Capítulo 54: O Andar das Artes: Salão dos Espelhos e Pinturas
O Chef negou prontamente: — Não!
Como poderia não ser nada? Se não ganhassem nada, por que ele perderia tempo de bom grado com os jogadores?
— Vocês ganharam experiência. Agora, por favor, retirem-se do restaurante e dirijam-se aos outros andares; o jogo deste nível está oficialmente encerrado.
Alice soltou uma risada de escárnio. Experiência? Ser enganada? A experiência de "não confiar facilmente em NPCs"? Pois bem, vivendo e aprendendo!
O Chef fez um gesto de "por favor" e as portas do restaurante abriram-se automaticamente, revelando um patamar de escadas sombrio. Nesta rodada, com exceção da garota do urso de pelúcia, todos sobreviveram.
Os outros jogadores entreolharam-se; ninguém ousava ser o primeiro a sair. Quem sabia quais outras armadilhas o Chef estava tramando? Com a lição da prorrogação, eles não agiam por impulso, mas trocavam olhares tentando empurrar uns aos outros para fora.
Alice levou a mão à testa, impaciente: — Um bando de covardes — murmurou. Em vez de desperdiçar tempo esperando, era melhor sair logo para coletar os canhotos.
Ignorando os olhares estranhos, ela caminhou resoluta para a porta. Antes de cruzar o umbral, lembrou-se de algo pendente, virou-se e encarou o Chef: — Ah, devolva meu canhoto vermelho.
— A troca foi concluída. O canhoto foi consumido.
— Quem disse? — Alice voltou para perto da mesa longa e levantou a tampa do cloche número 2. O canhoto vermelho estava lá, intacto dentro da tigela. — Você disse apenas que era "trocável", não que o recolheria. Eu o usei para obter informação, não para negociá-lo como moeda de troca.
O Chef ia retrucar, mas uma voz em sua mente o comandou:
"Faça o que ela diz"
. Sendo um subordinado do sistema, ele não tinha o direito de se opor.
— ...Pode levar.
Alice guardou o canhoto e acenou para os outros: — Vou indo na frente. Sugiro que saiam logo; o tempo está acabando.
Essa frase serviu como um lembrete constante de que o fim do cenário — e possivelmente a morte deles — estava cada vez mais perto. Observando Alice partir com aquela postura despojada, os demais pararam de hesitar e começaram a deixar o restaurante um a um.
O Chef permaneceu no restaurante vazio. Sua máscara de disfarce caiu, revelando a parte inferior do rosto. Os jogadores não sabiam que, por trás do tecido, não havia nada além de uma escuridão abismal, onde flutuavam dois olhos que pareciam gemas de ovo.
— Lara... — murmurou a escuridão. — Por quanto tempo mais você conseguirá jogar com as palavras?
No caminho para o terceiro andar, Madeirinha colocou a cabeça para fora e contou o que vira: — Mestra, aquele Chef não tinha a metade de baixo do rosto.
Alice arregalou os olhos, chocada: — Sem rosto? Ele não é nem humano, nem espírito?
— Tem mais. Eu ouvi ele falando de você agora pouco.
— Falando o quê? Que sou inteligente ou amada demais?
Madeirinha: ...
Será que a mestra não percebeu que, depois desse jogo, ela já atraiu o ódio de vários jogadores?
— Nada disso.
Alice deu de ombros com desdém: — Achei que você fosse mais capaz, nem consegue ouvir uma conversa direito.
Enquanto conversavam, os dois chegaram ao patamar do terceiro andar. O papel de parede estava descolando em grandes tiras devido à idade, revelando tábuas de madeira vermelho-escura.
— Mestra, tem palavras aqui.
Alice deu um peteleco no crânio rígido do boneco: — Palavras tem você.
Ao aproximar-se, viu que a madeira estava coberta de inscrições miúdas em diversos idiomas. Antes deles, outros passageiros de diferentes países deviam ter deixado suas mensagens ali. Não seria estranho chamá-las de últimas palavras!
"15.04.1920 — 'Inafundável' é uma piada. Todos morreremos, fomos enganados."
"08.07.1943 — Eles me trancaram na sala das caldeiras, está tão quente."
"31.12.1999 — Os fogos de artifício do milênio viraram um massacre."
Alice lia enquanto caminhava. Madeirinha sussurrou: — Mestra, essas palavras são os últimos pensamentos dos mortos.
— Eu percebi — Alice tocou os entalhes na parede, sentindo um frio cortante nos dedos. — Este navio carregou muitos grupos de passageiros. Qual grupo somos nós?
— O décimo terceiro.
Uma voz suave veio de cima. Alice olhou para a curva da escada e viu uma mulher vestindo um traje da era vitoriana. Ela segurava uma sombrinha de renda e usava uma máscara de médico da peste pintada com grafites coloridos, com penas pretas pendendo das bordas.
— Sou a recepcionista da galeria do terceiro andar. Podem me chamar de Madame Corvo.
A voz amigável da mulher ecoou por trás da máscara: — Bem-vindos ao Andar das Artes. Aqui guardamos as relíquias mais preciosas do Ghost Ruins: as suas sombras.
Sombras como relíquias? Que coisa impressionante. Madame Corvo virou-se com um gesto elegante de "por favor". No fim da escada, havia uma porta dupla em arco com a inscrição:
"Salão dos Espelhos e Pinturas"
.
Apenas pelo nome, Alice deduziu que o jogo teria algo a ver com retratos. Madame Corvo empurrou as portas. A primeira coisa que viram não foram pinturas, mas um espelho limpo. Ou melhor, inúmeros espelhos. Tudo era coberto por eles: paredes, teto e até o chão.
O salão era circular e os espelhos não tinham frestas entre si, criando um espaço de reflexão infinita. No centro, Alice via milhares de versões de si mesma estendendo-se em todas as direções, como se não houvesse fim. Mais sinistro ainda: os reflexos não eram perfeitamente sincronizados com ela.
Alice suspeitou que as imagens no espelho fossem entidades independentes e conscientes. Para testar, ela levantou a mão propositalmente, observando o seu outro "eu". Como esperado, o reflexo demorou um segundo para imitá-la. Alice continuou o teste: ao virar a cabeça, o reflexo a seguiu, mas seus olhos permaneceram fixos nela por alguns segundos antes de finalmente desviarem.
Madame Corvo observou os testes sem se irritar ou interferir. Ela já vira muitos jogadores fazerem o mesmo.
— O Salão dos Espelhos é o primeiro teste. Em dez minutos, encontrem o único espelho verdadeiro. O espelho real mostrará a cena que você mais teme na vida. Se conseguir encará-la por mais de três segundos sem perder o juízo, poderá entrar na área da galeria. Os que falharem ficarão presos no espelho para sempre.
— Ah, fiquem atentos: alguns espelhos devoram pessoas~ Se escolherem errado, eles roubarão sua sombra e assumirão o seu lugar na existência.
Alice comprimiu os lábios, entendendo o recado. A dificuldade era maior do que imaginava: era preciso encontrar a verdade em meio a infinitas mentiras de si mesma. Mas uma dúvida a incomodava:
— Como se diferencia qual espelho é o verdadeiro?