Ricardo baixou a cabeça, observando os fragmentos de vidro ensanguentados que haviam sido retirados do corpo de Ethan. Ele reconheceu imediatamente: eram da porta de vidro do banheiro.
Invadiram o quarto com violência e arrastaram mãe e filho para fora. Ethan era seu filho legítimo. Por causa de sua indiferença e negligência, aquelas pessoas sentiram que podiam tratá-lo daquela forma. Ele, mesmo sabendo que a criança poderia estar sofrendo, preferiu manter-se apático.
Ele pressionou as têmporas doloridas enquanto ondas de sofrimento e autorrecriminação inundavam seu peito.
— Investigue tudo.
O Secretário Silas entendeu imediatamente: o patrão iria tratar o assunto com o máximo rigor. Ele também sentiu um alívio genuíno pela mãe e pelo filho. Embora não devesse misturar sentimentos pessoais com o trabalho, ele achava que Isabella não estava à altura de Ricardo. Durante este último ano, aquela mulher cometera estupidezes suficientes para esgotar a paciência de qualquer um, inclusive a dele.
Seria maravilhoso se o Sr. Ricardo mudasse de ideia; afinal, seu próprio filho e sua companheira ideal estavam bem ali. Ao pensar nisso, ele se virou e notou o olhar de Ricardo para Ethan. Foi a primeira vez que viu tanta ternura nos olhos do patrão. Era uma doçura da qual talvez nem o próprio Ricardo tivesse consciência — algo que ele nunca demonstrara, nem mesmo para Isabella.
Por um momento, Silas sentiu um sobressalto e não resistiu a fazer uma pergunta rara:
— Sr. Ricardo, o senhor gosta muito desta criança?
— Sim.
Ricardo não negou. Ele caminhou até o menino e agachou-se. Ele era muito alto e, mesmo agachado, sua aura de autoridade era inata, então ele baixou o corpo ainda mais. Ninguém jamais fizera Ricardo se rebaixar dessa maneira, mas, diante daquele rosto, ele o fazia com prazer.
— Sua mãe chegará em breve. Deixe os médicos cuidarem de você. Durma um pouco e, quando acordar, a verá.
Ao lado, Silas observava com estranheza. Ricardo raramente tentava consolar alguém; mesmo com Isabella, o que ele demonstrava era mais tolerância do que afeto. Mas agora, suas palavras eram de um carinho genuíno e suave. Silas não esperava que o patrão levasse tanto jeito para acalmar uma criança. Realmente, o sangue falava mais alto.
Ethan fungou e, ao ouvir aquilo, abriu bem os olhos, encarando Ricardo com surpresa. Foi o primeiro contato visual entre pai e filho. Vistos de perfil, eram muito parecidos: o nariz reto e marcante, os contornos do rosto bem definidos. No entanto, após um longo silêncio, Ethan subitamente cobriu o rosto e falou:
— Homem mau. Eu quero a minha mamãe!
Ethan crescera na mansão e, desde pequeno, percebera que todos nutriam um desgosto sutil pela sua mãe. Por isso, embora todos o tratassem bem, ele sempre manteve uma guarda alta contra todos. E hoje, após passar por tudo aquilo, ele não confiava em mais ninguém além de sua mãe.
Assim, por mais que estivesse aterrorizado e com vontade de chorar, ele se controlava. Seu pequeno corpo tremia e, antes de terminar de falar, ele se levantou tentando fugir. A equipe médica entrou em pânico e todos se apressaram para trazê-lo de volta, mas desta vez ninguém ousava tocá-lo com força.
Na confusão da resistência do menino, suas roupas ficaram desalinhadas. Foi então que todos viram uma mancha roxa em seu braço, que se destacava de forma terrível contra a pele alva. O médico aproximou-se para examinar e sentiu um calafrio.
— Isso foi um beliscão. Alguém apertou esta criança com muita força; um puxão normal não causaria um hematoma desse tipo. Foi intencional.
Ricardo franziu o cenho instantaneamente e avançou. Ao ver a marca roxa, a fúria sombria em seus olhos fez com que todos ao redor se calassem imediatamente. Até Silas mal ousava respirar, mas pensou um pouco e disse:
— Deve ter sido o Vitor. Ele ainda está no hospital, eu irei lá daqui a pouco.
Ricardo permaneceu em silêncio. Ele não descarregou sua raiva nos outros; em vez disso, a reprimiu profundamente em seu íntimo. A dor intensa o deixava ainda mais frustrado consigo mesmo. Ele se arrependia amargamente por não ter visitado o filho antes; se o tivesse feito, nada disso teria acontecido hoje. Ele nunca questionara Isabella sobre como ela pretendia lidar com a criança.
Ricardo inclinou-se diante de Ethan, e sua voz fria e austera tornou-se suave ao tentar acalmá-lo:
— Eu vou te levar para vê-la agora.
Sua voz era gentil, mas firme, transmitindo uma confiança impossível de ignorar. Ethan, que ainda soluçava, parou por um momento.
— Sé... sério? — Ele fungou, olhando para Ricardo com seus grandes olhos. Agora que se esforçava para não chorar, seu rostinho sério e tenso lembrava Jasmine ainda mais.
Ricardo não resistiu e afagou a cabeça do menino. O calor dos fios macios sob sua palma trouxe-lhe, em um lampejo, a lembrança de sua amada. Ele baixou o olhar para esconder a dor lancinante que se espalhava em seus olhos.
— Sim, vamos.
O menino finalmente assentiu. Sendo carregado nos braços de Ricardo, ele perguntou entre soluços:
— Quem? Quem é você?
Ricardo olhou para a pequena criança em seus braços e, por um instante, não conseguiu pronunciar aquele título. Ele fora negligente demais. Ele já perdera sua amada uma vez e conhecia a dor de ter o coração rasgado. Agora, ele permitira que o próprio filho, que tinha feições tão parecidas com as dela, perdesse também alguém importante.
Após um longo tempo, ele disse com a voz rouca:
— Você sabe quem é o seu pai?
Ethan hesitou, inclinando a cabeça e perguntando o óbvio:
— O que é um pai?
Desta vez, Ricardo ficou em silêncio por muito tempo. Somente quando a criança finalmente relaxou os nervos tensos e adormeceu em seus braços, ele recuperou a frieza habitual do líder do clã Holanda e perguntou a Silas:
— A Isabella viu como este menino está agora?
— Sim — respondeu Silas com sinceridade.
Ricardo mergulhou em pensamentos. Sendo um rosto tão semelhante ao que Isabella costumava ter, como ela não teve nenhuma reação ao ver a criança? Seria possível alguém ter uma amnésia tão severa a ponto de não reconhecer a própria aparência do passado? Mesmo que tivesse esquecido e que realmente não gostasse de crianças, a Isabella que ele conhecia era tão bondosa que apenas espantava gentilmente um inseto que pousasse nela. Como ela pôde permitir que Vitor tratasse uma criança viva daquela maneira?
As suspeitas que ele tentara reprimir voltaram com força. Embora soubesse que não deveria duvidar dela nem tratá-la assim, ele não conseguia se conter. Neste último ano, em nenhum momento ele encontrara nela qualquer vestígio da pessoa de antigamente. Ricardo não é que não quisesse amar a Isabella atual; ele se forçava a isso a cada minuto. Mas ele simplesmente não conseguia.
Uma dúvida densa pairava em sua mente. Foi então que ouviu Silas comentar em voz baixa:
— Talvez, como o menino se parece um pouco com a mãe dele, a Srta. Isabella tenha acabado ficando um pouco irritada.
Em um instante, todos os pensamentos de Ricardo foram interrompidos. Ele ergueu a cabeça bruscamente. Seus olhos profundos pareciam conter uma tempestade iminente. Ele fixou o olhar em Silas e perguntou, incrédulo:
— Você disse... que o Ethan se parece com a mãe dele?
Silas assustou-se com a reação do patrão. Normalmente, Ricardo era frio ao ponto da indiferença, e qualquer oscilação emocional quase sempre estava ligada àquela pessoa. Mesmo ao ver Ethan hoje, Ricardo mantivera suas emoções sob controle. Mas agora, ele parecia ter perdido totalmente o domínio.
Por que aquela reação? Não era normal um filho se parecer com a mãe? Mesmo apreensivo, Silas confirmou com honestidade:
— Sim, eu a vi pessoalmente. Eles são muito parecidos.