Dentro do Grupo HS.
Ricardo Holanda quase enlouqueceu ao saber que Jasmine havia sido atacada e ferida. Ignorando tudo, ele abandonou seus compromissos e dirigiu pessoalmente em direção ao hospital. A velocidade era tanta que seu coração parecia prestes a saltar do peito — ou talvez já estivesse batendo com essa intensidade frenética por si só. Ele não conseguia mais aceitar a ideia de vê-la ferida.
Do outro lado da linha, o Secretário Silas ainda pedia instruções:
— Isabella está exigindo vê-lo. Ela diz que o senhor irá protegê-la e alega que só queria ferir o rosto dela, não matar. Ela quer que o senhor contrate advogados para classificar o caso como um acidente.
Antes que ele terminasse, foi interrompido friamente:
— Contrate para ela. — A voz de Ricardo era gélida, como um vulcão reprimido; ele sentia vontade de ir até Isabella e despedaçá-la com as próprias mãos. — Foi uma tentativa de homicídio em via pública. Contrate a melhor equipe de advogados da HS; ela não deve sair viva da prisão.
Silas estremeceu.
— Entendido.
Ricardo continuou:
— Investigue tudo. Ninguém envolvido nisso deve ser poupado; exijo punição severa. Descubra quem deu o paradeiro de Jasmine a ela e por que o ataque foi repentino. Todos os envolvidos devem ser eliminados do caminho.
Foi a primeira vez que Silas viu o patrão com tanta raiva. Ele foi cumprir as ordens imediatamente, enquanto Ricardo corria para o hospital. No entanto, ao parar no corredor e ver Jasmine deitada no quarto, a sensação de impotência que o tensionava finalmente desabou. Suas mãos cerradas relaxaram. Como um pinheiro robusto que finalmente cede ao peso e se dobra, seu corpo alto deslizou pela parede.
Aquela cena era terrivelmente familiar. Ele punia a todos, mas o maior culpado por feri-la não era ele mesmo? Hoje, Jasmine conseguira se defender do ataque de Isabella, evitando o corte da faca. Mas, no passado, ele permitira que Victor e Isabella causassem tantas feridas no corpo dela. E foi muito além disso.
Veio à sua mente o dia em que Isabella se ferira e ele ordenou que todos os médicos saíssem, negando atendimento a Jasmine. Ela certamente vira e ouvira tudo na época. O quanto ela o odiaria? O quanto ele odiava Isabella agora devia ser proporcional ao ódio que Jasmine sentia por ele. Uma enorme sensação de fraqueza espalhou-se por seu corpo. Ricardo hesitou à porta do quarto por um longo tempo antes de finalmente entrar.
Jasmine estava inconsciente, com o rosto pálido e a cabeça enfaixada. O médico explicou ao lado:
— A paciente não corre perigo. Houve apenas um pequeno hematoma pelo impacto na nuca; ela deve acordar em breve.
Ricardo suspirou aliviado e assentiu. Ele curvou-se ao lado da cama, com os olhos negros fixos nela. Ficou observando-a por um tempo indeterminado, até que viu os cílios dela tremerem. Jasmine abriu os olhos.
Até aquele momento, ela ainda estava confusa, imersa nas memórias que acabara de recuperar. Ela se lembrava de tudo agora. As lembranças mais profundas, gravadas em seu cerne, eram com Ricardo Holanda. Ricardo dissera que ela o salvara, mas o que ele não contou foi que, na verdade, ele também a salvara.
Na juventude, Jasmine fora abandonada pela família devido a uma doença rara. Foi deixada sozinha na Alemanha com apenas um pouco de dinheiro. Na época, os médicos não sabiam como curá-la e sua memória estava desaparecendo gradualmente. Naquela noite, ela fora à fábrica abandonada com a intenção de dar um fim à própria vida, mas encontrou Ricardo — que, mesmo com as pernas quebradas, recusava-se a desistir.
O jovem bonito, coberto de sangue, tinha um olhar de uma resiliência extrema, cheio de ferocidade e ambição. Mesmo com os olhos injetados de dor, ele lutava para sair da escuridão. Aquela vitalidade pulsante comoveu Jasmine profundamente. Naquele instante, ela percebeu que a vida era preciosa. Enquanto ela queria desistir, alguém lutava desesperadamente para viver.
Assim, ela o salvou secretamente e o levou para seu pequeno quarto alugado para cuidar dele. Quando o dinheiro dela acabou e Ricardo ainda não estava totalmente recuperado, ele foi fazer trabalhos braçais para sustentá-la. A família Holanda não se importava com ele, assim como a família de Jasmine não se importava com ela. Os dois dependiam um do outro naquele pequeno espaço.
Ricardo era talentoso e mestre em computação. Mesmo que a língua fosse um obstáculo inicial, ele logo começou a ganhar dinheiro suficiente para sustentá-los e ainda ter sobra para levá-la viajar e buscar tratamentos em todos os lugares. Naquele ano, eles percorreram quase toda a Europa.
Ricardo sabia que ela esqueceria tudo um dia; aos poucos, ela começou a esquecer até como se conheceram. Mas sempre que Jasmine pensava em desistir, Ricardo a levava para um lugar novo sem hesitar. Ele sempre dizia que não importava se as memórias sumissem, eles sempre teriam novas vivências. Mesmo que chegasse o dia em que ela esquecesse quem era, cada detalhe ficaria guardado na mente de Ricardo. Não importa o que acontecesse, ele usaria essa memória para encontrá-la e ficarem juntos novamente. Esse era o pacto deles.
Foram os dias mais felizes da vida de Jasmine. Ricardo tinha uma aparência brava, mas tratava quem amava com um afeto fora do comum. Jasmine nunca recebera um amor tão intenso. Ele era sincero, obstinado e cheio de compaixão; nunca fora um homem cruel e insensível. Mesmo quando Jasmine se tornou um fardo, ele jamais a abandonou.
Jasmine acreditou ingenuamente que teriam um futuro. Até que, em uma consulta sozinha, soube que seu quadro estava piorando. Ela perderia toda a memória e morreria com a mente em branco. A data da morte não estava longe. Sendo o primeiro caso dessa doença rara, não havia cura.
No dia em que voltou dessa consulta secreta, ela tatuou uma borboleta na nuca. Era a borboleta que haviam salvado juntos na floresta. Ela desejava desesperadamente renascer como uma borboleta, mas não aguentou. Seu corpo enfraquecia e as memórias ficavam turvas. Ricardo, sem saber da gravidade, ainda planejava viagens, mas ela já não conseguia mais caminhar.
Ela não queria dar essa notícia terrível a ele, então apenas dizia que estava com preguiça de sair. Prometeram enfrentar tudo juntos, mas Jasmine recuou. Ela não queria que a última lembrança dele fosse vê-la morrer, nem que ele gastasse todas as suas economias em um tratamento sem esperança. Ricardo era o neto legítimo do patriarca dos Holanda; se ele voltasse para a China e abandonasse tudo ali, poderia ser aceito novamente. Ela não podia destruir o futuro dele.
Por fim, ela o abandonou. Naquela época, Ricardo estava imobilizado por causa de uma lesão antiga que inflamara pelo esforço excessivo. Na noite em que ela o deixou, chovia muito. Ricardo, como um cachorrinho abandonado, perseguiu-a na noite chuvosa em meio ao desespero. Mas, ferido, ele não conseguiu alcançar o carro em que Jasmine partia. Jasmine não teve coragem de olhar para trás uma última vez.
Após descer do carro, ela correu sem rumo sob a chuva e acabou desmaiando na beira da estrada. Mas o destino foi generoso: ela foi resgatada por um grande nome da medicina. Não apenas sobreviveu, mas sua doença parou de evoluir, restando apenas a perda de memória. Curada, foi levada de volta pela família de Jasmine e, por ironia do destino, acabou reencontrando Ricardo anos depois.
Agora, Jasmine estava deitada naquela cama de hospital. Ouvindo o chamado de Ricardo, uma lágrima escorreu pelo canto de seu olho. Um amor denso misturado a uma profunda tristeza circulava em seu peito. As coisas mudaram. Anos se passaram e, talvez pelo abandono dela ou pela crueldade da família Holanda, Ricardo quase não era mais a mesma pessoa de suas memórias.
Antigamente ele não era tão obsessivo, nem tratava os outros com crueldade. O fato de ele ter sido tão insensível com alguém que caiu de um andar — retirando os médicos — era algo que ela não conseguia aceitar. Mesmo que ele não soubesse que era ela, Jasmine não suportava que ele tivesse se tornado tão impiedoso. Eles salvaram borboletas e mendigos juntos; ele era uma boa pessoa, gentil. Nada parecido com a frieza de agora.
Jasmine sentiu medo. Recuperar a memória a fez ter ainda mais receio de se aproximar dele. Quando não havia sentimentos, ela podia apenas lidar com ele superficialmente, esperando que ele se cansasse. Mas agora, ela não suportaria uma traição. Tinha medo de que, ficando juntos, ela voltasse a amá-lo incontrolavelmente e, então, Ricardo a descartasse sem piedade, da mesma forma que ela fizera com ele. Ela não queria que sua "luz do luar" de juventude terminasse de forma tão deplorável.
Ricardo limpava as lágrimas dela incessantemente. Ele estava com o cenho franzido e os médicos voltaram para examiná-la. Após constatarem que estava tudo bem, pediram repouso e saíram. Jasmine finalmente virou o rosto para olhar para Ricardo. Pela primeira vez, observou detalhadamente o homem de vinte e seis anos. Era o mesmo rosto de jovem da memória, mas sem a inocência, agora mais afiado, atraente e com um olhar muito mais profundo. Ele parecia muito mais difícil de lidar; antes era a audácia de um jovem, agora era indiferença e frieza.
— Jasmine, sente algum desconforto? Isabella já foi presa, ninguém mais vai te machucar. Desculpe, eu deveria ter te acompanhado hoje, a culpa é minha.
Ricardo segurava a mão dela com força. As veias saltavam em sua mão pálida, mas ele não a apertava a ponto de machucar. Estava tentando conter o pavor de tê-la perdido. Jasmine balançou a cabeça levemente.
— Quero comer um bife. Você pode fritar um para mim pessoalmente?
Foi a primeira vez em oito anos que ela fez um pedido voluntário a ele. Ricardo não sabia que ela recuperara a memória. Vendo o olhar quase suplicante de Jasmine, ele concordou sem hesitar:
— Tudo bem, volto logo. Se precisar de algo, me ligue, não tente fazer as coisas sozinha.
Sentada na cama, Jasmine o viu partir. Suas costas apressadas lembravam o jovem de antigamente. Ela sorriu e começou a escrever em um papel. Deixou uma carta para Ricardo:
“Ricardo, recuperei todas as minhas memórias.
Sinto muito, fui eu quem quebrou a promessa e te deixou, você tem todo o direito de me ressentir.
Mas oito anos se passaram e nós dois mudamos. Eu não sou mais a pessoa que você guardou no coração, e você também não é a mesma.
Sei que não somos compatíveis, forçar uma união só nos machucaria. Não quero que o nosso futuro termine de forma feia.
Vou levar meu filho e sair de Pequim.
Se você ainda tem algum sentimento por mim, por favor, me deixe ir com dignidade.
Se sentir falta do menino, podemos nos falar por vídeo.”
Após deixar a carta, ela saiu do hospital e pegou um táxi para buscar o filho. Já estava escuro e uma chuva torrencial caía. Jasmine dirigia com Ethan, navegando silenciosamente pela noite chuvosa. Ela não ia rápido; o pequeno dormia no banco de trás. Mesmo com o sono inquieto, ele se comportava bem, sem interrompê-la. Jasmine sentia pena do filho, tão pequeno e já passando por tantas mudanças.
Na verdade, se fosse possível, deixar Ethan com Ricardo não seria uma má ideia. Por mais frio que fosse, ele não faria mal ao próprio filho. O Ricardo que ela conheceu, criado rigidamente pelos pais, odiava cobranças excessivas; ele certamente seria bom para Ethan. Mas Jasmine não podia garantir que ele não se casaria novamente. Ela não queria que Ethan tivesse uma madrasta ou irmãos competindo por espaço. Pensando nisso, era melhor mantê-lo consigo.
O carro seguia discretamente pela noite. A chuva aumentava e os prédios rareavam. O caminho para o aeroporto era isolado e, naquele horário, havia poucos veículos. No entanto, subitamente, vários carros de luxo pretos surgiram à sua frente, bloqueando completamente a estrada.
Assim que Jasmine parou o carro, viu Ricardo correndo em sua direção sem guarda-chuva. Ele abriu a porta do carro dela, com os olhos injetados de sangue, e a abraçou desesperadamente. O corpo dele tremia; foi a primeira vez que Jasmine o viu com tanto medo. O pavor de perdê-la era palpável.
— Jasmine, você vai me deixar de novo? Desculpe por ter te decepcionado, sinto muito.
O paletó preto de Ricardo, encharcado, colou-se ao corpo de Jasmine, frio e úmido. Ele estava extremamente pálido. Parecia novamente o jovem abandonado por ela, implorando na noite de chuva.
— Por favor, me dê mais uma chance. Não me jogue fora. Nem que seja para ficarmos juntos apenas por um ano. Se depois disso você ainda não quiser, eu prometo que nunca mais vou te incomodar.
Ricardo segurava a mão dela com força, implorando por uma oportunidade. Jasmine não queria olhar para ele, mas não conseguia evitar. O Ricardo diante dela se sobrepunha ao jovem do passado. Oito anos atrás, ela o abandonara quando ele mais precisava. Hoje, tentara fugir para não ver aquela expressão de desolação novamente. Vivenciar tudo aquilo de novo era demais para ela.
Jasmine não teve coragem de insistir. Ela também não queria que a história deles terminasse de forma tão sofrida. Achara que a carta traria uma separação digna, mas agora seu coração doía excruciantemente. Ela percebeu que ainda o amava, mesmo que ele tivesse mudado.
Ricardo fixava os olhos nos dela, esperando uma resposta. Olhando para aqueles olhos familiares, Jasmine não conseguiu dizer que partiria. Por fim, ela assentiu levemente.
— Tudo bem. Apenas um ano. Se realmente não der certo, nos separaremos em paz, sem perseguições.
No instante em que as palavras saíram, seus lábios foram tomados por um beijo profundo.