Capítulo 56: Entrando no Mundo da Pintura
— Minha filha. — A voz da moça de óculos (Lúcia) estava rouca, sua sanidade oscilando perigosamente. Suas mãos gesticulavam no ar de forma desamparada. — A cena dela sendo atropelada por um carro ficava se repetindo diante dos meus olhos, de novo e de novo.
Naquela época, seu mundo havia se tornado pura escuridão; às vezes, pela dor excessiva, ela tinha alucinações da filha aparecendo sorridente em sua frente. Foram necessários dois anos para conseguir superar, mas a imagem no espelho quase a arrastou de volta àqueles momentos sombrios. No instante em que estava prestes a se perder novamente, a voz da filha surgiu em seu ouvido como uma bênção, permitindo que ela reagisse a tempo:
"Mamãe, siga em frente, não olhe para trás!"
Sem essa frase, Lúcia tinha certeza de que não estaria aqui agora.
Filha?!
Alice a avaliou de cima a baixo. Lúcia parecia ter apenas vinte e poucos anos; ela não imaginava que a moça já tivesse sido mãe.
— Sinto muito.
Lúcia sorriu amargamente: — Tudo bem, já passou. Mas até que o quadro ficou bem parecido, não? — Ela se referia à sua própria imagem na pintura.
Após o que pareceu uma longa espera, Beatriz apareceu cambaleando. No instante em que ela surgiu, Alice virou-se imediatamente para olhar a parede. Como suspeitava: apenas os jogadores que passavam pelo Salão dos Espelhos tinham seus retratos exibidos.
Na pintura, Beatriz estava sentada em um laboratório diante de seis placas de Petri. Cada placa continha um espécime humano em miniatura. No canto inferior direito, o código de sempre:
013-03
. Ao notar a cena, ela desviou o olhar rapidamente, levando a mão instintivamente à adaga na cintura para buscar uma sensação passageira de segurança.
Durante esse transe, Leonardo invadiu a galeria coberto de sangue, em um estado deplorável. Diferente dos outros, o retrato dele o mostrava ajoelhado diante de um túmulo; a lápide estava vazia, exceto por um profundo corte de faca no centro representando o falecido. Código:
013-02
.
Os presentes esperaram pela quinta pessoa. No entanto, ninguém apareceu. Quando os dez minutos se esgotaram, Madame Corvo balançou a cabeça com pesar: — Parece que os outros cinco não conseguiram passar pelo Salão dos Espelhos.
Sem surpresas, eles agora faziam parte do mundo dos espelhos. Alice perguntou, intrigada: — O garoto de boné também não passou?
— Você se refere ao senhor que perdeu as memórias de combate? — Madame Corvo sorriu levemente. — Ele teve azar; escolheu um espelho devorador. Neste momento, sua sombra tomou o lugar dele e está vagando pelo salão em busca da próxima vítima.
Que beleza... prestes a morrer e ainda querendo arrastar os outros
, pensou Lúcia com um misto de emoções. Dos dez que entraram, restavam apenas cinco. Era uma realidade cruel, mas inevitável.
Com o grupo completo, Madame Corvo não perdeu tempo e anunciou: — O jogo da galeria começa oficialmente.
Ela apontou para os diversos retratos: — A regra é simples: cada pintura está conectada a um "eu paralelo". Nesse mundo paralelo, vocês tomaram decisões diferentes e seguiram vidas diferentes. O jogo consiste em entrar no mundo da pintura, trocar de identidade com o seu eu paralelo e viver lá por 24 horas. Naturalmente, o tempo flui de forma diferente: lá dentro passarão 24 horas, mas aqui fora apenas uma.
— Trocar de identidade? O que isso significa?
— Significa que você entrará no corpo do seu eu paralelo e vivenciará a vida dele, enquanto o seu eu paralelo entrará no seu corpo e esperará aqui na galeria. Após as 24 horas, se você desejar voltar, poderá realizar a troca. Se não, poderá escolher ficar para sempre no mundo da pintura.
Alice exibiu um sorriso excitado. A premissa do jogo a agradou imensamente; ela adorava esse tipo de dinâmica e esperava ver mais coisas assim nos próximos cenários!
Ela perguntou impaciente: — O que acontece se eu ficar no mundo da pintura?
— Você se torna uma "Pessoa da Pintura". — Madame Corvo enfatizou o tom. — Uma verdadeira figura de tela. Sua consciência ficará presa para sempre naquele quadro, enquanto seu corpo físico se tornará uma casca vazia, apodrecendo lentamente na realidade.
As perguntas não pararam. Leonardo, escaldado pelo jogo da roleta, insistiu nos detalhes: — E se quisermos voltar, mas o nosso eu paralelo se recusar a destrocar?
— Será necessário um duelo de posse. O vencedor fica com o corpo; o perdedor torna-se nutriente para a pintura.
Madame Corvo fez uma pausa, lembrando-se de algo: — Este é o jogo do canhoto amarelo. Quem conseguir realizar a troca e retornar com sucesso receberá o canhoto. Mas atenção: só pode haver um vencedor. Ou seja, de vocês cinco, apenas um sairá com o canhoto amarelo.
O semblante do grupo pesou. Apenas uma vaga significava que a disputa seria feroz. Cada um por si.
Madame Corvo disse solenemente: — Agora, escolham se desejam entrar no mundo da pintura. Quem recusar pode esperar aqui na galeria, mas não obterá o canhoto. Claro, vocês também podem tentar atacar os outros para roubar seus canhotos depois; a Regra 4 continua valendo.
Os cinco foram forçados a parar diante de seus respectivos retratos. Alice encarou sua versão pintada.
Eu paralelo...
Ela lembrou-se do que dissera ao espelho antes de entrar; será que aquelas palavras moldaram a cena na tela? Quer fosse na realidade ou na pintura, ela acabara em um hospital psiquiátrico?
Tomada por uma curiosidade cética, Alice estendeu a mão lentamente. No momento em que seus dedos tocaram a tela, sentiu uma superfície extremamente gélida.
— Eu participo — disse Beatriz.
— Eu também — confirmou outro.
Ninguém recusou o desafio. O resultado agradou Madame Corvo, que bateu palmas animada: — Muito bem! Então, que comece o jogo. Pressionem as mãos contra a tela e fechem os olhos.
No instante em que a palma de Alice tocou a pintura, uma força de sucção poderosa a atingiu. Parecia que sua alma estava sendo arrancada do corpo por uma força mística. Após atravessar uma escuridão infinita, veio a sensação de queda livre.
Ao abrir os olhos, deparou-se com um branco ofuscante. Teto, paredes e até os lençóis: tudo branco. Alice estava deitada em um leito hospitalar, com os pulsos presos por faixas de contenção macias. Ao lado, o monitor cardíaco emitia um "bipe" rítmico e estável.
— Leito 7, hora do remédio.
Uma jovem enfermeira parou ao lado dela com um carrinho cheio de pílulas coloridas. Alice tentou se sentar, mas a fraqueza do corpo a impediu de fazer qualquer esforço. Aquele estado vulnerável a deixou insatisfeita. Seguindo o hábito de suas memórias, ela fez a pergunta mais comum:
— Onde estou?