Capítulo 59: Sombras em Fúria? As Regras do Jogo Foram Alteradas
O eu paralelo disse, relutante: — Tudo bem, vamos trocar.
Alice sentiu uma leve surpresa. Afinal, até pouco tempo atrás, sua versão paralela demonstrava um fascínio pelo mundo exterior e uma resistência óbvia em voltar para a pintura. Ela achou que teria que gastar muita saliva para convencê-la, mas a mudança de atitude foi inesperadamente rápida.
As duas estenderam as mãos simultaneamente. No instante em que se tocaram, todo o espaço começou a girar. Fly, olhando para o teto com espanto diante da distorção espacial, disse apressado: — Você vai embora agora?
Alice assentiu para ele: — Sim. Desculpe, eu te enganei; na verdade, eu não pertenço a este lugar.
Fly estacou. Achava que tinha encontrado alguém com o mesmo destino, mas, no fim, ele era o único "bobo" da história. Antes que pudesse dizer mais nada, a luz e as cores do quarto se misturaram, jorrando entre Alice e seu eu paralelo.
Ao abrir os olhos novamente, Alice já estava de volta à Galeria. Diante dela, estava seu próprio retrato. Na pintura, ela ainda usava o pijama de hospital, mas a única diferença era que aquele brilho de loucura obstinada fora substituído por uma expressão de serenidade.
Madame Corvo sorriu satisfeita: — Você voltou. Mais rápido do que eu previ, levou apenas cinco minutos.
Alice virou a cabeça e viu que os outros quatro também estavam abrindo os olhos. O problema era: seriam eles os originais ou as versões paralelas?
Ao baixar o olhar, notou que Leonardo segurava uma faca manchada de sangue que não tinha antes de entrar. Seria um item trazido do mundo da pintura? O jovem de boné mantinha o sorriso de sempre, mas agora carregava nos braços um boneco de vestido vermelho e sem rosto.
— Já que fizeram suas escolhas, agora mostrem o que trouxeram de dentro. Isso decidirá quem ganhará o canhoto amarelo.
Dito isso, Madame Corvo bateu palmas e um pedestal subiu lentamente no centro da galeria. Alice tirou do bolso o clipe de papel que a ajudara a arrombar a porta; era a única coisa que conseguira levar e trazer do hospital. Lúcia (a moça de óculos) tirou um grampo de cabelo desbotado. Beatriz apresentou um diário também manchado de sangue. Leonardo exibiu a faca óbvia, e ao lado dela, o boneco sem rosto foi depositado.
Madame Corvo aproximou-se para avaliar os itens:
— O clipe de papel representa a restrição e a liberdade. Tem valor, mas não é único o suficiente.
— O grampo representa memórias perdidas. Comovente, porém comum demais.
— O diário registra evidências de crimes. O peso é grande, mas falta criatividade.
— A faca ensanguentada representa a herança da violência. Tem força, mas é clichê.
Finalmente, Madame Corvo pegou o boneco sem rosto e o examinou minuciosamente. A reação dela foi diferente de todas as outras; seu semblante tornou-se solene e seus gestos demonstravam um interesse profundo.
— Um boneco sem rosto representa a ausência de identidade. Interessante, muito interessante. Uma existência sem face pode ser qualquer um ou pode ser ninguém.
Ela olhou para o jovem com entusiasmo: — Esta foi a sua escolha?
O jovem de boné assentiu: — Encontrei o meu outro eu na pintura. Ele não tinha rosto e não sabia quem era. Então, dei o meu rosto para ele em troca do boneco.
Outros jogadores: ???
Desde quando se troca o próprio rosto por brinquedos?
Alice: ???
Um rosto por um boneco?! Por mais que eu tente entender, parece que ele foi passado para trás.
Madame Corvo pareceu atônita: — Você deu o seu rosto... para ele?
— Sim — respondeu o jovem calmamente, tocando a própria face. Para ele, o toque parecia o mesmo, mas quem olhasse de fora notaria que suas feições estavam levememente borradas, como se pudessem mudar a qualquer momento. — Agora posso ser qualquer um ou não ser ninguém. É divertido, não acha?
Madame Corvo ficou sem palavras; era a primeira vez que via algo assim. Após um longo silêncio, ela anunciou com voz pesada: — Declaro que o vencedor do canhoto amarelo é este jovem.
Um canhoto amarelo surgiu na palma da mão dela. Ela o entregou ao rapaz. No papel, havia o desenho de um rosto humano sem feições, como se tivesse sido feito sob medida para ele. Os outros olharam com inveja óbvia.
— Isso não é justo... — resmungou Beatriz.
— A arte nunca é justa — rebateu Madame Corvo. — Ela trata apenas de valor. A obra dele é a mais valiosa entre vocês. Se não estão satisfeitos, apresentem algo melhor.
Alice, indiferente, guardou o clipe de papel: — Agora podemos ir?
— Esperem — chamou Madame Corvo. — Ainda falta o último item.
No instante em que ela falou, as luzes da galeria começaram a piscar freneticamente. Os retratos nas paredes entraram em convulsão; as mãos das figuras pintadas saíram das telas, tentando agarrar o que estivesse por perto.
— O que está acontecendo? — O grupo recuou, em alerta máximo.
Alice olhou para Madame Corvo, suspeitando de um truque, mas ao ver o pavor nos olhos da anfitriã, descartou a ideia. O evento estava fora do controle dela.
— Alguém... alguém entrou na galeria à força, vindo do Salão dos Espelhos...
BUM!
Uma parede desmoronou com um estrondo. Quando a poeira baixou, uma figura imponente surgiu: era o brutamontes com cicatrizes. Ou melhor, era a
sombra
dele. Seu corpo estava semitransparente, ele usava uma máscara quebrada e empunhava uma enorme lâmina feita de luz e sombra.
— Encontrei — a voz da sombra ecoou com um efeito metálico. — O original e os substitutos.
A sombra encarou os jogadores com um sorriso que rasgava o rosto até as orelhas.
— As regras do jogo foram atualizadas agora: as sombras do Salão dos Espelhos podem caçar os originais, substituí-los e deixar este navio!
Junto com a voz, as luzes da galeria se apagaram. Todos mergulharam em uma escuridão absoluta. Ninguém ousava se mexer; ouvia-se apenas o atrito de cacos de vidro e o som de algo rastejando para fora das pinturas.
De repente, o grito lancinante de Madame Corvo preencheu o ar: — Não! Isso viola gravemente as regras! Vocês não podem—!
Sua voz foi cortada abruptamente. Quando as luzes voltaram, Madame Corvo havia desaparecido. No lugar onde ela estava, restava apenas um monte de penas pretas.