Capítulo 68: Recompensa da Plateia?
— Se não acredita, pode procurar — desafiou Alice.
Olho de Sangue, recusando-se a aceitar o óbvio, folheou o manual novamente. Ele tinha certeza absoluta de que essa regra não existia. Alice estalou a língua, achando que Olho de Sangue era um capitão bem incompetente; como um jogador podia conhecer as regras melhor que o próprio administrador?
— Você... você decorou o manual de regras inteiro?
Pela reação dele, Alice percebeu que ele finalmente encontrara a cláusula. Ela deu de ombros com um ar de falsa resignação: — Fazer o quê? O sistema me deu este manual como punição antes de eu entrar.
Acontece que Alice tinha uma memória muito boa. Ela deu uma olhada rápida antes de começar o cenário e acabou decorando o básico.
— Agora, nós cinco estamos de acordo com a revanche, certo? — Alice trouxe o assunto de volta ao ponto principal.
Lúcia assentiu. Por mais que tivesse desavenças com Alice, ela jamais brincaria com a chance de sobreviver. Se houvesse um pingo de esperança, ela tentaria. O jovem de boné, após a primeira performance, estava empolgado; a ideia de atuar novamente o encantava.
— Com certeza! Vou fazer o Esfolamento 2.0!
Beatriz, embora tivesse perdido sua capacidade analítica, mantinha seu instinto de sobrevivência: — De acordo.
Leonardo, segurando sua passagem, também concordou: — Tudo bem, eu brinco com vocês. — "Já tenho minha passagem garantida, não importa a nota que eu tire", pensou ele. Decidiu ajudar aqueles companheiros que, até então, eram estranhos no mundo real, uma última vez antes de partir.
Olho de Sangue respirou fundo. Mesmo contrariado, precisava seguir as normas: — A revanche é permitida. O custo é que cada um de vocês deve pagar com uma memória feliz.
— Fechado.
Alice adiantou-se e apertou a mão do camareiro, entregando a alegria que sentiu na primeira vez que irritou um BOSS a ponto de travá-lo. Os outros fizeram o mesmo, um por um.
A revanche começou! Desta vez, todos tinham a experiência da rodada anterior. O jovem de boné repetiu seu "Show de Troca de Rosto", mudando de face a cada segundo, totalizando cinquenta rostos diferentes. Embora não fosse muito diferente da primeira vez, a plateia simplesmente adorava aquele truque. Ele obteve 9,5 pontos.
Lúcia, antes de subir ao palco, lembrou-se de um talento especial e apresentou um "Coral de Espíritos Rancorosos". Seus dois amigos espectrais nos ombros cantaram uma versão desafinada, porém emocionante, de
Auld Lang Syne
. Aquilo conquistou parte do público, fazendo sua nota subir mais de dois pontos em relação à primeira tentativa.
Leonardo foi mais esperto desta vez e não mostrou apenas esgrima básica. Embora ainda envolvesse cortes, ele criou novos padrões. Combinado com seu visual de múmia cheia de faixas, ele transmitiu uma beleza trágica, alcançando a nota 6,5.
Beatriz parou no centro do palco e fez uma reverência educada, com fitas enroladas nas mãos. Alice observava fixamente, já planejando sua própria apresentação. Foi por causa desse breve transe que ela perdeu a "Dança das Fitas" de Beatriz, que o público achou magnífica, resultando em um 9 dado por Olho de Sangue.
Quando Alice encarou a plateia de entidades, manteve um silêncio dramático antes de falar: — Minha performance desta vez é um Desafio de Regras ao Capitão.
As pálpebras de Olho de Sangue tremeram.
Lá vem essa mulher de novo. Por que não pode simplesmente fazer um show normal?
— O que você quer agora?
Alice falou pausadamente para garantir que todos ouvissem: — Artigo 127 do manual: "Se um jogador propuser uma teoria artística que o jurado não consiga refutar, ele vence automaticamente, sem necessidade de performance".
Olho de Sangue sentiu a cabeça latejar.
Ela não para de citar cláusulas!
— Que teoria? — perguntou ele, rangendo os dentes.
— Neste navio, a maior das artes não é a pintura, nem a música, nem a dança... — Alice varreu o salão com o olhar e aumentou o tom de voz: — É a sobrevivência em si.
Ela apontou para os outros quatro: — Cada um deles sobreviveu à sua maneira. Alguém usou a perversão contra a perversão, outro usou a razão contra a loucura, houve quem usasse violência contra violência e técnica contra o perigo. — Embora não tenha citado nomes, todos sabiam a quem ela se referia. — Se a arte é a expressão da natureza humana, então, neste navio, a sobrevivência é a expressão máxima dessa natureza. Portanto, a existência de nós cinco, por si só, é uma obra de arte completa.
— Você pode negar isso? Pode dizer que nossa sobrevivência não é arte?
Diante do questionamento de Alice, Olho de Sangue abriu e fechou a boca várias vezes, mas não conseguiu formular um contra-argumento à altura. Enquanto isso, na plateia, os monstros sussurravam, e o som logo se transformou em aplausos calorosos. Presos naquele navio, eles também lutavam para sobreviver. As palavras de Alice tocaram o âmago de suas existências.
Olho de Sangue suspirou e tocou o sino, rendido pela segunda vez ao discurso de Alice: — Nota 10. Declaro que os cinco são vencedores.
O salão entrou em polvorosa.
— Como só há uma passagem disponível, o prêmio de vocês será o direito a uma escolha.
— Que escolha?
— O direito de decidir quem ficará com a passagem para partir — explicou Olho de Sangue. — Vocês cinco devem entrar em acordo sobre quem vai embora, ou podem criar outro método.
Os cinco se entreolharam. Perceberam que, a cada passo, eram forçados a escolher. Sempre alguém precisava ser sacrificado. Mesmo após tanto esforço, o resultado era apenas outro dilema.
— Mestra, é a sua hora de brilhar — excitou-se Madeirinha, sentindo que o ânimo de Alice estava mudando.
Alice deu um peteleco na testa rígida dele: — Você acha que sabe de tudo, hein?
— Eu pensei em mais um bug.
— Outro?! — Olho de Sangue estava prestes a ter um colapso. Como uma única pessoa conseguia encontrar tantas brechas? Às vezes, ele tinha vontade de expulsá-la à força para que ela fosse atormentar outro administrador de cenário.
— A regra diz que a passagem permite que "uma pessoa parta", mas não diz que a passagem só pode ser usada uma única vez. Eu quero usar a passagem para sair e depois voltar.
Todos ficaram estupefatos. As pessoas lutavam para fugir e nunca mais olhar para trás; ela tratava aquilo como se fosse uma brincadeira de casinha. Beatriz não entendeu a lógica: — Você enlouqueceu? Como alguém volta depois de sair do cenário?
— Em condições normais não dá, a menos que haja uma "recompensa da plateia".
O espanto deles só aumentou.
Por favor, isso não é uma live; de onde viria essa recompensa? E os monstros não iam cooperar nunca.
Leonardo duvidava da ideia de Alice.
Alice gritou para o público: — Pessoal, a apresentação foi boa? Querem me ver continuar? Que tal eu sair do navio e usar a passagem para voltar, quebrando a regra de que ela só serve para uma viagem?
No instante em que ela falou, os monstros, milagrosamente, assentiram em uníssono e aplaudiram sem parar. Eles adoravam performances inéditas; quanto mais bizarro o show, melhor. O rosto de Olho de Sangue, por outro lado, já não tinha mais o sorriso do início:
— Se mais de 80% do público votar a favor do seu "bis"... eu posso abrir uma exceção.