Pouco depois das sete da manhã, Jasmine chegou pontualmente ao aeroporto. Com o cabelo preto preso em um coque impecável, ela brilhava como uma pérola nívea e polida. Mesmo cercada pela equipe que aguardava os dois empresários, todos que passavam pelo saguão não conseguiam evitar de olhar para ela. Não importava quem fosse, em meio à multidão, os olhos sempre pousavam nela primeiro.
Do outro lado, no centro do grupo que desembarcava, Ricardo Shen e Otto também a avistaram. Otto lançou um olhar surpreso para Ricardo:
— Desde quando você arranjou uma namorada?
Ricardo Shen, alto e de aparência elegante e intelectual, desviou o olhar educadamente ao recobrar os sentidos. Ele balançou a cabeça de forma refinada, igualmente confuso. Logo, Jasmine aproximou-se e cumprimentou os dois em alemão. Só então eles perceberam que ela era a tradutora substituta.
Com sua fluência e postura impecável, ela rapidamente conquistou a simpatia de todos os presentes. Otto sugeriu espontaneamente um passeio por Pequim e ofereceu um bônus para que Jasmine os acompanhasse como tradutora. Esse já era o desejo dele, mas Ricardo Shen, que originalmente não pretendia ir, decidiu acompanhá-los também.
O grupo conversou animadamente durante todo o trajeto, e Jasmine sentiu, após muito tempo, o gosto de uma vida normal. Desde que sua identidade fora revelada, ela vivia sob o desprezo alheio. Especialmente em público, ela sempre acabava sendo o alvo de humilhações. Por isso, ser apenas uma profissional comum agora a fazia sentir uma felicidade quase incontrolável. Ela sentia que, de fato, deveria se afastar daquele círculo social; conhecer pessoas que não sabiam nada sobre seu passado era a chance de recomeçar sua vida.
O tempo passou rápido e, à tarde, Jasmine seguiu com a equipe para o local da reunião. Até aquele momento, ela não sabia em qual empresa seria o encontro. Quando o carro entrou em um complexo de edifícios luxuosos no centro da cidade, ela finalmente percebeu a direção que tomavam.
Os arranha-céus imponentes tocavam as nuvens, exibindo um design tecnológico e moderno na área mais cara de Pequim. Ela nunca estivera ali, mas leu claramente as letras no topo:
Grupo HS.
Em um instante, todos os pelos de seu corpo se eriçaram. Aquela era a sede do Grupo Holanda. O parceiro com quem iriam negociar era ninguém menos que a própria família Holanda. Jasmine não conseguia acreditar em tamanha má sorte; as memórias de todo o desprezo que sofrera na casa dos Holanda inundaram sua mente.
Para ela, a família Holanda era quase uma prisão. Os parentes a cercavam com sarcasmo, e Ricardo a menosprezava. Aquela pequena liberdade que ela conquistara estava sendo desfrutada ao lado de novos colegas que não a discriminavam. Se ela encontrasse algum membro da família Holanda agora e eles contassem seu passado aos seus novos colegas, o que ela faria?
Jasmine pensara que não se magoaria mais com essas coisas, mas a ideia de que seus únicos colegas gentis pudessem mudar de atitude e passar a olhá-la com tédio e desdém a aterrorizava. O pânico tomou conta dela novamente.
Inquieta no assento, ela foi despertada por uma voz preocupada ao seu lado:
— Srta. Jasmine, o que houve?
Um lenço de papel branco foi estendido em sua direção. A voz gentil e educada de Ricardo Shen interrompeu as preocupações de Jasmine.
— Não se preocupe, Otto não fala muito e eu também sei um pouco de alemão. Se estiver nervosa, tente respirar fundo.
Jasmine aceitou o lenço e olhou para o atencioso Sr. Shen, murmurando um agradecimento. Ele não parecia o tipo de pessoa que a discriminaria por sua identidade. Talvez ela estivesse sendo pessimista demais. Ela tentou acalmar o coração acelerado. Já que havia assinado o contrato e se comprometido com a equipe, não podia fugir agora. Teria que encarar a situação de frente.
Sua única esperança era que os outros membros da família Holanda, em consideração a Ethan, não revelassem muito sobre sua vida.
Enquanto isso, na mansão...
Ricardo passou um longo tempo brincando com o filho antes de se preparar para sair. Com a postura ereta como um carvalho, ele amarrava a gravata com movimentos lentos e precisos. O terno preto acentuava seu perfil magro e seus olhos estreitos e profundos, conferindo-lhe um ar extremamente dominante.
Mesmo tendo acabado de brincar com ele, Ethan ainda não se sentia totalmente familiarizado com o pai. Assim que Ricardo se afastou, o menino correu para o quarto e abraçou o vestido de sua mãe, buscando segurança. Ele cantarolava baixinho, parecendo feliz e pronto para pular só de sentir o perfume de Jasmine no tecido. O balbuciar infantil era cristalino.
Com o humor relaxado, Ricardo lançou um olhar raro para dentro do quarto ao passar pelo corredor. O pequeno corpo de Ethan estava envolto pelo longo vestido preto; o tecido parecia de alta qualidade e o corte era elegante.
Contudo, talvez nem a dona do vestido tivesse notado um detalhe. Em um canto discreto da barra, havia uma pequena flor preta bordada de forma rudimentar. Quem a bordou claramente não tinha técnica nenhuma; as linhas eram grosseiras, mas os pontos eram densos e feitos com extrema dedicação.
Era uma flor única no mundo. Uma flor que ele mesmo havia bordado.
O impacto daquela cena foi indescritível. Ricardo quase perdeu o equilíbrio, seus olhos fixos na flor escondida na barra do vestido. Algo que ele sonhara ver novamente acabara de surgir diante dele, jogado casualmente para outra pessoa. Qualquer um parecia ter as roupas dela, enquanto ele passava os dias buscando desesperadamente qualquer vestígio de sua existência.
A Tia Wang, que entrava no corredor, percebeu que o patrão ainda não havia saído. Ela ia perguntar se ele precisava de algo, mas ficou estupefata ao ver as veias saltarem na testa de Ricardo enquanto ele entrava a passos largos no quarto de Jasmine.
Jasmine aguardava dentro da sede do grupo com a equipe. A reunião ainda não começara, mas ela já havia conseguido se recompor. Percebeu que, apesar do tempo que estavam ali, não vira nenhum membro da família Holanda que conhecia.
Ela lembrou-se de que Ricardo sempre fora conhecido por sua imparcialidade implacável e, muitas vezes, era chamado de "sangue frio". Ele não contrataria parentes apenas por laços de sangue. Por isso, naquela imensa sede, era difícil encontrar familiares; as chances eram de que ela enfrentasse o próprio Ricardo Holanda.
Jasmine não sabia se isso era uma boa ou má notícia. Seria a primeira vez que o encontraria em um ambiente profissional e totalmente sóbrio. Ricardo era difícil, mas não parecia do tipo que faria fofocas ou falaria mal dela para os outros. No máximo, ele a ignoraria ou seria rude. Além disso, como ele já permitira que ela saísse, talvez não ficasse tão insatisfeito ao vê-la trabalhando.
Ela relaxou um pouco. Pensando bem, nos últimos dias ela o ofendera várias vezes, mas ele não descontara em Ethan nem tomara medidas drásticas contra ela. Suas preocupações anteriores pareciam exageradas. A imagem que Jasmine tinha dele estava mudando ligeiramente. Ele fora parcial com Isabella, sim, mas agora que Isabella se fora, ele parecia um pouco mais tolerável.
Assim que esse pensamento cruzou sua mente, seu telefone tocou. A reunião ainda não havia começado; ao ver que era o Secretário Silas, Jasmine temeu que algo tivesse acontecido com Ethan e correu para o corredor para atender.
— Silas? Aconteceu algo com o Ethan? — perguntou, tensa.
Do outro lado, Silas hesitou por dois segundos antes de falar em um tom puramente profissional:
— Srta. Jasmine, sinto muito, mas a senhora deve se mudar da mansão dos Holanda esta noite. Poderá visitar a criança por três horas em um horário fixo diariamente, mas não poderá mais residir aqui.
O tom era educado, mas a mensagem era cruel. Ao ouvir as palavras, o sangue de Jasmine gelou. Ricardo estava expulsando-a diretamente. De agora em diante, ela teria apenas três horas por dia com o filho e nunca mais poderia dormir ao lado dele.
A respiração de Jasmine ficou pesada. Ela nunca imaginou que o dia em que seria descartada chegaria tão rápido. Em um instante, o último resquício de boa impressão que ela tivera de Ricardo desapareceu completamente.