Ethan estava se esforçando ao máximo para reprimir suas emoções. Ao ser confrontado tão subitamente, ele não esperava que o homem tivesse percebido seus sentimentos; seu rostinho delicado ficou paralisado por um instante. Logo em seguida, ele balançou a cabeça.
— Não... não é nada disso.
Ricardo afagou a cabeça do filho. Ele observava aquele rosto que tanto lembrava o de sua amada, notando que até a expressão de "estátua" era idêntica à dela. Sentindo-se tocado, ele não ficou zangado.
— Eu nunca cuidei de você, então é natural que você não goste de mim. Não precisa fingir na minha frente. — Ele se aproximou da criança: — Qualquer insatisfação que tiver, pode falar. Resolveremos conversando.
Ethan arregalou os olhos, surpreso. Jasmine, que ouvia tudo, também ficou em choque. O método de Ricardo educar o filho parecia ser muito diferente do que ela imaginava. Ela sempre pensou que ele seria rigoroso e severo, mas agora parecia o oposto.
Claro, ela não conseguia ver a expressão de Ricardo. Talvez ele estivesse furioso e estivesse apenas jogando uma isca para enganar a criança e fazê-la confessar seu descontentamento. Afinal, Ethan tinha apenas um ano e meio; diante de uma "velha raposa" como Ricardo, ele não tinha a menor chance.
Jasmine apertou as palmas das mãos, enquanto Ethan apertava a colher com força. Seus lábios bonitos se abriram e, após um tempo, ele perguntou baixinho:
— É verdade?
Ricardo assentiu, fazendo uma promessa:
— Eu não mentirei para você. Tem algo que queira me dizer?
Ethan inclinou a cabeça. Em sua pureza, ele queria dizer algo, mas não sabia se devia.
— Eu...
Seus lábios murmuraram, forçando Ricardo a encostar o ouvido perto dele.
— O quê? — perguntou ele.
Ethan balançou a cabeça e, no fim, não teve coragem de falar. Na verdade, ele sentia muita pena da mãe. Todos os dias, ele tinha tempo para sair e brincar com vários amiguinhos, mas sua mãe era obrigada a ficar em casa. Ele não ousou contar isso ao pai. Ainda não conseguia confiar nele totalmente.
Jasmine observava os dois sussurrando, ansiosa, temendo que o encontro terminasse mal. Seria fácil demais para Ricardo intimidar Ethan. Antes que ela pudesse ouvir mais nada, viu Ricardo chamar a Tia Wang para dar algumas instruções. Logo depois, a Tia Wang aproximou-se radiante.
— Srta. Jasmine, o Sr. Ricardo deu ordens. A senhora pode entrar e sair da mansão livremente, não precisa mais ficar confinada ao quarto.
Jasmine nem teve tempo de comemorar a notícia; seu olhar preocupado voltou-se para Ethan. O menino estava de cabeça baixa, comendo feliz. Ela suspirou aliviada.
— Tudo bem.
Ela não conseguia decifrar as segundas intenções de Ricardo, mas, pelo menos, Ethan parecia contente agora. Isso permitia que ela relaxasse um pouco. Ethan era muito bem-comportado e era filho biológico dele; talvez Ricardo fosse mais flexível com o garoto. Sendo assim, ela se sentia mais tranquila para sair de casa ocasionalmente. Se ela não estivesse na mansão, Ricardo provavelmente ficaria mais satisfeito.
No entanto, Ricardo havia dito apenas no dia anterior que não a queria no escritório; ela não seria ousada o suficiente para perambular pela casa só por causa de uma permissão geral. Assim, naquela noite, antes de Ricardo voltar, ela acomodou o filho e saiu.
As luzes de Pequim brilhavam intensamente e os arranha-céus erguiam-se imponentes; fazia muito tempo que ela não via uma paisagem noturna assim. Usando uma máscara, Jasmine caminhava pelas ruas com sua amiga, Carol, para espairecer. Carol segurava seu braço com firmeza, balançando a cabeça.
— Quando você teve o bebê, estava mais cheinha, agora emagreceu tudo de novo.
Jasmine olhou para baixo; não tinha percebido que emagrecera, pois quase não prestava atenção em si mesma ultimamente.
— Eu nem notei.
Originalmente, ela achava que já havia se adaptado à vida doméstica, mas bastou sair um pouco hoje para perceber que ainda sentia falta de trabalhar. Carol, percebendo o que ela pensava, sugeriu subitamente:
— Tenho um trabalho temporário de tradução aqui. O tradutor original quebrou a perna e não pode ir. Um empresário rico de ascendência chinesa virá negociar uma parceria e trará um amigo alemão que precisa de tradução. Eles não revelaram qual é a empresa parceira. Seria por uma semana, apenas pouco mais de uma hora por manhã. Você aceita? Seu alemão não é ótimo? Servirá para você espairecer e o pagamento é generoso.
Para ser justa, aquele trabalho era perfeito para ela no momento. Poucas horas, permitindo voltar para cuidar do filho, uma transição ideal entre a vida pessoal e profissional. O único ponto que a deixava insegura era o idioma. Ela quase não se lembrava dos dias em que cresceu na Alemanha. A única coisa que restara fora a língua, mas ela não a praticava há anos.
Porém, ela não era do tipo que desistia de uma boa oportunidade por medo. Assim, ela aceitou e, ao voltar para casa, estudou intensamente para se atualizar.
Naquela noite, Ricardo voltou cedo para ficar com Ethan. Como ele permitira que Jasmine circulasse livremente, a guarda de Ethan diminuiu consideravelmente, e ele aceitou brincar com o pai. Os dois espalharam brinquedos pelo primeiro andar. O Secretário Silas esperava ao lado com uma pilha de documentos, sem ousar interromper. Ele notou que, toda vez que Ricardo brincava com o filho, seu humor melhorava muito. E ele parecia adorar observar o rosto da criança.
Silas não conseguia entender. O menino era idêntico à mãe; Ricardo não gostava de Jasmine, mas adorava a aparência do filho. Ao ver que os dois haviam terminado a brincadeira, ele se aproximou para falar sobre a agenda de amanhã.
— Teremos a reunião às sete e meia da manhã? O Sr. Shen demonstrou muita sinceridade; trouxe o parceiro diretamente da Alemanha e virá da aeroporto direto para a sede do grupo.
Esse era o ponto de dúvida de Silas. Às nove horas era o horário fixo em que Ricardo ficava com o filho; se a reunião se estendesse, poderia atrasar a refeição com a criança. Mas era apenas uma refeição. Ricardo sempre fora um viciado em trabalho; antes, ele só atrasava compromissos por causa de Isabella. Silas não sabia qual seria a escolha dele desta vez.
No entanto, antes que ele pudesse continuar, Ricardo cancelou sumariamente:
— Mude para a tarde.
— ... Tudo bem.
No quarto, Jasmine praticava alemão e sentia-se confiante. A memória linguística era mais sólida do que imaginava; mesmo tendo esquecido os eventos da adolescência, o idioma ainda estava profundamente gravado. Com um treino simples, ela recuperou o domínio e suspirou aliviada.
Para a ocasião, ela escolheu um vestido preto do armário que não usava há muito tempo. O modelo era elegante e discreto, perfeito para o trabalho. Contudo, no dia seguinte, ao se preparar para sair, foi notificada de que a reunião havia sido transferida para a tarde.
Mesmo com a mudança de horário, ela sairia normalmente para traduzir para o empresário alemão. Entretanto, a previsão do tempo indicava chuva à tarde e uma queda brusca de temperatura. Jasmine olhou para o vestido fino, pensou melhor e resolveu trocá-lo por um traje profissional um pouco mais encorpado.
Antes de ela partir, o pequeno Ethan abraçava seu vestido antigo, sentindo o perfume do tecido. Jasmine, achando graça, agachou-se para falar com ele:
— O que foi?
Ethan balançou a cabeça, mas não soltava o vestido.
— Pode ir, mamãe — disse ele, abrindo um sorriso.
Jasmine, contudo, entendeu o que ele sentia; desde que nascera, Ethan raramente ficara longe dela por muito tempo. Era a primeira vez que via a mãe sair para trabalhar. Mesmo querendo que ela fosse, ele sentia-se um pouco inseguro. Jasmine afagou a cabeça dele.
Embora, por questões de confidencialidade, ela ainda não soubesse com qual empresa eles colaborariam, a localização da mansão era excelente; nada deveria ser muito longe.
— Não se preocupe. Eu prometo voltar para jantarmos juntos antes das seis.