Capítulo 6: O Tiro Saiu pela Culatra
Pela manhã, assim que Alice chegou à sua estação de trabalho, percebeu que os documentos que ela havia organizado no dia anterior já estavam na mesa da diretora.
"Quem os levou para lá? Eu os deixei na minha mesa quando saí ontem", pensou Alice, confusa. Sem dar muita importância, ela ligou o computador e começou a trabalhar.
— Beatriz, entre aqui — chamou Mariana de dentro da sala. Beatriz correu prontamente para atender.
— Pois não, diretora.
— Foi você quem organizou estes documentos?
Ao ouvir a pergunta, as palmas das mãos de Beatriz começaram a suar frio.
— Sim... fui eu mesma quem organizou.
Mariana olhou para ela com indiferença e chamou:
— Alice, entre você também.
— Sim, diretora.
— Estes documentos foram organizados pela Beatriz?
Alice folheou a pilha de papéis. Eram exatamente os arquivos que ela passara a noite arrumando. Ela olhou para Beatriz e entendeu imediatamente o que havia acontecido.
— Fui eu quem os organizou, diretora. Ontem a Beatriz me entregou e disse que era uma ordem sua para que eu fizesse o serviço.
Beatriz lançou um olhar furioso para ela. Ao ouvir isso, Mariana fechou a pasta com um estrondo.
— Eu já estava estranhando como tudo estava tão bem arrumado e com uma caligrafia tão clara. Achei que você tivesse mudado de atitude, mas, afinal, não foi você quem fez nada! Você ficou bem folgada em dar ordens aos outros, não é, Beatriz?
Desmascarada, as pernas de Beatriz começaram a tremer.
— Di-diretora, eu tive um compromisso ontem e não podia me atrasar, por isso...
— Por isso você mentiu, dizendo que eu havia ordenado que a Alice fizesse? O que é mais importante: seu trabalho ou seus jantares sociais?! Alice, de agora em diante, não aceite tarefas de outros colegas. Se houver alguma missão, eu mesma entregarei a você.
— Entendido, diretora.
Mariana apontou para duas pilhas enormes de documentos ao lado.
— Beatriz, hoje, além de cumprir suas obrigações normais, você vai organizar essas duas pilhas. Não sairá daqui enquanto não terminar tudo!
— Si-sim, diretora.
Beatriz pegou os documentos e voltou para sua mesa, humilhada.
— Diretora, vou voltar ao meu posto também — disse Alice.
— Espere um pouco. Tenho um projeto para você. — Mariana entregou uma pasta para Alice. — Este é o projeto de design de joias de verão para a marca
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. Vou enviar os outros requisitos para o seu computador. Leve e tente fazer um esboço; entregue-me amanhã. Não se sinta pressionada, eu ajudarei com as correções. Se tiver dúvidas, venha falar comigo.
Alice pegou a pasta, e seus olhos negros brilharam com um entusiasmo incomum. Ela estava há meses sem tocar em um design; este era seu primeiro projeto oficial e sentia uma leve agitação interna.
— Obrigada, diretora. Vou me esforçar ao máximo.
Mariana sorriu, vendo em Alice um reflexo de si mesma quando começou na carreira. Ao voltar para a mesa, Alice viu Beatriz encarando o computador com uma expressão de desespero. Realmente, o tiro saíra pela culatra.
Durante toda a tarde, Alice ficou imersa nos materiais de referência. Embora a
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não fosse uma marca extremamente famosa, era tradicional, com um público-alvo focado em mulheres maduras e sofisticadas. O design precisava ter alma e elegância.
Seus dedos voavam pelo teclado enquanto ideias inovadoras surgiam. Alice estava totalmente focada, como se tivesse voltado aos seus dias na escola de design. Quando percebeu, já passava das cinco e meia. Ela guardou o laptop; o que faltava, teria que terminar em casa.
Na hora do jantar, Dona Helena notou o cansaço no rosto de Alice e ficou preocupada.
— Alice, sinto que você tem trabalhado muito ultimamente. Está conseguindo dar conta?
— Estou bem, mãe — Alice respondeu com um sorriso.
— Arthur, sirva um pouco de peixe agridoce para a Alice. Deixe que ela prove o meu tempero.
Arthur estava com uma expressão gélida e demorou a se mexer. Após um longo silêncio, ele colocou um pedaço de peixe na tigela de Alice. Dona Helena e o Sr. Ricardo trocaram olhares satisfeitos; parecia que o filho estava finalmente começando a ceder.
— Alice, experimente. Eu mesma preparei este peixe. O que achou? — Helena estava expectante.
Alice deu uma mordida e quase engasgou. O peixe estava extremamente salgado.
— Er... está muito gostoso. — Diante da expectativa de Helena, ela não teve outra escolha a não ser elogiar.
Helena abriu um sorriso radiante. Arthur lançou um olhar de soslaio para Alice e colocou mais dois pedaços no prato dela.
— Já que está gostoso, coma mais. — Ele detestava mulheres falsas.
Alice ficou furiosa internamente e lançou-lhe um olhar cortante. Aquele homem insuportável estava fazendo de propósito! Como o peixe já estava no prato, ela teve que comer tudo com um sorriso forçado.
Após o jantar, Alice se lavou e sentou-se no sofá para continuar o projeto. Logo chegou a hora de dormir. Por mais cuidado que tivesse, o som do teclado e do desenho faziam algum ruído. Para não incomodar o sono de Arthur, ela pegou o laptop e foi para o corredor.
Na mansão, todos os servos já haviam se recolhido. No segundo andar, apenas a luz da tela de Alice brilhava. No silêncio do corredor, ela se entregou totalmente ao trabalho. A noite estava alta quando ela finalmente terminou de revisar o design e o plano estratégico. Exausta, fechou o computador para ir dormir.
Dentro do quarto, Arthur massageava as têmporas. Ele tinha o sono muito leve e fora acordado pelos ruídos suaves vindos de fora. Ele se levantou para sair, no exato momento em que Alice abria a porta para entrar. Como estava escuro, ela tentou chegar ao sofá tateando, mas em poucos passos, seu pé bateu na quina de uma mesa.
— Ai, que dor! — Alice soltou um gemido de dor. Segurando o laptop pesado e perdendo o equilíbrio, ela tombou direto para a frente.