Assim que a Tia Wang terminou de falar, a maçaneta da porta começou a girar subitamente. Ricardo, para o choque de Jasmine, simplesmente abriu a porta e entrou.
"Que droga", pensou Jasmine. Ela havia esquecido que não era apenas Isabella quem a detestava; Ricardo também sentia o mesmo. Aquele homem agia sempre conforme a própria vontade. Se quisesse ver o filho, ele jamais consultaria alguém com antecedência e certamente não seguiria o cronograma à risca.
Ela precisava evitá-lo a todo custo para não causar conflitos. Se houvesse um confronto direto com Ricardo, os únicos a sofrerem seriam ela e o filho. Infelizmente, no pânico do momento, não houve tempo para se esconder; Jasmine só conseguiu se enfiar às pressas debaixo do cobertor.
O som dos passos do homem ecoou pelo quarto. Não eram os passos pesados de quando estava bêbado, nem o ritmo vigoroso e decidido de sua rotina de trabalho. Ricardo caminhava de forma silenciosa, quase imperceptível, insuficiente até para acordar o pequeno Ethan, que dormia na mesma cama que Jasmine.
Era a primeira vez que ele vinha verificar as condições de moradia da criança. Seu olhar avaliador percorreu o ambiente. O quarto era amplo e equipado com tudo o que era necessário, agora repleto de itens infantis e brinquedos. O lugar estava impecavelmente limpo e organizado, exalando um suave aroma de leite.
No entanto... suas sobrancelhas grossas se franziram ao olhar para a cama. O pequeno Ethan dormia de barriga para cima, com um sono inquieto, virando-se de um lado para o outro. Ao lado dele, o edredom formava um grande volume, indicando claramente que alguém estava escondido ali.
Nesse momento, Ethan acordou. Ele abriu os olhos e, por instinto, olhou com desconfiança para o homem alto que surgira no quarto. Ricardo ignorou a presença da mãe sob as cobertas e caminhou diretamente até o menino.
— Lembra de mim? — Ele se inclinou, aproximando-se de Ethan para observá-lo.
O rosto de Ricardo tinha um impacto visual avassalador. Ele possuía traços naturalmente frios; mesmo quando os cantos de sua boca esboçavam um sorriso, os ângulos afiados de seu rosto passavam uma sensação de perigo. Além disso, seu humor naquele momento estava péssimo. Ao ouvir o ronco da barriga faminta da criança tão de perto, ele não pôde evitar franzir ainda mais a testa.
Crianças são extremamente sensíveis e costumam temer pessoas com feições severas. Ethan já não estava tão desesperado para encontrar a mãe quanto nos dias anteriores, mas, ao vê-lo ali, não ousou dizer muita coisa, apenas murmurou um "hum" de confirmação. Em seguida, ele se virou e tentou se enfiar para dentro do cobertor também.
Ricardo virou a cabeça, seu olhar afiado parecia capaz de perfurar o edredom.
— É assim que você cria o seu filho?
Jasmine quis explicar que aquilo não era o normal, que hoje fora uma situação excepcional. Mas, antes que pudesse abrir a boca, o inesperado aconteceu. Uma criança não tem controle sobre a própria força; Ethan começou a puxar e levantar o cobertor repetidamente.
Pega totalmente de surpresa, uma grande parte da barra do vestido de Jasmine foi levantada junto. Suas pernas, de uma brancura nívea e pele macia, ficaram subitamente expostas, criando um contraste deslumbrante contra o tecido verde-esmeralda do vestido.
Aterrorizada, Jasmine recolheu as pernas imediatamente. Aquela imagem belíssima durou apenas um flash, mas permaneceu gravada profundamente na mente de quem a viu, impossível de esquecer. O homem ao lado da cama ficou estático no lugar. Jasmine, com o coração martelando, encolheu-se novamente sob as cobertas.
"Acabou", pensou ela, cobrindo o rosto com as mãos em sinal de frustração. Parecia que ela o ofendera novamente. Uma voz abafada e trêmula veio debaixo do cobertor:
— Des... desculpe.
Ninguém respondeu. O quarto mergulhou num silêncio aterrador. Desde o momento em que Ricardo vira parte do corpo dela, não houve mais nenhum som. A atmosfera opressiva era tanta que ela sentia dificuldade até para respirar.
Após um longo tempo, Ricardo voltou a se empertigar. Veias saltaram em sua testa pálida. Seu pomo de Adão se moveu e sua respiração tornou-se pesada. Aquela imagem forte despertara todas as suas memórias, e uma saudade avassaladora quase explodiu em sua mente.
"Não posso me deixar enganar. É falso. Tudo falso", repetia para si mesmo. Perdendo o controle de suas emoções, ele virou-se para sair abruptamente.
— Já que você não quer levantar, de agora em diante eu o levarei para tomar café da manhã.
Jasmine saiu lentamente debaixo das cobertas, observando as costas largas de Ricardo. Ela não tinha como recusar. Ricardo caminhava em direção à saída sem olhar para trás uma única vez. Antes de sair, ele parou e sua voz fria soou implacável:
— Não use verde no futuro.
Do lado de fora, pouco depois de sair, Ricardo recebeu uma ligação do Secretário Silas. Silas sempre fora um homem centrado e eficiente, mas, pela primeira vez, sua voz estava trêmula. Ele chegou a gaguejar de forma incontrolável:
— Sr. Ricardo... É... é exatamente como Isabella disse. Quando ela estava no exterior, houve uma colega de classe que adoeceu e faleceu. Restou apenas uma foto de documento borrada, não dá para ver nada com clareza.
Em apenas algumas frases, o suor brotou na testa de Silas. Após interrogar Isabella exaustivamente na noite anterior, ela finalmente entrou em colapso e confessou de forma incoerente. Disse que a tatuagem pertencia a essa amiga falecida e que a pulseira também fora presente dela. Disse que a pessoa que eles buscavam havia virado cinzas há cinco anos.
Silas enviou pessoas durante a noite para investigar qualquer pista sobre essa amiga e confirmou que tal pessoa realmente existiu. Na verdade, eles tinham apenas uma foto borrada, o que não provava categoricamente que ela era a pessoa que Ricardo buscava. No entanto, todas as outras pessoas com quem Isabella tivera contato já haviam sido investigadas. Aquela colega falecida era a única possibilidade restante. Se pudesse, Silas preferiria nunca dar essa notícia fúnebre ao patrão.
Ouvindo o silêncio do outro lado da linha, Silas ficou extremamente tenso.
— Sr. Ricardo, pode não ser ela — tentou argumentar, buscando convencer a si mesmo e ao patrão.
Após um longo tempo, uma confirmação veio do outro lado:
— Eu sei que não era ela.
A voz de Ricardo estava calma, sem demonstrar qualquer emoção. Ao desligar o telefone, ele pousou o copo de água. Num momento de transe, o copo de vidro estraçalhou-se em sua mão. O sangue escorreu por seus dedos pálidos e longos, mas Ricardo parecia não sentir nada.
Naquela noite, as luzes do escritório no terceiro andar permaneceram acesas. Jasmine saiu do quarto para pegar algumas coisas e olhou para cima. Ao lado, a Tia Wang aproximou-se com um copo de água e perguntou cautelosamente:
— Srta. Jasmine, era a Isabella quem costumava levar chá para o Sr. Ricardo. Que tal a senhora ir levar agora?
Levar água tarde da noite era um método clássico para cultivar sentimentos; a Tia Wang não tinha certeza se Jasmine estaria disposta. Afinal, a regra que proibia Jasmine de subir ao terceiro andar fora imposta por Isabella. Agora que ela fora expulsa, não havia mais necessidade de obedecer. Embora toda a casa soubesse que o Sr. Ricardo a detestava, também sabiam que ela era agora a única mulher na vida dele. Atualmente, ela era a única "dona" da residência.
Jasmine franziu a testa. Ela não queria ter mais nenhum contato com Ricardo. Só por ele ter visto um vislumbre dela pela manhã, ela já fora proibida de usar sua cor favorita. Se fosse levar chá agora, sabe-se lá que tipo de humilhação sofreria.
— De agora em diante, leve você mesma — ela balançou a cabeça. De repente, ela parou e olhou para o pequeno Ethan ao seu lado. Ajoelhou-se e perguntou a ele: — Você gostaria de levar algo para o seu papai?
Ricardo era, afinal, o pai biológico de Ethan, mas eles ainda eram muito estranhos um ao outro. Seria bom tentar cultivar algum laço, começando por algo simples como levar um copo de água.
Ethan ergueu seu rostinho delicado para a mãe e assentiu. Jasmine ficou surpresa.
— Você quer? — Pela manhã, ele não parecia muito inclinado a gostar de Ricardo.
Ethan assentiu novamente, sua voz soando firme:
— Ele... ele foi mal com a mamãe. Eu vou ser mal com ele.
Jasmine soltou uma risadinha, mas logo recuperou a seriedade.
— Esqueça, melhor você não levar.
Ela não podia deixar que a criança ofendesse Ricardo só para satisfazer um desejo de vingança dela. No entanto, Ethan ficou teimoso; ele insistia em segurar o copo e subir as escadas. Ele sempre tivera uma personalidade obstinada; quando decidia algo, precisava levar até o fim. Ele se recusava a soltar o copo e estava prestes a abrir o berreiro, o que atrairia a atenção de Ricardo.
Jasmine sabia bem que um homem como Ricardo detestava crianças chorando e fazendo barulho, especialmente enquanto trabalhava. Sem saída, ela aceitou, mas recomendou mil vezes que ele não fosse malvado com o pai. Ethan era esperto; vendo a expressão séria da mãe, ele guardou o temperamento e assentiu obedientemente com uma vozinha doce:
— Não vou ser mal.
Mas Jasmine não estava totalmente tranquila; ela resolveu acompanhá-lo até o terceiro andar.