Capítulo 35: O Cenário não ficaria Inútil?
O interior do santuário estava mergulhado em trevas, com apenas um pequeno ponto de luz vermelha vindo das profundezas.
— Mar... Marcos... — Sara desabou no chão, as lágrimas fluindo sem parar.
Lucas cerrava os punhos com força, o peito estufado de indignação. Vitor, por sua vez, baixou a cabeça em um momento de silêncio solene em direção ao portão.
Apenas Alice permanecia imóvel, encarando a entrada do santuário com uma expressão gélida. Não havia tristeza, nem raiva, nem medo. Nada. Parecia que ela assistia a um filme que não lhe dizia respeito.
— A porta abriu — lembrou ela suavemente. — É hora de entrar.
Ao ouvir isso, Lucas explodiu em fúria, perdendo toda a timidez do início do jogo. Ele avançou até Alice e disse entre dentes: — Lara, você ainda é humana?! O Marcos acabou de morrer. Ele morreu por nós!
Alice manteve a calma de sempre: — E por isso devemos chorar na porta até o tempo acabar e morrermos todos aqui? É essa a sua forma de honrar a memória dele?
— Você—!
— Ele deu a vida para abrir este portão. Se não entrarmos, ele morreu em vão. Você quer que o sacrifício dele não sirva para nada?
Lucas a encarou com um olhar de puro rancor: — O que diabos é você?
Alice soltou um riso autodepreciativo: — Alguém que deseja a morte. Se eu não fosse imortal, você acha que eu gostaria de estar viva agora? Eu sei que vocês me invejam por eu não morrer, mas nunca saberão a dor que eu sinto. E eu sei melhor que vocês: neste jogo, sentimentos são artigos de luxo que não podemos pagar.
Ao ouvir a primeira frase, o coração de Vitor falhou uma batida.
Deseja a morte? Por quê? Por que ela nunca me contou isso?
Um pensamento absurdo cruzou sua mente: será que ela realmente o considerava um amigo?
O que eles não perceberam, em meio à discussão, é que o Guardião do Santuário reaparecera atrás do portão, observando fixamente o conflito entre os jogadores. Quando notaram a presença da entidade novamente, a esperança que restava morreu. Eles tiveram uma janela de um minuto para entrar, mas a briga interna permitiu que o Guardião bloqueasse o caminho novamente.
O sacrifício de Marcos fora, aparentemente, em vão. Ele morrera querendo que seus aliados vencessem, mas eles desperdiçaram a chance.
Alice sentou-se no chão, exausta: — Ótimo, agora não entramos mais. Por mim, desistimos logo e esperamos o tempo acabar para sermos eliminados juntos.
Ela estava cansada. Queria ligar o "foda-se". Embora ela tentasse morrer sem sucesso, os outros não queriam aceitar o fim. Eles olhavam desesperados ao redor, tentando achar outra forma de entrar, mas com a mente perturbada pela morte de Marcos, não conseguiam pensar em nada.
Vitor sentou-se ao lado de Alice: — Se você estiver se sentindo injustiçada, pode falar.
— Quem disse que estou me sentindo injustiçada? — Alice virou o rosto, evitando o olhar dele.
— Tudo bem, se diz que não está, não está. Você deu o seu melhor para chegarmos aqui. Se estiver cansada, descanse.
Ele sabia que ela fora o cérebro do grupo o tempo todo, carregando todos nas costas. Embora ela não pudesse mudar o destino de todos, Vitor entendia que ela criara aquela imagem de frieza para não ser um alvo fácil.
Alice olhou para ele, confusa: — Se eu descansar, nós morreremos. Você não tem medo?
— Tenho.
— Então por que diz isso?
— Porque meu medo de morrer e o seu cansaço são coisas diferentes. Eu não gosto de forçar ninguém a nada, muito menos uma amiga. Amigos não pressionam amigos.
Os dois se olharam em silêncio. Alice observou as expressões de sofrimento dos outros dois e depois olhou para Vitor. Ele era quem mais queria viver. Movida por algum pensamento súbito, ela se levantou e caminhou em direção ao santuário. Ninguém sabia o que ela pretendia, mas após o incidente de Marcos, Sara e Lucas não tentaram detê-la.
Apenas Vitor, temendo que ela repetisse o destino trágico de Marcos, gritou preocupado: — Alice, o que você vai fazer? Volte já aqui!
Alice respondeu: — Vitor, às vezes você não precisa ser tão condescendente comigo. — Mesmo sendo amigos, ele não precisava ser tão obediente. Ela sentia que não merecia aquilo.
— Se sou condescendente ou não, o problema é meu! Volte aqui!
— Fique tranquilo. Mesmo que eu queira morrer, não consigo. Estou salvando vocês. Não! — Ela virou-se para Sara e Lucas. — Para ser exata, estou salvando apenas o Vitor, para que ele vença. Vocês dois estão apenas pegando carona na sorte dele.
Se não fosse por Vitor, Alice talvez ficasse naquele cenário para sempre. Mas ele era seu amigo, e ela queria salvá-lo. Um segundo antes das garras do Guardião a atingirem, ela falou:
— Vamos fazer um trato.
O Guardião parou: — Um trato?
Alice assentiu: — Sim. Você nos deixa entrar e eu te liberto.
O Guardião ficou em silêncio, seus tentáculos parando de se contorcer. — Como me libertaria?
— Destruindo a Estela do Deus da Montanha. Se a Estela for destruída, a maldição acaba. Você não precisará mais vigiar este lugar e poderá finalmente morrer de verdade, seguir para a reencarnação ou para onde quer que deva ir.
O rosto humano na escuridão mostrou confusão: — Se destruir a Estela, como vocês passarão de fase?
Alice respondeu com naturalidade: — Isso é problema meu. Você só precisa me dizer: temos um acordo ou não?
— E se eu recusar?
O olhar dela brilhou com uma determinação feroz: — Então eu farei com que todos os aldeões e almas invadam o santuário de uma vez. Eu admito que você é forte, mas pode matar todos eles? E se matá-los, quem fornecerá os sacrifícios? Quem manterá a maldição viva? O cenário não ficaria inútil?
Guardião: "..."
Assim que ela terminou de falar, um grupo surgiu atrás deles: os aldeões, o menino do cabelo, a Viúva Lúcia, o Açougueiro Marcos, o Yan e até o idoso do início. Todas as almas presas estavam ali. Os outros três jogadores recuaram assustados, temendo um ataque. Eles se perguntavam:
quando foi que a Alice planejou isso tudo para que eles chegassem na hora exata?
O Guardião olhou de Alice para as almas, seus tentáculos movendo-se inquietos.
Essa humana está me ameaçando... ameaçando a existência de todo o cenário... ela tem razão, se todas as almas se rebelarem e a maldição sair de controle...
O Guardião não ousava imaginar as consequências.