Capítulo 55: Coisas Temidas
Fazer com que ela encontrasse o espelho real entre milhares de cópias idênticas era, de fato, um desafio penoso. Alice acreditava firmemente que deveria haver alguma diferença entre eles.
Madame Corvo sorriu com deleite: — É impossível distinguir. Vocês devem confiar em sua intuição ou em sua sorte. — Ela enfatizou deliberadamente a segunda metade da frase.
Os dez jogadores estavam na entrada do Salão dos Espelhos; para onde quer que olhassem, viam milhares de versões de si mesmos.
— Começando agora, contagem regressiva de dez minutos — Madame Corvo levantou o braço e apertou o cronômetro em seu relógio de bolso.
Ao ouvirem a ordem, os jogadores dispersaram-se rapidamente em diferentes direções. O método de Leonardo foi o mais direto: ele caminhou até o espelho mais próximo e fixou o olhar. O "ele" no espelho, com olhos vazios, também o encarava; três segundos depois, a superfície do espelho ondulou subitamente e uma mão robusta saiu de lá, avançando para agarrar o rosto de Leonardo.
Felizmente, ele reagiu rápido e desviou um segundo antes de ser tocado. Vendo que falhara, a mão recolheu-se para dentro do vidro. Esse incidente confirmou para Leonardo que aquele não era o espelho verdadeiro.
O jovem de boné perambulava pelo labirinto de espelhos, fazendo caretas ocasionalmente para testar a reação de seus reflexos. Enquanto todos buscavam freneticamente, Alice permanecia imóvel no mesmo lugar. Madeirinha olhava para um lado e para o outro, sem entender o que sua mestra estava observando ou por que ainda não havia agido.
Alice focou o olhar nos reflexos dos jogadores, e a
Precognição
surgiu inoportunamente. Ela pensou que a interferência aqui seria menor, mas era muito mais severa do que no restaurante. Esforçou-se para juntar os fragmentos de imagens, conseguindo ver o que aconteceria no futuro:
O reflexo da moça de óculos chorava sem motivo aparente. O reflexo de Leonardo... estava cometendo um assassinato?! A sombra do jovem de boné... roía o próprio braço. Que tipo de fetiche era aquele?
Alice franziu a testa; nenhum deles estava fazendo algo normal. Nenhum reflexo era comum!
Madeirinha sussurrou: — Mestra, esses espelhos são todos "meio reais". Eles estão clonando vocês.
— Clonando? — Alice ergueu a sobrancelha, interessada. — Vá direto ao ponto.
— Bem, é como uma fotocopiadora, mas o que eles copiam é a essência de vocês. Seus medos, desejos, pecados...
Ao ouvir isso, Alice teve um estalo. O que precisavam encontrar não era um "espelho real" físico, mas sim o espelho capaz de suportar a própria essência.
Alice fechou os olhos lentamente, parando de olhar para as infinitas sombras, e concentrou toda a sua atenção em perceber seu próprio interior. Medo? Ela sentia medo? Morte? Ela não temia. Dor? Alice soltou um riso sarcástico. Já estava acostumada! Solidão? Sempre fora assim. Perder a habilidade de
Precognição
? Provavelmente acharia apenas entediante.
Espere... tédio!!!
Alice abriu os olhos bruscamente e aproximou-se rápido de um espelho que parecia extremamente comum. A moldura tinha entalhes simples de madeira, sem decorações espalhafatosas. No espelho, ela estava inexpressiva, com o olhar vazio de sempre. Ela encarou seu reflexo sem piscar.
Um segundo, dois, três... Em menos de um minuto, a superfície do espelho começou a mudar. O que surgiu diante de Alice não foi uma cena aterrorizante, mas sim... o tédio.
A Alice do espelho estava em um quarto que se repetia infinitamente, fazendo as mesmas coisas todos os dias, vendo as mesmas pessoas, dizendo as mesmas palavras. Sem surpresas, sem acidentes, sem morte, sem adrenalina — apenas segurança e monotonia eternas.
Madeirinha ficou estupefacto: — Mestra, é disso que você tem medo?
Alice soltou um bufo de riso enigmático. Sim, aquele era o seu verdadeiro pavor. Uma vida sem fim, uma existência entediante. Mas e daí que ela havia adivinhado? Isso mudaria algo? Ou o espelho tentava apenas provocar suas emoções?
— Só isso? — disse ela para o espelho, sem mudar o semblante. — Sabe, eu passei três meses em um hospital psiquiátrico. Todos os dias era tomar remédio, comer, dormir e responder perguntas. Eu já vivi essa experiência. É entediante, sim, mas não insuportável. Pelo menos é melhor do que estar morta.
Entretanto, o pensamento de Alice já havia mudado. Mais do que suportar a dor, ela queria a libertação.
Talvez aquelas palavras tenham surtido efeito, pois o espelho começou a vibrar violentamente e, com um estalo, rachaduras espalharam-se. Em instantes, o vidro partiu-se ao meio, movendo-se para os lados e revelando uma passagem.
O riso satisfeito de Madame Corvo ecoou ao lado dela: — Correto! Que a jogadora entre na área da Galeria.
Alice assentiu para ela, em sinal de cumprimento, e entrou na passagem com determinação. Madame Corvo, mantendo o sorriso, murmurou para si mesma: — Bem-vinda, primeira a entrar na Galeria. Espero que se divirta lá dentro.
Alice não ouviu. O corredor era curto, cerca de dez metros, terminando em uma galeria espaçosa. Conforme avançava, os espelhos diminuíam, substituídos por retratos nas paredes. Ela observava cada pintura: algumas eram de jogadores que conhecia, outras de estranhos. As telas estavam amareladas e as molduras eram todas de um ouro envelhecido padronizado.
Caminhando, Alice encontrou seu próprio retrato entre tantos outros. Na pintura, ela usava roupas de hospital e estava sentada em um quarto branco puro. No canto da tela, havia um código:
013-07
.
Antes que pudesse refletir sobre o significado do número, Madame Corvo surgiu às suas costas, como se lesse seus pensamentos.
— 013 representa o décimo terceiro grupo de passageiros. 07 é o seu número. Não entenda mal; cada passageiro que sobe a bordo deixa um retrato na galeria como lembrança para o Ghost Ruins.
Alice conteve o susto pela aparição silenciosa da mulher e perguntou, fingindo calma: — E os outros?
— Eles entrarão em breve. Bem, desde que consigam passar pelo Salão dos Espelhos.
Entrar na Galeria dependia da sorte e do destino de cada um. No momento em que ela terminou de falar, a segunda jogadora entrou. Alice virou-se e viu a moça de óculos (Lúcia). Lúcia estava pálida, com suor frio na testa. Ao encontrar o olhar de Alice, ela tentou recompor-se e limpar o suor, mas sua respiração ofegante denunciava seu pânico.
Enquanto Lúcia se aproximava, Alice desviou o olhar e notou que, logo ao lado de seu retrato, estava pendurada a pintura de Lúcia. Nela, a moça de óculos vestia preto e estava sob a chuva, segurando uma faca que gotejava sangue. Código
013-05
.
Ao notar a própria imagem, Lúcia desviou o olhar de Alice, nervosa. Alice perguntou com um semblante complexo:
— O que você viu no espelho?