Um forte sentimento de alerta surgiu no coração de Jasmine naquele momento. Especialmente quando Ricardo Holanda olhou para ela, ela teve o impulso instintivo de fugir. O medo de que, agora que estavam sozinhos no quarto, ele voltasse a maltratá-la, a consumia.
No entanto, no instante seguinte, seus olhos brilharam com surpresa. Jasmine baixou o olhar, atônita.
Ricardo estava semidobrado, agachado diante dela, olhando-a de baixo para cima. Seu cabelo estava desgrenhado por causa da briga, com fios pretos caindo sobre o osso proeminente de sua sobrancelha. Esse ângulo escondia ao máximo a ambição em seus olhos; sob a luz turva, via-se apenas seu rosto de uma beleza extrema. Por um momento, ele parecia um lobo que havia recolhido as garras, tornando-se quase dócil.
Sendo justo, aquele rosto era de um esplendor absoluto, tanto que, mesmo naquela situação, Jasmine ficou paralisada por um segundo. Logo em seguida, ela recobrou os sentidos ao ouvir as palavras dele:
— Jasmine, você pode impor as condições que quiser. Contanto que não me abandone, aceitarei qualquer exigência. Farei com que os advogados redijam um contrato para assinarmos; eu jamais a decepcionarei.
Sua voz era firme, sem a menor hesitação. No entanto, mesmo naquela posição, sua mão grande ainda segurava firmemente a cintura dela, como se jamais permitisse que ela fugisse completamente de seu domínio. Um homem tão obsessivo não seria convencido com apenas algumas palavras.
Jasmine respirou fundo. Ela sabia que, por enquanto, seria impossível se livrar de Ricardo Holanda; a teimosia dele superava em muito sua imaginação. Mesmo que ela fosse apenas uma "amante de juventude", Ricardo parecia decidido a não deixá-la ir. Jasmine também sabia que se afastar totalmente dele agora não era realista, especialmente com o filho ainda na mansão dos Holanda.
Porém, ela precisava aproveitar que Ricardo estava agindo sob forte emoção para lutar por seus direitos. Ela baixou o olhar, encarando o homem que agora assumia uma postura de submissão.
— Se você realmente se sente culpado, pode me deixar reunir com meu filho?
— Posso — Ricardo concordou imediatamente, sem hesitar. — Vou ajudá-la a se mudar de volta agora mesmo.
Jasmine, contudo, balançou a cabeça com uma voz resoluta:
— Eu quero que o Ethan se mude e venha morar comigo.
Ao ver Ricardo franzir o cenho, ela acrescentou com esforço:
— Você poderá vir vê-lo aqui por uma hora todos os dias. Se realmente sente que me deve algo, espero que aceite minha exigência.
— Uma hora é muito pouco — Ricardo tentou negociar.
— Não é pouco. Não foi exatamente assim que você me tratou antes?
Ao dizer isso, qualquer argumento de Ricardo morreu em sua garganta. Ele baixou a cabeça com dor, sentindo novamente um arrependimento dilacerante. Após um longo tempo, ele ergueu o rosto, sem se opor:
— Está bem, eu aceito.
Antes que Jasmine pudesse comemorar, ele continuou:
— Jasmine, eu sei que há ódio em seu coração. Durante essa hora diária, você pode se vingar de mim como quiser. Eu prometo que não vou reagir. Eu lhe devo isso.
Ele falava com um brilho feroz nos olhos. Jasmine ouvia suas palavras de dor profunda sem demonstrar qualquer emoção. Ela vira com os próprios olhos o destino de Isabella. Não importava o quanto Ricardo fosse parcial e apaixonado no início; assim que ele se cansasse, o fim seria cruel. Se ela se vingasse de Ricardo agora, no futuro ele se vingaria dela com uma força ainda maior.
— Tudo bem.
Ela concordou apenas para fingir, querendo acalmá-lo e fazê-lo ir embora. No entanto, Ricardo disse:
— Vamos contar essa hora a partir de agora. Jasmine, faça o que quiser.
Antes que Jasmine pudesse reagir, ele colocou uma faca na palma da mão dela. Ela baixou os olhos em choque, vendo que Ricardo estava entregando a arma segurando-a pela própria lâmina. O sangue escorria de sua mão pálida, mas seus olhos brilhavam com uma obsessão louca, como se ele fosse incapaz de sentir dor.
Jasmine ficou apavorada com o estado dele:
— Solte isso agora!
Ricardo não contestou e, obedientemente, largou o punhal. A arma caiu no chão, respingando gotas de sangue. Ricardo não sofrera ferimentos na briga com o Sr. Shen, mas agora estava ensanguentado. Ele fechou o punho, tentando esconder o corte na palma da mão para não assustá-la.
O sangue continuava a escorrer, e ele franziu o cenho, insatisfeito:
— Esta é uma das cicatrizes.
Jasmine lembrou-se do que ele estava falando; devia ser uma referência ao incidente em que o Sr. Victor quebrara o vidro e a fizera se ferir. Seria possível que esse louco pretendia causar em si mesmo todas as feridas que ela sofrera? Mas, naquela época, o corte dela fora superficial, enquanto a força de Ricardo parecia querer retalhar a própria mão.
Com que tipo de psicopata ela se envolvera no passado?
— Vá fazer um curativo, pare de loucura!
Jasmine tinha um kit de primeiros socorros em sua bagagem — um dos itens que Ricardo descartara após ela ter tocado. Enquanto ela se virava para pegá-lo, viu pelo canto do olho que Ricardo pegara o punhal novamente, pronto para atingir a outra mão.
— Pare com isso!
Jasmine sentiu que ia enlouquecer; ela correu, tomou o punhal dele e o puxou para perto do kit médico para fazer o curativo. Ricardo não resistiu. Ele manteve a cabeça baixa, permitindo que ela enrolasse a gaze em silêncio absoluto. Deixou que ela manipulasse sua mão ferida como quisesse; mesmo quando ela era brusca, ele não reagia.
Se Jasmine não tivesse presenciado sua loucura momentos antes, realmente acreditaria que ele era uma pessoa dócil. Ela também começou a entender por que namorara com ele antes: certamente fora enganada por essa aparência.
Seus movimentos ao fazer o curativo eram ágeis, sinal de que ela costumava cuidar de si mesma e de Ethan com frequência. Ricardo observava os movimentos dela, sentindo o coração ser esmagado até o sufocamento. Sua mente foi inundada pela lembrança de quando ela o vira pela primeira vez na floresta, cuidando dele, que estava coberto de feridas, com mãos desajeitadas.
Ele era alguém que lutava no inferno, obsessivo e doentio. Foi ela quem o resgatou, transformando-o em um ser humano normal, apenas para ser enviada ao inferno pelas mãos dele. Fora a dor causada por ele que a ensinara a fazer curativos com tamanha perícia. A violência e a autodestruição em sua alma o faziam se odiar cada vez mais. As veias saltaram em sua testa; ele estava prestes a perder o controle das emoções.
A voz calma de Jasmine soou subitamente:
— Não precisa se torturar, isso não me faz sentir melhor.
Ela ergueu o rosto, olhando para ele com seriedade:
— Eu não sou o tipo de pessoa que fica feliz ao ver a desgraça alheia. Se você realmente sente culpa, trate o Ethan melhor daqui para frente e não guarde rancor do Sr. Ricardo Shen pelo que aconteceu hoje.
— Vou trabalhar normalmente e espero que não conte aos meus novos colegas sobre nossa relação. Se quiser ver o Ethan, venha me procurar depois que eu sair do trabalho. E não tem permissão para me tocar sem autorização.
Ricardo assentiu para cada condição, até chegar à última. Ele não conseguiu evitar franzir o cenho.
— Se eu for cuidar da criança, será difícil garantir que não encostarei em você.
Ele parecia ter recuperado a calma; voltara a ser o ponderado líder da família Holanda. Jasmine pensou que ele tinha razão; não poderia ficar se esquivando dele o tempo todo na frente de Ethan. Ela queria que o filho tivesse uma infância saudável e normal.
— Está bem, retire essa última parte.
Considerando que Ricardo ainda ficaria ali por meia hora, Jasmine não perguntou se ele poderia sair mais cedo; as chances de ele recusar eram altas. Então, ela pegou o kit médico e se preparou para sair do quarto para procurar o Sr. Shen. Após apenas alguns passos, o homem alto bloqueou a porta, olhando para ela com incredulidade.
— Você vai fazer o curativo dele?
— Algum problema? — Jasmine voltou-se para ele, com o tom de voz leve. — Você também não fez o curativo da Isabella uma vez?
Ricardo ficou mudo instantaneamente.