Capítulo 16: Posso casar com a Titia quando eu crescer?
Ao verem a demonstração de afeto entre os dois, os convidados assentiram positivamente. Os rumores de que o casal não se dava bem pareciam agora meros boatos infundados. Além disso, as palavras de Alice foram tão ponderadas que todos elogiaram a magnanimidade da Jovem Madame Qin, enquanto Bárbara, por outro lado, foi vista como alguém sem educação.
Bárbara não se importava com a opinião alheia, mas o Sr. Wilson sentiu-se envergonhado.
— A culpa é minha e da Cecília, que a mimamos demais. Vou educá-la devidamente ao voltarmos. Espero que o amigo Ricardo e a Helena não levem a mal.
A expressão de Dona Helena suavizou-se um pouco.
— Tudo bem. Como adulta, não vou me indispor por causa de uma criança. Venha, Alice, quero te apresentar a algumas pessoas.
Helena pegou a mão de Alice e a levou para o centro do salão.
— Este é o seu tio Wilson, sua tia Cecília, aquela é a sua tia Regina...
Alice cumprimentou a todos com um sorriso cortês. Logo, os grupos se dispersaram: os homens foram para o jardim dos fundos jogar xadrez e tomar chá, enquanto as mulheres ficaram na sala conversando.
Um grupo de garotas se reuniu para comer petiscos e falar sobre ídolos e novelas. Uma menina de coque alto e óculos redondos, com um ar muito fofo, aproximou-se de Alice.
— Oi, cunhada! Meu nome é Beatriz.
Ela tinha um sorriso doce e as mãos cheias de salgadinhos. Puxou Alice para sentar ao seu lado e lhe ofereceu comida.
— Prova este, cunhada, é uma delícia!
Alice sorriu; aquela menina era realmente adorável.
— Cunhada, conta pra mim: como você conseguiu conquistar o meu irmão? Você é incrível! Eu morro de medo de ficar sozinha com ele no mesmo ambiente!
Ao lembrar da expressão gélida de Arthur, Beatriz até estremeceu. Para ela, o irmão era um bloco de gelo sem emoções, e Alice, por tê-lo "domado", devia ter algum tipo de superpoder. Afinal, que tipo de fada conseguiria derreter um iceberg daqueles? A menina estava na fase da adolescência, com a cabeça cheia de clichês românticos.
Alice quase riu e deu um leve empurrão na garota.
— Do que você está falando? Não é nada exagerado assim. Foi apenas um processo normal de casamento. Quando você crescer, vai entender.
Beatriz fez um bico de desânimo e resmungou baixinho. Ela ainda estava no ensino médio e seus pais eram muito rigorosos; casamento estava longe de sua realidade, ela nem sequer tinha segurado a mão de um garoto ainda.
— Ei, cunhada, você me leva para ver o quarto de vocês? Ouvi dizer que meu irmão tem uma coleção de itens raros que dinheiro nenhum compra. Me leva lá, vai! — Ela implorou, balançando o braço de Alice.
Alice pensou rápido. Suas roupas de dormir e cobertas ainda estavam no sofá; se alguém visse, o fato de dormirem separados seria descoberto. Seria um problemão.
— Beatriz, eu não posso. Seu irmão não gosta que ninguém entre no quarto dele. — Alice deu um sorrisinho astuto. — Se não acredita, vá perguntar para ele.
— Perguntar pro meu irmão? Deixa pra lá...
Só de imaginar a cara de Arthur, Beatriz tremia. Não queria procurar sarna para se coçar. Alice conteve o riso, sabendo que a menina não teria coragem.
Na hora do jantar, a longa mesa estava repleta de pratos sofisticados. Arthur puxou a cadeira ao seu lado para Alice.
— Sente-se aqui.
Alice assentiu e sentou-se. Assim que ela pegou os talheres, o pequeno Pietro veio correndo. Sua mãe, Renata, chamou-o:
— Pietro! Por que não senta aqui com a mamãe? Onde você vai?
— Mamãe! Eu quero sentar com a titia Alice!
Alice apertou as bochechas gorduchas dele e o colocou na cadeira.
— Renata, deixe-o aqui comigo.
Renata sorriu e concordou. O pequeno estava radiante, agarrado ao braço de Alice. Ela teve que usar a outra mão para servir comida para ele. Entre uma garfada e outra para o menino, ele ficou satisfeito, mas ela continuava de estômago vazio. Arthur, observando o esforço dela, empurrou uma tigela em sua direção.
— Coma.
— Sim.
Alice comeu um pouco de arroz e pegou apenas dois pratos de vegetais que estavam à sua frente. Embora estivesse de olho nas outras iguarias do lado oposto, temia manchar seu vestido branco de gala. Arthur percebeu o dilema dela, levantou-se e colocou comida no prato dela.
— Pode comer os outros pratos também.
Ele pegou algumas lagostas e, com seus dedos longos e elegantes, descascou-as minuciosamente, colocando a carne limpa diante de Alice.
— Coma.
Ao vê-lo descascar as lagostas em silêncio, Alice teve um instante de devaneio. Seu coração oscilou. Se ela pudesse ser a verdadeira amada de Arthur, talvez não fosse uma escolha ruim... Mas, infelizmente, tudo era apenas aparência.
Beatriz assistia à cena — Arthur servindo a esposa e descascando lagostas — tão chocada que deixou o garfo cair. Alguém ao lado bateu na mesa:
— Beatriz, o que foi? Deixou o talher cair!
Ela o pegou rapidamente e voltou a comer, pensando: "Não é possível... esse é mesmo o meu irmão?"
Pietro, já satisfeito, começou a brincar e se agitar na cadeira. Alice o segurava para que não caísse. De repente, o menino fez uma pergunta inusitada:
— Titia, quando eu crescer, posso casar com você e te transformar na minha noiva?
Ele arregalou os olhos e fez um biquinho fofo. Alice caiu na risada e os convidados ao redor caíram na gargalhada. Alguém brincou:
— Pietro, para casar com a titia, você tem que perguntar primeiro se o tio Arthur deixa! Hahaha!
O pequeno levou a sério. Desceu da cadeira e correu com suas perninhas curtas até Arthur.
— Tio, tio! Quando eu crescer, posso casar com a titia? Eu gosto muito dela! A mamãe disse que quando a gente gosta de alguém, tem que casar com essa pessoa!
Renata não sabia se ria ou se ficava com vergonha. Arthur pegou o menino no colo e olhou para Alice. Seus olhos estavam escuros e profundos. Alice, entretida com Pietro, não percebeu o olhar dele. Ele então se voltou para o menino e disse seriamente:
— Pietro, você não pode casar com ela.
— Por que não? — O menino fez um bico, esfregando os olhos como se fosse chorar.
— Porque ela é a pessoa que o titio ama.
O coração de Alice parou por um segundo. Seu sorriso tornou-se vazio e pálido. "A pessoa que ele ama..." Alice baixou a cabeça com um riso amargo e autodepreciativo. Era apenas atuação, ela não podia levar a sério. Arthur observou a reação dela, pensativo.
Alice pegou a mãozinha de Pietro:
— Pietro, a titia te leva para brincar lá fora, quer?
— Quero!
O menino correu para fora e Alice o seguiu. Os dois ficaram jogando pedrinhas no lago. A atmosfera dentro de casa estava sufocante demais para ela.