Ao subir as escadas, a
Precognição
surgiu pontualmente.
A cabine de comando do quinto andar havia se transformado em um grande palco. O Capitão Olho de Sangue estava sentado na bancada dos jurados, segurando placas de pontuação. Os jogadores precisariam realizar uma apresentação de talentos, e a nota seria dada por Olho de Sangue e pela plateia.
O conteúdo da performance deveria ser uma demonstração do "eu verdadeiro". Ou seja, não era permitido fingir ou mentir; era preciso mostrar o lado mais autêntico. O perigo residia no fato de que, durante essa exposição da verdade, o artista poderia ser "absorvido" pelo público. Se a plateia gostasse demais da performance, eles dariam um jeito de manter o jogador no navio para que se apresentasse para eles todos os dias.
Ao chegarem ao quinto andar, todos ficaram atônitos ao ver o palco montado. Estava equipado com holofotes profissionais, cortinas e uma bancada de jurados. Os assentos da plateia estavam lotados de tripulantes fardados, passageiros, clones e até jogadores que haviam morrido anteriormente.
— O que é isso? — perguntou alguém.
Beatriz comentou com um olhar complexo: — Não seja bobo, está na cara que é um palco de teatro.
O velho conhecido, Capitão Olho de Sangue, estava sentado no centro do júri. Ele vestia um fraque impecável e segurava um sino dourado.
— Bem-vindos, bem-vindos! — Olho de Sangue levantou-se e aplaudiu com um sorriso largo. — Bem-vindos ao Show de Talentos do Ghost Ruins! Eu sou o jurado e o seu anfitrião, Olho de Sangue!
Assim que ele terminou de falar, a plateia soltou aplausos esparsos. Algumas entidades tinham as mãos soltas e usavam a própria cabeça para bater palmas.
Olho de Sangue anunciou solenemente: — Cada candidato apresentará um talento que mostre quem vocês realmente são. Eu e o público daremos as notas. A nota máxima é 10. Quem tiver a maior pontuação ganha a passagem; quem tiver a menor... vai para os tubarões!
— Fiquem atentos: se a performance for maravilhosa demais, o público pode querer que você fique. Se mais da metade votar para "reter o artista", você ficará preso neste navio para sempre como ator residente. Quem começa?
Os jogadores se entreolharam. Desta vez, Alice estranhamente não se voluntariou. Ela gostava de assistir e queria ser a última a subir ao palco. Como ninguém respondia, Olho de Sangue ia apontar alguém à força, mas o jovem de boné deu um passo à frente com seu boneco sem rosto.
— Eu começo.
Tanto Olho de Sangue quanto os jogadores estavam curiosos para ver qual seria o talento do rapaz. Alice murmurou: — Tenho o palpite de que esta será uma apresentação muito interessante.
Madeirinha colocou a cabeça para fora, curioso: — Mestra, o que você vai apresentar?
— Você verá em breve — respondeu ela com um sorriso enigmático, fazendo mistério.
O jovem caminhou até o centro do palco e, sob o olhar de humanos e monstros, levou a mão ao rosto e arrancou a própria pele, colando-a na face do boneco. Seu rosto tornou-se uma massa de sangue sem feições, e ele começou a imitar perfeitamente a voz de cada jogador e até a do Capitão. Ao terminar, ele descolou a pele do boneco e a colocou de volta no rosto, restaurando-o perfeitamente.
— Nota 9! — Olho de Sangue tocou o sino, entusiasmado. — Brilhante, simplesmente brilhante! Só tirei um ponto porque foi um pouco assustador.
A votação do público mostrou que apenas 45% queriam que ele ficasse, não atingindo a metade. O jovem desceu do palco em segurança com seus nove pontos.
A segunda foi Lúcia (a moça de óculos). Seu talento foi análise de dados. Ela tirou um tablet de algum lugar e começou a analisar frame a frame os dados do Ghost Ruins: taxa de mortalidade dos passageiros, velocidade de geração dos clones, nível de corrosão do casco... Ao final, usou os dados para deduzir uma fórmula prevendo a probabilidade de morte de cada um na próxima hora. Quando terminou, a plateia mergulhou num silêncio mortal.
Olho de Sangue disse inexpressivo: — Nota 5. Sua performance foi um pouco entediante.
Apenas 12% do público votou para que ela ficasse. Lúcia desceu do palco com o rosto amarrado, rezando para que alguém tivesse uma nota menor que a dela.
Leonardo fez uma reverência profunda, criando a ilusão de que sua apresentação seria altamente estética. No entanto, ele entregou algo decepcionante.
— Meu talento é a resistência física! Quem quer me bater? Podem vir, eu não vou revidar.
"Isso lá é talento?", pensou a plateia. Alice assistia com deleite lá embaixo. Mais do que uma performance, era uma surra pública. Algumas entidades não resistiram e subiram ao palco para atacá-lo com punhos, facas e garfos. Leonardo aguentou tudo com força bruta; mesmo com o rosto inchado e ensanguentado, ele não caiu.
— Que delícia! — exclamou ele, limpando o sangue do nariz com um sorriso. O público respondeu com vaias.
Olho de Sangue ironizou: — Isso é talento? Até um saco de pancadas de circo tem mais conteúdo que você.
A votação para que ele ficasse bateu um novo recorde negativo: apenas 8%. Nota final: 3. O rosto de Leonardo ficou pior que o de Lúcia. Ela, por sua vez, sentiu um alívio secreto; não seria a última nem viraria comida de tubarão.
Beatriz subiu e realizou uma dança com adagas. Ela chamou de dança, mas era uma exibição pura de técnicas de combate. As facas voavam em suas mãos com movimentos secos e precisos, dotados de uma beleza sinistra. Antes de terminar, deu um chute giratório que despedaçou os bonecos de treino no palco.
Olho de Sangue mostrou uma satisfação rara: — Tem técnica, é visualmente bonito, mas falta alma. Nota 7.
A votação para retê-la foi de 38%.
Chegou a vez de Alice. Ela subiu ao palco sem pressa, tossiu levemente e limpou a garganta: — O talento que vou apresentar é como saltar repetidamente sobre as bordas das regras do cenário sem morrer.
No segundo seguinte, sussurros percorreram a plateia. Ela mostrou um papel branco onde estava escrita a regra: "É proibido usar itens no palco". Em seguida, tirou o clipe de papel do bolso, entortou-o e o cravou sem hesitar na palma da própria mão. O sangue jorrou. Em poucos segundos, a ferida cicatrizou completamente.
— O que houve? Ela violou a regra usando um item, por que não sofreu nada? — perguntavam os monstros.
— A regra pune o ato de usar o item, mas nunca disse que a punição seria a morte instantânea — explicou Alice.
Ela virou-se para Olho de Sangue: — Senhor Jurado, a regra diz que a performance deve mostrar quem eu sou de verdade. Eu posso prever o que o senhor vai dizer a seguir.
— Ah, é? — Olho de Sangue demonstrou um interesse genuíno.
— O senhor ia dizer que esse tipo de esperteza não conta como talento, certo?
Olho de Sangue abriu a boca, mas não conseguiu dizer uma palavra. Alice acertara em cheio; se ele falasse agora, pareceria um gravador repetindo o que ela disse. Os dois se encararam em silêncio. O Capitão percebeu então que ela possuía a habilidade de
Precognição
.
Entendi tudo!
A capacidade dela de ler sua mente tornou-se lógica naquele instante.
Alice caminhou até a beira do palco e dirigiu-se à plateia: — Eu sei que muitos de vocês querem me manter aqui, mas vocês não conseguem. Podem me matar uma, dez, cem vezes, mas eu não vou morrer. E se tentarem me prender para sempre, eu vou...
No meio da frase, ela abriu um sorriso sinistro que fez até as entidades mais bizarras da plateia sentirem um calafrio.