias do jogador.
Converter o jogador em um NPC "Criança Comportada".
Registrar no diário: "Mais uma criança aprendeu a ser comportada."
As pupilas de Alice se contraíram. No vazio ao redor, algo começou a tomar forma: um vulto gigantesco, capaz de cobrir todo o espaço. Era a Diretora Doce, mas cem vezes maior do que antes. Ela baixou a cabeça, e seus enormes olhos de bala fixaram-se em Alice.
— Você viu o que não deveria — disse ela com uma voz oca que causou desconforto em Alice. — Agora, você se tornará uma criança comportada.
A Diretora estendeu a mão, cobrindo o céu completamente. Madeirinha, apavorado, começou a gritar no ombro de Alice, ensurdecendo-a até levar um tapa para se aquietar. O coelho Tuan Tuan agarrou-se à perna dela, olhando para aquela criatura colossal.
Alice ficou parada, olhando para a mão gigante que descia. A
【Precognição】
pulsou. No futuro, suas memórias eram apagadas e ela se tornava parte das entidades, presa ali para sempre. Felizmente, o
【Corpo Imortal】
a reviveria a tempo.
Alice sentiu uma ponta de dúvida: a pessoa revivida seria ela sem memórias ou seu eu original? A premonição não sabia dizer. Ninguém jamais tentara aquilo antes. Alice sorriu; já que era assim, ela faria questão de ser a primeira.
Ela abriu os braços com entusiasmo e gritou: — Tente! Vamos ver quem tem medo de quem!
A mão gigante caiu com um estrondo. No mesmo instante, uma luz branca jorrou, cegando Alice. Após o que pareceu uma eternidade, quando ela se recuperou, percebeu que estava sentada na cadeirinha do quarto rosa. Diante dela, um pequeno abajur aceso era a fonte daquela luz.
O abajur foi afastado e a Diretora Doce surgiu acima dela, com seu sorriso amigável de sempre.
— Alice, você acordou?
Alice piscou, sem responder, e olhou para o próprio corpo. Nada mudara! Ela ainda tinha o corpo de uma criança de sete ou oito anos. Olhou para o distintivo: as flores vermelhas haviam retornado misteriosamente para sete.