Capítulo 40: O Navio Ghost Ruins
Alice desviou o olhar, enquanto fragmentos de conversas continuavam a ecoar em seus ouvidos. Nas ruas movimentadas, quase todos já haviam experimentado a crueldade dos cenários e conheciam o desespero do jogo. Por mais julgamentos que fizessem verbalmente, nada disso podia alterar a realidade dos fatos.
Ela não havia caminhado muito quando um alvoroço e gritos de espanto vieram da direção onde ela estava antes; a multidão começou a correr para lá como uma maré. Ao levantar a cabeça, viu que a imagem no telão do prédio havia mudado. Não era mais um boletim de notícias, mas sim a transmissão de um vídeo em tempo real.
A perspectiva era trêmula e borrada, preenchida por gritos de pavor, e no canto da tela estava a legenda: "Cenário D-7374 'Castelo Lindo', perspectiva em primeira pessoa do jogador". A multidão observava fixamente enquanto o jogador na tela usava movimentos ágeis para esquivar do ataque de algo às suas costas. Ao verem que ele estava prestes a chegar à saída, o coração de todos se apertou em ansiedade, torcendo silenciosamente para que o jogador escapasse em segurança.
Entretanto, no momento crucial, as palavras "CONEXÃO INTERROMPIDA" surgiram em letras garrafais na tela. O vídeo parou abruptamente. Ele conseguiu sair a salvo? O resultado tornou-se algo que todos ansiavam desesperadamente saber.
Assim que o aviso de interrupção desapareceu, um rosto em extrema agonia surgiu na tela, desaparecendo gradualmente, enquanto abaixo apareciam as informações básicas do jogador com os caracteres vermelhos: "MORTE CONFIRMADA". Diante disso, o silêncio caiu sobre os arredores. Alguns exibiam desespero, temendo que a pessoa na tela fosse seu próprio reflexo no futuro; outros sentiam pesar, pois morrer na saída era mais revoltante do que morrer em qualquer outro lugar.
Alice não se abalou; pegou as compras e partiu a passos largos. Para ela, em vez de discutir, era melhor ir para casa e perguntar no grupo de veteranos sobre experiências de sobrevivência, para não entrar no próximo cenário despreparada.
Por sete dias seguidos, Alice desfrutou de uma vida de lazer em casa, o mais tranquila possível. O único problema era que, para cada refeição deliciosa, Madeirinha só podia olhar, sem poder comer, o que o deixava em uma agonia de desejo.
Depois de comer muita coisa gordurosa, Alice sentiu vontade de mudar o paladar e preparar um macarrão instantâneo versão luxo: com dois ovos, três salsichas e um punhado de vegetais verdes. Madeirinha estava agachado na bancada da cozinha, orientando com sua voz agudamente natural: — Mestra, a água ferveu, coloque o macarrão rápido.
— Já sei, já sei.
Assim que Alice jogou o macarrão na panela, o bracelete preto em seu pulso vibrou, seguido por um leve choque elétrico que percorreu seu braço. Alice ergueu a sobrancelha, intrigada: — Já começou com os avisos antes mesmo de entrar no cenário?
Uma linha de letras brancas surgiu no bracelete: 【Favor não utilizar entidades associadas como assistentes de cozinha fora do tempo de cenário. Este comportamento pode afetar a independência do item.】
— ...Até isso eles controlam? — Alice baixou as pálpebras, sentindo-se sem palavras.
Madeirinha encolheu o pescoço e disse melancolicamente: — Mestra, talvez seja melhor eu voltar para o quarto?
Enquanto servia o macarrão, ela recusou: — Não precisa. Ele disse apenas que "pode" afetar, não disse que é "proibido". Além disso, usou "favor não", e não "proibido".
O sistema tinha um jeito bem artístico de falar, pensou ela. Graças às palavras de Alice, o pouco de culpa que restava no Madeirinha desapareceu instantaneamente.
— Entendido, mestra! — Madeirinha falou alegremente, empertigando-se na bancada da cozinha. — Mestra, já se passaram sete dias, por que o cenário do jogo ainda não apareceu?
A vida diária era repetitiva; nada era tão interessante quanto o que acontecia no jogo. Alice lançou-lhe um olhar afiado para que calasse a boca: — Melhor que não venha. Seria ótimo se nunca mais viesse.
Ela ainda não havia gastado o suficiente da recompensa em dinheiro do primeiro cenário e não queria entrar em um ambiente opressor novamente. Embora ela pudesse "morrer e voltar", o sistema havia emitido recentemente um comunicado global:
「Aqueles que se recusarem a entrar no jogo farão com que um familiar ou amigo escolhido aleatoriamente exploda junto com eles.」
Não deixavam escapatória nenhuma. Alice cutucou o macarrão com os hashis e encarou o Madeirinha: — Pare de falar essas coisas. Às vezes as coisas boas não acontecem, mas as ruins se realizam rapidinho.
Madeirinha, como se recebesse uma ordem de nível máximo, gritou: — Sim!
Para sua infelicidade, antes mesmo que ela engolisse o macarrão, um convite surgiu do nada sobre a mesa. Era idêntico ao anterior. Alice lançou um olhar irritado para o Madeirinha: — Pronto, aí está a consequência de falar demais. Seu desejo foi atendido, mas eu me dei mal!
Madeirinha recuou sem jeito diante do olhar hostil da mestra e tentou consolar: — Mestra, não fique brava. Pense bem, vencer dá recompensas, não é algo bom?
— Bom é a sua cabeça.
Alice pegou o convite e deu um peteleco no crânio rígido do Madeirinha: — Se algo acontecer, você será o meu primeiro escudo humano.
Assim que terminou de falar, uma luz branca ofuscante a atingiu. Percebendo que estavam entrando no cenário, Madeirinha saltou rapidamente para o ombro de Alice. Ela sentiu vontade de selar a boca de corvo dele.
Após a tontura desaparecer, a paisagem mudou. A brisa marinha misturada a um odor de decomposição invadiu suas narinas. Ao abrir os olhos, Alice estava na borda do convés de um navio gigante; três metros abaixo dela, as águas vermelhas do mar borbulhavam. A tinta dourada do nome do cruzeiro estava descascada, mas era possível distinguir o nome:
Ghost Ruins (幽墟號)
.
Bandeiras rasgadas tremulavam ao vento marinho, mesas e cadeiras estavam derrubadas por toda parte, e um sapato de salto alto vermelho estava preso solitário em uma fresta do corrimão enferrujado. Ao redor do sapato, havia manchas de sangue no convés, provando que alguém se ferira ali antes. Ao longe, no centro da vitrine do salão de baile, havia um grande buraco quebrado; era possível ver vagamente o contorno de uma figura humana pendurada, balançando conforme o navio oscilava.
—
He... hehe...
Sons de respiração intermitente vieram de trás, desviando instantaneamente sua atenção.
— Quem está aí?
Alice virou-se alerta e viu uma figura fardada saindo das sombras. Com a ajuda da luz do navio, ela viu que a pele da pessoa parecia pergaminho encharcado, colada ao contorno dos ossos. A parte superior do rosto estava completamente coberta por uma meia-máscara dourada, e o maxilar exposto ostentava alguns fiapos de carne podre.
Ela perguntou com incerteza: — Você é o capitão?
— Exato. — O capitão fez uma reverência educada para recebê-los. — Bem-vindos, doze convidados, à jornada final.
Aquela voz? Alice franziu a testa; soava como se as cordas vocais estivessem enferrujadas, era muito estranho. Os outros onze jogadores começaram a acordar um após o outro, e o convés logo foi preenchido por sons de respiração ofegante e soluços contidos. Alice contou cuidadosamente: incluindo ela, eram de fato doze pessoas, sete homens e cinco mulheres.
Havia um homem de meia-idade pálido em trajes de dormir, uma idosa apertando um crucifixo e murmurando orações, e alguns veteranos com olhares afiados que avaliavam rapidamente o ambiente.
— Eu sou o Capitão Olho de Sangue.
O capitão ergueu seu braço esquelético, e a névoa sobre o convés condensou-se instantaneamente em caracteres escarlates, sem dar tempo para os jogadores se adaptarem:
【Regra 1: O Ghost Ruins possui cinco andares. Cada andar tem uma "Cabine de Jogo". Dentro de doze horas, cada pessoa deve entrar em pelo menos três cabines diferentes.】