Capítulo 61: Tornando-se a Criadora das Regras do Jogo
No mesmo instante, as ações de todos os reflexos cessaram. O brutamontes de cicatriz encarava fixamente as sombras em loop infinito dentro do pequeno espelho, soltando um guincho agudo e ensurdecedor.
Alice deu um sorriso enigmático. Ela percebeu o que estava acontecendo enquanto observava rachaduras surgirem no torso do brutamontes, espalhando-se por todo o seu corpo.
— O que houve com ele? — perguntou Beatriz, intrigada, sentindo que o corpo do oponente parecia estar desaparecendo.
— O que mais seria? Efeito rebote — respondeu Alice, observando com deleite o monstro ser devorado pouco a pouco pelas inúmeras sombras de si mesmo dentro do pequeno espelho.
O brutamontes não compreendia. Com uma expressão de agonia, ele via seu corpo sofrer aquela anomalia sem poder fazer nada. — Por que isso está acontecendo? Meu corpo...
— Paradoxo do espelho — explicou Alice, rindo. — Se um espelho pode refletir perfeitamente tudo, então ele também deveria ser capaz de refletir a si mesmo. Mas um espelho refletindo outro espelho cria uma recursão infinita. No mundo real, isso causa a atenuação e o desaparecimento da luz. Já em uma criatura feita de luz como você... bem, eu não sabia qual seria o efeito exato.
Beatriz olhou para ela com um rastro de admiração.
Como se você não soubesse... engana outro.
O corpo do brutamontes de sombra começou a encolher para dentro de si. Ele tentou se libertar, mas por mais força que fizesse, era impossível; a gravidade das sombras infinitas era poderosa demais para ele resistir.
— Não! Eu não aceito! Meu plano ainda não foi concluído, não...
Antes que terminasse a frase, sua voz sumiu junto com o desaparecimento de seu corpo.
— Ele morreu? — perguntou Leonardo cautelosamente. Afinal, os lacaios menores já eram difíceis; ele nem ousava imaginar o poder de combate do brutamontes original. Seria ótimo se ele tivesse partido para sempre.
— Não.
Alice pensou em usar a vassoura do faxineiro para apagar o brutamontes permanentemente do mundo do cenário, mas mudou de ideia. Se ele desaparecesse, o cenário perderia a graça, e ela estaria facilitando o caminho para outros jogadores — além de ser um fim misericordioso demais para ele. Como ela já havia "tomado chuva", fazia questão de quebrar o guarda-chuva dos outros!
Ela não queria que ele morresse tão fácil; ele deveria sentir dor, assim como ela. Por isso, deixou que ele ficasse preso em suas próprias sombras infinitas, refletindo eternamente entre espelhos, sem jamais encontrar a saída.
As sombras restantes, tendo perdido o líder, começaram a atacar umas às outras indiscriminadamente. Incapazes de distinguir quem era o original e quem era o reflexo, iniciaram um massacre mútuo. Alice observava tudo com sua calma habitual enquanto retirava o clipe de papel do painel elétrico.
Em um instante, as luzes voltaram ao normal. O salão estava em ruínas. Após o confronto entre as sombras, restavam apenas algumas poucas, todas gravemente feridas. Leonardo aproveitou a oportunidade para descarregar sua frustração por ter sido humilhado antes e destruiu a última sombra que o atacava com um soco potente.
Com todos os inimigos derrotados, o grupo permaneceu em meio aos cacos de vidro, ofegantes. Ninguém os avisara que seria necessário tanto esforço físico. Esta rodada fora mais exaustiva do que qualquer outra anterior!
— Acabou... acabou? — perguntou Lúcia com a voz trêmula.
— Temporariamente — Alice abaixou-se e pegou um caco grande de espelho. Ao olhar para o próprio reflexo, viu que seu rosto na imagem exibia um sorriso bizarro.
Madeirinha surgiu nesse momento e notou que a Alice do espelho e a Alice real tinham fisionomias completamente diferentes. Uma sorria de forma vazia, enquanto a outra tinha um semblante complexo.
— Mestra, é o seu eu paralelo?
— Hum. — Alice guardou o caco no bolso.
— Mas o seu eu paralelo não estava na pintura? Como apareceu no espelho?
— Quem sabe. Talvez, antes de percebermos, a pintura e o espelho tenham se invertido.
Madeirinha não entendeu. — Como assim?
— Exatamente o que eu disse.
Alice encerrou o assunto com o boneco e disse em voz alta: — Agora, graças aos espelhos, este andar não tem mais um administrador. Pela lógica do cenário, precisamos reconstruir a ordem ou nos tornarmos os novos administradores.
— O que você quer dizer com isso?
— Quero dizer que podemos definir as novas regras deste andar — Alice olhou significativamente para o jovem de boné, que detinha o canhoto amarelo. — Por exemplo: a quem pertence o direito de conceder o canhoto agora?
O jovem, abraçado ao boneco sem rosto, sentiu uma aura hostil ao seu redor e inclinou a cabeça: — Você quer o canhoto amarelo?
Ela manteve a expressão firme: — Não exatamente. Quero redefinir o significado do "canhoto amarelo". Vocês ouviram a Madame Corvo dizer que ele representa valor artístico. Mas o que é arte? É criação? Destruição? Ou causar o caos?
Sob o olhar de todos, Alice caminhou até o pedestal e pegou o canhoto amarelo. Algo estranho aconteceu: o papel mudou em suas mãos, e o desenho do rosto sem feições transformou-se gradualmente em um ponto de interrogação.
Alice ergueu o canhoto, ignorando os avisos elétricos de seu bracelete, e gritou: — De agora em diante, o canhoto amarelo do terceiro andar não é mais uma prova de valor artístico, mas sim uma recompensa por criatividade normativa! Quem propuser a regra mais interessante, mais absurda e, ainda assim, logicamente consistente, ganhará o canhoto.
— O que acham?
Ao perguntar, ela olhou para os outros jogadores. Se concordavam ou não, pouco importava; ela só queria que eles fizessem parte do processo para oficializar sua vontade. Alice esperara muito tempo pela chance de ditar as regras; se cada estágio pudesse ter imprevistos assim, ela adoraria ajudar.
Lúcia perguntou, incerta: — Isso está de acordo com as regras do cenário?
A essa altura, ela ainda se preocupava com isso. Alice respondeu: — Madame Corvo está morta, o brutamontes está preso num loop. Quem é forte dita as regras; essa é a norma oculta de todos os cenários.
Leonardo limpou o sangue do rosto: — Eu concordo. Matar e morrer o tempo todo é chato. Vamos jogar algo novo.
Beatriz hesitou, repetindo mentalmente:
"Quem é forte dita as regras"
. O problema era que ela não considerava Alice a mais forte ali. Em termos de estratégia, Alice era superior, mas em combate, Beatriz não se achava inferior a ninguém. Alice percebeu a inquietação dela e perguntou:
— Você tem alguma objeção?
Beatriz encarou-a nos olhos, pensou por um momento, afastou suas dúvidas e balançou a cabeça: — E se o sistema do cenário nos punir por violação?
Alice deu de ombros com indiferença: — Que punam. Já violamos as regras tantas vezes no caminho, o que é mais uma?
O jovem de boné concordou: — Divertido. Eu participo.
— Ótimo.
Alice recolocou o canhoto amarelo transformado no pedestal. — Agora, cada um pode propor uma nova regra. A regra deve ser aplicável a toda a área do terceiro andar, não pode ser contraditória e deve ser interessante.