Capítulo 44: Julgamento Gastronômico (1)
O rosto da
croupier
, por algum motivo, começou a derreter de forma bizarra, jorrando um líquido negro que caía no chão e corroía pequenos buracos no tapete.
— Você fez aquilo de propósito — sibilou ela.
Alice respondeu: — As regras dizem que a
croupier
preside o jogo, não dizem que ela não pode trapacear, mas também não dizem que o jogador é proibido de denunciar a trapaça.
Ela balançou o canhoto vermelho com elegância. — Fui. A gente se vê na próxima cabine.
Ao chegar à porta, Alice fez questão de deixar um último comentário: — Mas, falando sério, não achei que você fosse se distrair com uma bobagem como o "Ghost Ruins subindo". Vocês, administradores, precisam melhorar esse psicológico.
Uma coisa insignificante foi capaz de dispersar a atenção dela; no mundo real, seria fácil demais enganar alguém assim.
— AAAAAAAHHHHH! — A mulher soltou um grito ensurdecedor, fazendo as luzes do cassino piscarem freneticamente.
Alice já havia saído. O som lá de dentro fora isolado pelas pesadas portas de madeira; não importava o quanto a mulher gritasse, ninguém do lado de fora ouviria nada. Beatriz e Leonardo a seguiram de perto, com expressões extremamente complexas.
— Como você sabia que ela se distrairia? — perguntou Beatriz.
Alice deu de ombros, fingindo inocência: — Eu chutei. O cassino não tem janelas, ela não consegue ver o lado de fora. Quando eu falei, ela quis confirmar por instinto, e nesse segundo de distração, o controle que ela exercia sobre a roleta afrouxou.
Leonardo ficou estupefato: — ...Só isso?
Ela respondeu calmamente: — Para lidar com coisas que seguem regras cegamente, o melhor método é questionar a própria regra. Eles têm mais medo de falhas no sistema do que nós.
Beatriz, notando que Alice ainda mantinha aquela postura descompromissada, continuou: — Você sabia o resultado da terceira rodada desde o início, não sabia?
— Não sabia — Alice disse honestamente. — Mas eu sabia que ela queria que o rapaz de óculos vencesse, então apostei que ele perderia. Assim, não importava onde o ponteiro parasse: desde que não fosse no 11, eu ganharia.
— E se parasse no 11?
— Então agora eu seria parte da decoração da roleta. Alto risco, alto retorno.
É preciso perder para ganhar. Querer tudo sem oferecer nada? Difícil. Muito difícil.
Os três chegaram à escadaria para subir ao segundo andar. Por coincidência, havia um espelho quebrado pendurado na curva da escada. Ao passar, Alice vislumbrou seu reflexo. No espelho, além do Madeirinha em seu ombro, havia um vulto borrado em suas costas. Olhando bem, lembrava o contorno do jovem de óculos. Ele estava agarrado a ela, rugindo silenciosamente, como se estivesse descarregando sua fúria.
Alice sorriu para o espelho e moveu os lábios sem som: — Bem-vindo à carona.
O vulto desapareceu instantaneamente.
Madeirinha comentou: — Mestra, o espírito rancoroso daquele homem se prendeu a você.
Alice não deu a mínima: — Deixe-o aí. Estava mesmo precisando de um espírito guardião, esse serve para quebrar o galho.
Em seguida, subiram os degraus. Jamais saberiam que, atrás deles, no cassino, a mulher soltava gargalhadas histéricas misturadas ao som incessante da roleta girando. Alice estava mais interessada no fato de que o primeiro canhoto já estava em mãos. Restavam onze horas e precisavam de mais dois. Dos concorrentes, além dos dois aliados e dos três anônimos que morreram no cassino, restavam cinco pessoas.
Diferente do cassino, as portas do restaurante no segundo andar eram feitas de carvalho pesado, adornadas com vitrais coloridos e desbotados. Alice notou de imediato que o desenho representava
A Última Ceia
, mas o rosto de Jesus fora raspado, deixando um buraco no lugar. Quem seria tão perverso?
Jesus: Por favor, me deem um tempo.
Beatriz ia empurrar a porta, mas Alice a impediu. Com um tom sério, ela recomendou: — Quando entrarmos, não importa o que vejam, lembrem-se de três pontos.
Os dois assentiram obedientemente.
— Primeiro: o julgamento aqui provavelmente é psicológico. Dano físico não mata, ou pelo menos não mata na hora.
— Segundo: se surgir uma situação de escolha obrigatória, escolham a opção que parecer mais absurda. O cenário adora o que é antilógico.
— Terceiro — Alice encarou os olhos deles. — Aconteça o que acontecer, nossa aliança dura até o fim deste andar. Saindo do restaurante, é cada um por si.
Leonardo perguntou confuso: — Por quê? Ainda não chegamos ao último andar.
— É, você devia nos dar um motivo para encerrar assim do nada.
Eles achavam que, como havia três vagas, poderiam vencer juntos sem precisar de traição no final. Não entendiam por que Alice queria desfazer o grupo antecipadamente.
— Não tem "porquê". — Ela não precisava de motivos para suas ações; apenas seguia sua vontade. Como Alice se recusava a falar, eles não tiveram escolha senão aceitar. Leonardo torceu o canto da boca, contrariado: — Entendido.
No momento em que a porta se abriu, o aroma de carne assada invadiu o paladar. Cheirando com atenção, percebia-se que sob a fragrância sedutora escondia-se outro odor: o cheiro doce e quente de vísceras frescas! Se fossem de animais, seria uma raridade; se fossem humanas, Alice sentiria náuseas.
O restaurante era vasto, pelo menos duas vezes maior que o cassino. Os candelabros de cristal agora sustentavam velas feitas de gordura humana. A cera escorria pelas correntes, formando pilhas leitosas sobre a mesa longa. As paredes laterais estavam cobertas por retratos de pessoas jantando; todas estavam com a boca escancarada, revelando cavidades escuras, e no lugar dos olhos haviam uvas secas e murchas.
Arrancar os olhos e substituí-los por uvas. Alice comentou admirada: — Ora, ora! Só um jogo para inventar métodos tão cruéis.
Seu olhar vagou até o final da mesa, onde estava o que parecia ser o
Chef
. Ele não era apenas obeso, era deformado. Usava um dólmã manchado de gordura e um chapéu de mestre-cuca limpo, onde estavam fincadas seis facas de mesa com as lâminas para cima. O Chef usava uma máscara, revelando apenas olhos pequenos com pupilas de um amarelo turvo.
Pelo visto, seria difícil encontrar um NPC normal neste cenário, pensou Alice. Leonardo sussurrou para Beatriz: — Veja, os olhos dele parecem duas gemas de ovo.
Não era apenas parecido, era idêntico. A única diferença era o tamanho. Beatriz não achou graça: — Você está com vontade de comer ovo, é?
— Três novos clientes, bem-vindos ao Julgamento Gastronômico.
O Chef interrompeu os sussurros, exibindo uma hospitalidade artificial. Na mesa longa já estavam sentadas quatro pessoas: uma garota de aparência dócil e óculos, um homem musculoso de regata branca com cicatrizes no rosto, uma adolescente abraçando um ursinho de pelúcia e... o jovem de boné. Ele não desaparecera; apenas chegara antes.
Sete pessoas no total. A
Precognição
surgiu.
A mesa estava posta com cloches de prata. Sob cada prato, havia um bilhete. Os jogadores deveriam abrir o prato, ler o bilhete e decidir se "consumiriam" o alimento servido.