Ricardo Holanda estancou o passo por um momento, franzindo o cenho. Ele estava com a mente um caos, incapaz de se importar com a existência daquela criança. Nos últimos dias, ele investigara diversas pessoas, mas ainda não tinha plena certeza sobre a identidade de Isabella. Não havia ninguém com uma tatuagem semelhante à dela entre seu círculo de conhecidos no exterior.
No entanto, a personalidade dela era muito diferente da que ele lembrava. Ele relutava em acreditar que alguém pudesse mudar de forma tão drástica. Antes mesmo que pudesse verbalizar sua recusa, pelo canto do olho, viu Isabella massageando o pulso com receio. Aquele bracelete de pérolas, tão familiar, feriu seus olhos.
Ricardo paralisou por completo. Seu olhar fixou-se naquelas pérolas, e seus olhos injetaram-se de sangue. Aquele era o bracelete que ele mesmo colhera, pérola por pérola, e que ela jogara fora impiedosamente anos atrás; ele acreditava que jamais voltaria a vê-lo. Era impossível estar enganado.
Naquele instante, todas as dúvidas em sua mente foram varridas. Seu coração vazio foi preenchido por uma onda avassaladora de afeto. O olhar gélido de Ricardo tornou-se quase ausente, fixo no bracelete com incredulidade. "Ela não jogou fora... ela ainda se importa", pensou. Ele não era o único a se agarrar àquelas lembranças.
Talvez, se fosse possível, ela também não quisesse esquecer. Mesmo que suas memórias tivessem sido reconstruídas e sua personalidade alterada, ainda restava aquela ponte entre eles. Ela nunca descartara verdadeiramente as coisas dele. Isso era o suficiente.
O pomo de adão de Ricardo moveu-se. Já que Isabella mudara de ideia e queria criar a criança, que assim fosse. Ele daria a ela o que quer que ela desejasse.
Jasmine observou o silêncio de Ricardo por alguns segundos, sem saber o que ele diria. Mas ela já não tinha coragem de ouvir. Cada encontro com ele resultava em mágoas profundas; ele a tratava como se ela não fosse humana. Ela sentiu vontade de tapar os ouvidos para não ser humilhada novamente antes de partir. Contudo, a voz abafada dele acabou chegando até ela:
— Isabella, você gostaria de ir vê-lo?
O silêncio foi total no recinto. Sob os olhares chocados de todos, apenas Isabella deu um salto de empolgação.
— Claro, vamos ver! Seu filho é meu filho; eu cuidarei muito bem dele daqui para frente.
O som dos passos dos dois se distanciou. Desta vez, nem mesmo os outros membros da família Holanda zombaram de Jasmine; os olhares voltados para trás do biombo agora carregavam piedade. Ricardo continuava implacável como sempre. Como aquela beldade conseguira ofendê-lo tanto?
Muitos pensavam que, após o nascimento, ele mudaria de ideia e permitiria que ela ficasse por alguns anos para cuidar do bebê. Ninguém esperava que ele entregaria a criança diretamente para Isabella. Será que uma mulher como Isabella saberia criar um filho?
Jasmine já não ouvia os sussurros. Com as mãos sobre os ouvidos, sua visão tornou-se turva. As lágrimas caíam pesadas, impossíveis de conter. Uma dor dilacerante tomou conta de seu peito. Ela estava aterrorizada. Acreditava que o filho cresceria sob a tutela do Sr. Antônio, mas bastou uma frase de Ricardo para que tudo mudasse.
Ela tinha pavor da ideia de Isabella criar seu filho. Era sua própria carne e sangue, mas ficaria nas mãos das duas pessoas que ela mais odiava. Isabella seria boa para a criança? Iria educá-la e contar a verdade sobre sua mãe? Ou o menino cresceria para ser como eles, alguém arrogante que a desprezaria?
Jasmine chorava com os ombros trêmulos, tão frágil que parecia prestes a desmaiar. "Ricardo... por que você faz questão de que eu te odeie tanto?", pensava em agonia.
O pequeno recém-nascido estava no quarto ao lado, sob os cuidados de uma equipe médica. Ricardo permaneceu diante da porta, sem entrar. Embora tivesse concordado que Isabella criasse o bebê, ele não sentia interesse pela criança; não queria ver o fruto de seu envolvimento com outra pessoa. Para ele, contanto que Isabella estivesse feliz, bastava.
O Sr. Antônio entrou no quarto junto com Isabella. Assim que cruzaram a porta, um choro lancinante ecoou pelo cômodo. O bebê já estava com a voz rouca por causa do choro da tarde, e agora tossia entre os soluços. Antônio entrou em pânico imediatamente, ordenando que os médicos fizessem um check-up enquanto corria para o lado do bisneto.
Com muito esforço, conseguiram acalmar o bebê o suficiente para alimentá-lo com um pouco de leite. Isabella, observando de longe, sentia apenas irritação. Que sorte a dela, ter que criar o filho daquela mulher. Quando vira o bebê lá fora, nem se dera ao trabalho de olhar; agora, teria que ser a "mãe". O choro a deixava impaciente. Se a criança tivesse a personalidade de Jasmine, seria insuportável.
Sua única esperança era que o menino se parecesse com Ricardo. Se ele fosse tão bonito quanto o pai, ela talvez pudesse tolerar a tarefa. Isabella respirou fundo várias vezes para conter o descontentamento e aproximou-se para dar uma olhada.
No instante em que seus olhos encontraram o bebê, suas pupilas tremeram e ela recuou um passo, incrédula. "Maldito!", pensou. Como aquela criança podia se parecer tanto com Jasmine? Mesmo sendo um recém-nascido com traços apenas começando a se formar, os olhos e a boca eram a cópia fiel de Jasmine. Era uma versão miniatura dela.
Isabella mal podia imaginar quanto tempo teria que passar criando uma mini-Jasmine, ouvindo-o chamá-la de "mãe", tendo que niná-lo e encenar o papel de mãe dedicada todos os dias. A simples imagem a enojava. Por um momento, seu olhar tornou-se assustadoramente cruel.
A criança, demonstrando uma sensibilidade aguçada, começou a chorar desesperadamente assim que o Sr. Antônio deu espaço para Isabella vê-lo. Desta vez, o choro era de puro pavor, como se estivesse vendo um monstro. O braço do pequeno, que estava vermelho, tornara-se arroxeado, e sua voz estava terrivelmente rouca. Ele chorava tanto que parecia prestes a desmaiar.
Isabella estava no limite de sua paciência:
— Pare de chorar!
Com o grito dela, o bebê chorou ainda mais e começou a tossir violentamente. Antônio, com o coração partido, lançou um olhar severo para ela e correu para tentar acalmar o bisneto com os médicos. No entanto, por mais que tentassem ser gentis, a criança não parava.
Alguém comentou em voz baixa:
— Deviam chamar a mãe dele para tentar.
Essas palavras foram como um espinho que rompeu a pouca paciência que restava em Isabella. "Exatamente, eu não sou a mãe desse pirralho", pensou ela. Por que tinha que aguentar aquele estorvo? Isabella recuou mais alguns passos, irritada. À medida que ela se afastava, o choro diminuía levemente; era óbvio para qualquer um que o bebê a rejeitava.
Mesmo assim, o choro persistia. Antônio segurou a mãozinha do bisneto e fez um sinal com os olhos para a assistente. A Assistente Sun saiu rapidamente, foi até o templo ancestral e chamou Jasmine. Jasmine ainda estava abalada, mas ao saber que o filho não parava de chorar, seu instinto materno falou mais alto. Ela seguiu a assistente às pressas.
No corredor, Ricardo estava de costas para a porta, falando ao telefone. Sua voz baixa e fria ressoava pelo espaço, e sua estatura imponente fazia o corredor parecer estreito sob as luzes. Assim que saiu, Jasmine o viu. Ela baixou a cabeça, ocultando o ódio que fervilhava em seu olhar.
Na verdade, ela não odiara Ricardo desde o início. Jasmine era uma pessoa carente de afeto, e aquela noite com Ricardo dera-lhe a ilusão de ser profundamente amada. Na noite em que fora abandonada pela família, Ricardo a abraçara e a beijara repetidamente, como se quisesse unir suas vidas para sempre. Ela sabia como ele era quando amava alguém. E agora, infelizmente, sabia exatamente como ele era quando desprezava alguém.