Jasmine baixou a cabeça, consumida por um arrependimento profundo. Se soubesse que as coisas tomariam esse rumo, jamais teria aberto a porta para pedir ajuda. Preferia ser maltratada por Ricardo Holanda até a morte a ter que envolver outra pessoa em sua desgraça.
Ela começou a suplicar amargamente, esperando que Ricardo desse mais uma chance ao Sr. Shen.
— Sinto muito, de verdade. Tudo o que aconteceu hoje foi por minha cu...
As palavras foram interrompidas abruptamente. Seus lábios vermelhos foram cobertos por uma mão grande, impedindo-a de continuar se desculpando. Ricardo inclinou-se e a envolveu em um abraço; Jasmine conseguia sentir que a mão dele em sua cintura tremia de tanto autocontrole.
Ricardo não conseguia mais ouvi-la pedir perdão. Ele enterrou o nariz no pescoço dela, encostando-se nela com adoração, sua voz soando extremamente rouca.
— Não diga mais nada.
Por um instante, Jasmine teve a nítida sensação de que ele estava prestes a chorar. Ela ficou paralisada ao ouvir a voz embargada de Ricardo:
— Jasmine... você me odeia muito, não é?
...
Jasmine ouvia aquilo em transe. Ela não conseguia processar a situação; era totalmente inesperado que ele fizesse tal pergunta. Se ela o odiava ou não, isso importava? Depois de tudo o que ele fizera, era de se esperar que ele não desse a mínima para a opinião dela; afinal, ele sempre fora alguém que não se importava com os outros.
Por que perguntar isso agora? Ela não sentia cheiro de álcool e começou a desconfiar que Ricardo tivesse enlouquecido. Do contrário, como alguém tão arrogante quanto ele diria algo assim? Mas agora, o futuro da empresa do Sr. Shen era o mais importante, e ela certamente não iria provocá-lo.
Mais do que ódio, o que ela sentia era uma aversão profunda e o desejo de manter distância. Era difícil julgar se Ricardo estava apenas inventando uma nova forma de torturá-la; se ela confessasse que o odiava, talvez ele ficasse furioso novamente. Por isso, ela balançou a cabeça negativamente.
Ela pretendia continuar se desculpando, mas ouviu a voz de Ricardo soar com extrema seriedade. Seus olhos estavam escuros, sem qualquer vestígio de brincadeira ou embriaguez.
— Jasmine, eu lhe devo o mundo. Você pode se vingar de mim como quiser. Vou transferir todos os meus bens para o seu nome; de agora em diante, será você quem irá me humilhar. Só peço que... não me abandone de novo.
Ao dizer a última frase, sua voz soou quase como uma prece. Ele não falou alto, apenas Jasmine e o estupefato Silas ouviram. O secretário quase caiu para trás; suas pupilas dilatadas não paravam de oscilar entre o patrão e a Srta. Jasmine.
Jasmine também ficou em choque com aquelas palavras. Ricardo Holanda estava lhe pedindo desculpas e queria lhe dar toda a sua fortuna? Ele certamente tomara o remédio errado — ou talvez ela mesma estivesse alucinando. Do contrário, como isso seria possível? Quem em sã consciência ousaria aceitar os bens dele? Não teria medo de uma vingança terrível depois?
O coração de Jasmine disparou de pânico, e ela tentou se desvencilhar dos braços dele. Mas Ricardo parecia decidido a não soltá-la até que ela aceitasse; seu olhar era firme e feroz, insistindo para que ela concordasse, quase querendo levá-la naquele exato momento para oficializar a transferência.
Jasmine sentia que ia perder o juízo. Antes que pudesse perguntar, exausta, o que ele pretendia ou por que decidira tratá-la bem de repente, ouviu a explicação de Ricardo:
— Jasmine, a pessoa que eu procurava sempre foi você. Eu pensei que a doença tivesse mudado completamente a sua aparência, por isso só me atrevi a procurar pela tatuagem. Isabella fez uma tatuagem de borboleta idêntica à sua... eu confundi as pessoas.
— Você talvez não se lembre de nada por causa da doença. Mas eu jamais esquecerei aquele verão na Alemanha; foi você quem me arrancou do abismo com as próprias mãos.
Houve um estrondo na mente de Jasmine. Ela ergueu os olhos vagamente e viu que não havia sombra de mentira no olhar de Ricardo. E ela, de fato, tinha uma tatuagem de borboleta na nuca. Então, Isabella realmente copiara a tatuagem dela?
Por Ricardo acreditar que a doença a transformara fisicamente, ele se baseou apenas na tatuagem e encontrou a pessoa errada. A tal amada que ele procurava há oito anos... era ela?
A notícia era impactante demais. O mais importante era que Jasmine não possuía a menor lembrança dele. Ela de fato sofrera amnésia por causa da enfermidade e realmente vivera na Alemanha desde criança, mas não conseguia acreditar que um dia pudesse ter gostado de alguém como Ricardo Holanda. Ela não conseguia imaginar a si mesma amando aquele homem.
Ele era frio e cruel demais. Mesmo quando acreditava que Isabella era sua amada, ele muitas vezes a tratava mal e nunca lhe deu um status oficial até o fim. Jasmine testemunhara tudo isso. Ela tinha sérias dúvidas sobre a "devoção" dele. Talvez ela tivesse sido jovem e ingênua no passado e realmente tivesse se envolvido com ele, mas isso provavelmente não passava de uma obsessão antiga de Ricardo. Eles provavelmente não combinavam em nada.
Jasmine não sabia como responder e muito menos ousava aceitar a fortuna dele. O poder de Ricardo não era medido apenas em dinheiro; com um império comercial em mãos, as ferramentas que ele podia manipular eram vastas demais. Mesmo que ela tivesse o dinheiro, ele poderia esmagá-la facilmente se quisesse. Agora, Ricardo talvez estivesse agindo por um impulso de culpa ao reconhecê-la, querendo compensá-la. Mas ela acreditava que, com o passar do tempo, seu destino não seria muito diferente do de Isabella.
Embora não ousasse aceitar, ela também não tinha coragem de recusar diretamente. Jasmine franziu a testa, olhando de soslaio para o Sr. Shen, que estava com o rosto marcado por hematomas. Ela falou subitamente:
— Se você realmente recuperou a consciência e sente que me deve algo, então não deixe que nossos problemas pessoais afetem outras pessoas. Toda a equipe do Sr. Shen trabalhou duro para conseguir essa parceria com o Grupo Holanda. Se você está mesmo arrependido, mantenha a cooperação normalmente e não desconte neles.
Sua voz era firme, mas seu interior tremia. Ela não tinha certeza se Ricardo concordaria; talvez aquelas palavras até o irritassem. Mas ela precisava dizer; não suportava prejudicar inocentes. Contudo, antes mesmo que ela terminasse de falar, Ricardo assentiu.
— Tudo bem, farei como você quiser. A parceria com a empresa do Sr. Shen continuará normalmente; não o prejudicarei.
Para provar que ela podia acreditar, ele virou-se para o Secretário Silas:
— Mande preparar o contrato agora. Assinaremos ainda hoje.
Silas, recuperando o fôlego após o choque, concordou imediatamente. O que acontecera hoje ultrapassava todo o seu entendimento; ele aproveitou a chance para sair dali o mais rápido possível, sem ousar se envolver mais entre os dois.
Ao ver que até o Secretário Silas fora providenciar os papéis, o coração angustiado de Jasmine finalmente relaxou um pouco. Pelo menos, enquanto ele ainda sentia culpa, ela conseguira atingir seu objetivo.
Ao lado, Ricardo Shen olhou para Jasmine com incredulidade. Ele não esperava que ela recusasse a fortuna de Ricardo Holanda apenas para ajudar a empresa dele. Mas, além da gratidão e surpresa, ele estava mais preocupado com Jasmine. Ele não resistiu e falou:
— Sr. Ricardo Holanda, mesmo que a Srta. Jasmine seja seu amor de juventude, o senhor não deveria forçá-la agora.
Jasmine sentiu um calafrio, temendo que aquelas palavras ofendessem Ricardo novamente.
— Sr. Ricardo! — Ela interrompeu apressadamente a fala de Shen, puxou Ricardo Holanda para dentro do quarto e olhou para Shen, que estava do lado de fora. — Vamos conversar sozinhos agora. Sr. Ricardo Shen, sinto muito por tudo o que aconteceu hoje; vou resolver meus assuntos privados primeiro. Por favor, vá ao hospital cuidar desses ferimentos.
Dito isso, ela fechou a porta apressadamente. Em um instante, restaram apenas ela e Ricardo no quarto. O simples fato de estar sozinha com ele naquele espaço lhe causava uma sensação de sufocamento difícil de ignorar. Mesmo que ele não fizesse nada, a aura de dominação dele era forte demais. Ela mal conseguia imaginar como fora namorá-lo no passado.
Quanto às memórias que tivera de uma praia, ela achava tudo cada vez mais inacreditável. E mesmo agora, tomado pela culpa, a mão de Ricardo em volta dela permanecia possessiva, sem nunca soltá-la. Parecia que ele jamais planejara deixá-la ir.