Isabella jamais aceitaria tornar-se uma figura irrelevante. Assim, ela se virou e barrou o caminho da Assistente Sun, fixando o olhar na criança que dormia. Enxugando as lágrimas, esforçou-se para exibir um sorriso.
— Tudo bem, ele é seu filho biológico, eu estou disposta a aceitá-lo. Eu não gostava muito dele antes apenas porque ele não se parece nada com você.
Ela estendeu a mão para tocar a bochecha alva do menino.
— Olhando agora, de perfil, até que ele se parece bastante.
Ao ser tocado por ela, Ethan despertou bruscamente do sono profundo. Ao abrir os olhos e dar de cara com aquela mulher cruel, a criança arregalou os olhos e começou a se debater para descer do colo da Assistente Sun.
O rosto de Ethan estava banhado em lágrimas. Contudo, ele era obstinado e não queria que a mulher má o visse chorar; por isso, baixou a cabeça e esfregou os olhos com força. Apesar da pouca idade, tinha uma personalidade teimosa e encarou a mulher com os dentes cerrados, recusando-se a ceder.
— Tia... má! — Ethan disse, chegando a estender a mãozinha como se quisesse batê-la.
Ao ver a reação do pirralho, Isabella perdeu a paciência de vez. "Ah, que irritante!", pensou ela. "Esse moleque é igualzinho à mãe. O rosto é irritante, a personalidade é irritante... por que eu deveria criar esse estorvo?" Mas ela não ousava dizer isso na frente de Ricardo. Isabella nunca passara por tamanha humilhação; sentindo-se sufocada de raiva, ela subiu as escadas batendo o pé.
A Assistente Sun suspirou diante da cena. Imaginando que Ricardo certamente iria atrás de Isabella para acalmá-la, ela se preparou para ninar o menino sozinha. No entanto, para sua surpresa, o olhar de Ricardo não seguiu Isabella por um segundo sequer. Assim que ela saiu, ele tomou a criança nos braços.
Antes que Ethan pudesse perguntar pela mãe, Ricardo explicou:
— Sua mãe chegará em dez minutos. Ela estava dormindo antes, por isso não a incomodamos.
Ao ouvir a explicação, Ethan finalmente conseguiu conter o choro convulsivo. Mas seu olhar ainda transbordava ressentimento enquanto observava as costas de Isabella desaparecendo no andar de cima. Ricardo ficou surpreso ao ver um ódio tão profundo nos olhos de uma criança tão pequena.
Ele inclinou a cabeça e perguntou:
— Você a conhece?
Vitor levara o menino hoje cedo; seria possível que Isabella estivesse presente e Ethan a tivesse visto? O menino comprimiu os lábios por um longo tempo, encarando Ricardo como se avaliasse se podia confiar nele. Ricardo demonstrou muita paciência diante daquele rostinho e não o apressou.
Finalmente, com voz trêmula e hesitante, o menino falou:
— A tia maltratou a mamãe... me beliscou.
A voz infantil de uma criança de pouco mais de um ano dizendo algo assim era de arrepiar. Ao lado, a Assistente Sun ficou em choque, olhando para o andar de cima sem acreditar. Ela não resistiu e perguntou ao pequeno:
— Você está dizendo que aquela tia beliscou você com as próprias mãos?
Ethan não disse mais nada. Apenas baixou a cabeça e começou a esfregar o próprio braço com um olhar de pavor. Suas roupas cobriam o local, mas era exatamente onde estava aquele hematoma terrível. Para deixar uma marca negra em um braço tão fino, era necessário aplicar uma força absurda. Que tipo de rancor levaria alguém a ser tão cruel com uma criança? O que um menino poderia ter feito para ofendê-la? No fim, era apenas a maldade de um adulto.
A Assistente Sun, que vira o menino crescer, sentiu o coração apertado e acariciou o braço dele, lançando um olhar alarmado para Ricardo.
— Eu acompanho o Ethan desde que nasceu. Ele é uma criança pura, nunca mentiria.
Ao ouvir isso, o olhar de Ricardo tornou-se ainda mais gélido, tomado por uma decepção profunda. Ele olhou para o andar de cima, com as pálpebras cerradas e um olhar carregado de julgamento. "Isabella, você é realmente quem diz ser?"
Após colocar o filho para dormir, ele ordenou que Silas trouxesse Jasmine imediatamente. Ao mesmo tempo, deu instruções específicas: investigar todas as conexões de Isabella no país, especialmente se ela fizera alguma tatuagem após retornar do exterior.
Antigamente, ele não queria investigá-la a fundo; chegara a ignorar deliberadamente muitas inconsistências. Isabella tinha a tatuagem correta e usava a pulseira de pérolas que ele lhe dera. Parecia infalível; tinha que ser ela. Por isso, durante mais de um ano, ele se recusara a duvidar.
Mas agora, ele não conseguia mais tolerar. Se Isabella não fosse a mulher que ele amava, ele não aceitaria continuar tratando aquela pessoa como sua parceira. E se fosse realmente ela, a mulher que ele conhecera jamais se permitiria tornar-se o que era hoje; ele teria que reeducá-la.
Silas assentiu, com o coração aos pulos. Ele sabia que esse dia chegaria. Contudo, tinha uma dúvida:
— Sr. Ricardo, todas as pessoas envolvidas hoje, dentro e fora da mansão, foram organizadas pela Srta. Isabella. Como devemos proceder com elas?
Era raro Silas não saber como agir. Normalmente, se alguém interferisse nos assuntos da família Holanda, Ricardo os esmagaria com o maior rigor. Mas hoje envolvia Isabella. Aquelas pessoas foram convidadas por ela. Punir o grupo significaria desonrar Isabella publicamente, sinalizando que ela agira sem razão e fora rejeitada pela família.
Silas aguardou em silêncio. Após um longo tempo, viu o patrão desamarrar a gravata com cansaço e se servir de uma bebida. Ricardo detestava álcool, mas estava bebendo novamente. Silas suspirou, sabendo que ele não estava tão calmo quanto aparentava. Ricardo realmente se importava com ela. Silas sentia pena e, ao mesmo tempo, não sabia como aconselhá-lo. Foram tantas decepções até encontrá-la, apenas para chegar a este ponto. Só o álcool parecia anestesiar tamanha dor.
Ricardo permaneceu em silêncio por muito tempo antes de finalmente dizer:
— Primeiro, verifique os estúdios de tatuagem. Quanto ao que aconteceu hoje... resolveremos depois.
Silas entendeu na hora. Ricardo esperaria os resultados antes de agir. Por mais que duvidasse da identidade de Isabella, era apenas uma suspeita. Enquanto não tivesse certeza, ele jamais faria algo que prejudicasse a reputação dela — mesmo que ela tivesse acabado de ferir seu próprio filho. Se no fim descobrisse que era realmente ela, o incidente de hoje provavelmente seria relevado.
Ao sair, Silas balançou a cabeça mentalmente. Ele se perguntava que tipo de pessoa essa "mulher ideal" fora no passado para ter enfeitiçado o patrão dessa maneira.
Jasmine não se importava com a confusão externa. Naquela noite, ela correu para a vila dos Holanda e, assim que Ethan a viu, ele desabou em lágrimas. Diante dos outros, o pequeno não ousara chorar alto, mas no momento em que viu a mãe, abriu o berreiro. No fim das contas, ele era apenas um bebê de um ano.
Ao vê-lo erguer a mão enfaixada, Jasmine sentiu o coração dilacerado. Ele era o seu tesouro, e já tivera que passar por algo tão traumático. O trauma psicológico seria imenso. Jasmine conteve as lágrimas e acariciou a cabeça dele para encorajá-lo:
— O Ethan se feriu para proteger a mamãe. O Ethan é muito corajoso.
Com o elogio, o choro foi cessando. Ele coçou a cabeça, encabulado, tentando dizer algo, mas seu vocabulário ainda era limitado. Por fim, apenas estendeu os braços:
— Mamãe, colo.
Jasmine apertou o corpinho macio contra o peito, sentindo cada vez mais ternura. Ela cuidara desse menino inteligente desde o nascimento e agora poderia acompanhá-lo para sempre. Ela ficou no quarto até ele adormecer.
A Assistente Sun a esperava do lado de fora para lhe mostrar a casa. Comparada à mansão ancestral, clássica e serena, a primeira impressão de Jasmine sobre aquele lugar foi de frieza. A vila era gélida, com poucos empregados e móveis. Se não soubesse que havia moradores, pensaria que estava desabitada.
Enquanto a mansão ancestral era cercada por flores e árvores, esta casa tinha apenas um gramado impecável. A decoração interna era dominada por tons escuros. Não havia quadros decorativos ou antiguidades. A mansão antiga transbordava vida e a elegância de "dinheiro antigo" bem preservado; esta casa parecia um apartamento decorado de catálogo. Era como se Ricardo apenas voltasse para lá para dormir. Na sala, tudo era novo, sem marcas de uso, e a geladeira estava quase vazia.
O que mais a surpreendeu, porém, foi descobrir que Ricardo e Isabella não dormiam no mesmo quarto. Isabella morava ali há mais de um ano, e eles ainda viviam em quartos separados.