Capítulo 39: Vida Longa
Madeirinha suava frio por Alice.
Já era, já era, ela vai ser descoberta!
Desde que Vitor começou a perguntar sobre a punição, o pequeno objeto sentiu que sua mestra não queria revelar os detalhes. "Como a mestra pode ser tão boa? Ela não quer que os outros se preocupem", pensou Madeirinha, jurando lealdade eterna a ela.
— Não posso ter comprado antes? — Alice conhecia bem o temperamento de Vitor; ser evasiva só geraria mais desconfiança. Por isso, ela ergueu a mão abertamente, balançando o pulso com o bracelete diante dele, quase como se o convidasse a inspecioná-lo de perto.
Como previsto, ele parou de duvidar. — Tá bom, tá bom. Não disse que era proibido usar acessórios.
Vitor levou a mão à testa, convencido de que o sistema só dera o manual a ela porque qualquer outra punição poderia acabar virando um benefício nas mãos de Alice. Antes de partir, ele deu o último aviso: — Na próxima vez, não seja como no último cenário. Pare de agir como uma louca que só busca adrenalina. Se você morrer, eu não vou cuidar do seu funeral.
Na verdade, Vitor temia o dia em que teria que fazer isso. Tendo perdido parentes para o jogo, se Alice partisse, ele não teria mais ninguém neste mundo que pudesse chamar de confidente.
Alice respondeu com desdém: — Digo o mesmo. Se você acabar morrendo no jogo e seu corpo apodrecer em casa, eu não vou recolher seus restos.
Eles usavam o tom de brincadeira para dizer aquilo que mais temiam. Para Madeirinha, os dois ignoravam uma terceira opção: e se os dois morressem ao mesmo tempo? Aí apodreceriam em casa sem ninguém saber.
Ao sair, Vitor fechou a porta e encostou as costas nela. Sua mente viajou para as palavras de Alice no jogo, quando ela dissera que "queria morrer". Na hora, ele achou que era só para não parecer vulnerável, mas agora sentia que ela falava sério. "Uma pessoa obstinada como ela viverá cem anos; como poderia querer morrer?", pensou ele, balançando a cabeça para afastar a ideia. Ele rezou para que o convite para o próximo cenário demorasse a aparecer.
Alice soltou um suspiro de alívio: — Foi por pouco. Quase fui pega. — Ela olhou para o bracelete, com um significado óbvio.
Madeirinha perguntou: — Mestra, qual é a sua relação com ele?
Embora estivesse com Alice há pouco tempo, Madeirinha sabia que, se uma mulher era abraçada por um homem e não resistia, só havia duas opções: ou eram amigos, ou namorados. E ele tinha a filosofia de perguntar o que não entendia.
Alice respondeu calmamente: — Você é bem fofoqueiro, hein?
Madeirinha não conseguia sorrir, então emitiu um "hehehe" para ser modesto. Ela confirmou que ele e Vitor eram apenas amigos.
— Ele parece muito preocupado com a mestra.
Sim, muito preocupado. O esforço para carregá-lo até a vitória não fora em vão. Mas, de repente, Madeirinha mudou o tom e pareceu... com ciúmes?
— Eu também me preocupo com a mestra. Por favor, nunca me abandone.
Alice semicerrou os olhos: — E você, o que entende por preocupação?
— Eu entendo, eu entendo! Quer que eu explique?
— Não quero. — Alice o cortou. — Vou sair para dar uma volta. Fique em casa e não mexa em nada.
— A mestra vai brincar sozinha?
Alice: — Vou te ensinar outra expressão: "entretenimento próprio".
A agitação das ruas não diminuíra com a invasão do jogo. As pessoas continuavam comendo e bebendo; o dinheiro ganho no jogo valia tanto quanto o real. No entanto, na realidade, a abismo entre pobreza e riqueza persistia.
Alice notou um grande telão em um prédio exibindo as notícias. O título era chamativo:
"Até 20 de novembro, o número diário de mortes causadas pelo jogo é de aproximadamente 180 pessoas."
Abaixo, a multidão discutia fervorosamente. Uma senhora com uma cesta de compras exclamou: — 180 por dia?! Caramba, isso é mais que a média diária de mortes por acidentes de trânsito do ano passado!
— O filho do meu primo entrou num cenário mês passado e nunca mais saiu — disse outro. — Quando os vizinhos perguntam, dizem que foi morte acidental, não dão uma explicação decente.
Qualquer pessoa sensata sabia que ele morrera no jogo.
— No meu prédio tiraram três corpos este mês — comentou um homem. — Todos jovens. No dia anterior estavam bem e no outro... que tragédia.
Um jovem de óculos deslizava o dedo rápido pela tela do celular: — É muito mais que isso. O que vemos são as mortes "confirmadas e registradas". Nos fóruns dizem que muitos morrem dentro dos cenários e nem podem ser contabilizados. O número real deve ser o dobro.
Alguém prendeu a respiração: — Então é como se um bairro médio desaparecesse por dia...
Um entregador parou sua moto e limpou o suor: — Mês passado recebi um convite e entrei num cenário Nível C. A recompensa foi de alguns milhares, mais do que eu ganho em dias de entrega, mas vocês não viram as coisas que tem lá dentro. Até hoje sinto que tem algo me perseguindo à noite.
As palavras do entregador geraram concordância entre os presentes. Enquanto alguns odiavam o jogo por ceifar vidas, outros viam benefícios. Um jovem estiloso comentou sem tirar os olhos do celular: — A taxa de mortalidade é menor que 0,05%, menor que o trânsito. O ponto é que o dinheiro é real. Um cara do bairro vizinho venceu um Nível B e levou 500 mil. Ontem comprou um carro esportivo, o feed dele só dá isso.
— Dinheiro, dinheiro, só pensam em dinheiro! Se a vida acaba, pra que serve o dinheiro? Vocês jovens não entendem... — reclamou a senhora.
O jovem irritou-se. Para ele, dinheiro importava mais que a vida. No jogo, dinheiro era inútil, mas na realidade, sem ele você morre de fome. Arriscar a vida pelo futuro não parecia errado para ele.
— Quem não entende são vocês. O mundo mudou. O jogo está aí, não dá pra recusar ou fugir. Ou você luta pra ser forte, ou morre na miséria. Pelo menos o jogo deu uma chance de ascensão social mais justa que o berço ou o CEP.
Uma faxineira que estava em silêncio não aguentou e disse, segurando a vassoura: — Justa? Meu filho faz 18 anos mês que vem. Gente como nós, sem recursos ou informações, nem sabe o que fazer lá dentro. Como vamos lutar de forma "justa"?
A invasão do jogo tornara-se parte do cotidiano. Eram como tumores na cidade, selecionando pessoas, consumindo vidas, mas também cuspindo recompensas tentadoras que podiam ser convertidas em moeda real.