Capítulo 30: A Receita Familiar
Yan abraçou o Tigrão com vigilância: — O que você quer fazer?
— Quero fazer um trato com você. Eu te dou a experiência de um sacrifício de alma em troca do seu fragmento da Madeira do Deus da Montanha.
Yan inclinou a cabeça, sua pequena mente processando a dúvida: — Experiência de sacrifício de alma?
— Isso mesmo.
As palavras de Alice demonstravam uma excitação crescente; ela estava ansiosa pela sensação do ritual.
A alma deixando o corpo... desta vez não tem como eu continuar viva, né?
, pensou. Marcos a observava fixamente. Nem com uma habilidade especial alguém deveria ser tão imprudente. Como alguém podia ser tão... Ele ficou sem palavras. O termo "inveja" já estava saturado.
Alice continuou: — Ouvi dizer que o sacrifício de alma consiste em extrair uma parte do espírito e selá-lo em um objeto para dar vida a ele. Eu nunca tentei, quero ver como é. Você extrai um fio da minha alma, coloca nesta máscara de madeira para que ela ganhe vida, e em troca você me dá o fragmento. O que acha?
Os olhos de Yan ficaram arregalados de incredulidade: — Você... você quer que eu puxe a sua alma?
— Sim!
— Você não tem medo?
— Medo de quê? É só um pedaço da alma, não vou morrer por isso — Alice apressou-o. — Vamos logo, estou com pressa.
Os outros jogadores não reagiram muito. Era a mesma conversa, o mesmo golpe, apenas aplicado em um morador diferente. Era a velha receita de sempre. Yan a encarou por um longo tempo e assentiu hesitante: — Está bem.
— Negócio fechado!
Alice sentou-se rapidamente no chão, cruzando as pernas sem se importar com a sujeira. — Vamos lá, qual parte vai puxar? Ouvi dizer que a alma é dividida em várias partes. Acho que a "Mente Espiritual" seria uma boa, ela rege a sabedoria; se puxar essa, talvez a máscara de madeira fique mais inteligente.
Yan: "..."
Para ser honesto, ele nunca vira um sacrifício tão cooperativo. Pelo protocolo, ele deveria entoar um cântico, criar uma atmosfera de terror e esperar que a vítima estivesse no ápice do pavor para extrair a alma. Afinal, almas aterrorizadas eram as mais saborosas. Mas aquela humana estava... ansiosa?! Parecia estar com mais pressa do que ele.
Yan desistiu do cerimonial, estendeu a pequena mão e a pressionou contra a testa de Alice.
—
Pela alma o sacrifício, pelo espírito o guia, separe-se—
Instantaneamente, Alice sentiu algo ser arrancado de seu corpo. Era uma sensação leve; além de uma leve tontura, não doía nada! Ela abriu os olhos e viu um fio prateado e semitransparente saindo de sua testa, sendo guiado por Yan para dentro da máscara de madeira "feia".
Nesse momento, a máscara moveu-se milagrosamente. Os dois círculos tortos entalhados por Alice "abriram os olhos".
— Cacete, funcionou mesmo! — Alice pegou a máscara com empolgação. — Olá, Madeirinha.
Até Vitor se aproximou, incapaz de conter a curiosidade. No jogo, não havia nada que os NPCs não pudessem fazer. Era impressionante. O nariz triangular da máscara franziu-se levemente: — Olá, mestra. Eu sou o Madeirinha.
Na verdade, a máscara não sabia qual era o seu nome, mas como a primeira coisa que ouviu ao ganhar consciência foi Alice chamando-a assim, assumiu que aquele era seu nome. Lucas apontou para o Madeirinha, perguntando incrédulo: — Vocês não acham essa voz familiar?
— Parece a voz da Lara.
Vitor e Marcos, que estavam mais perto, notaram de imediato que a voz da máscara era idêntica à de Alice. Por um segundo, pensaram que havia surgido uma segunda "Lara". Alice, porém, focava em outro ponto.
— Você fala! Que maravilha.
— Sim, mestra.
— Vamos lá, diga algo bonito. Tipo: "A Lara é a garota mais linda do mundo".
Madeirinha: — ...A Lara é a mulher linda do mundo.
Alice ouviu sua própria voz saindo sem emoção e franziu o cenho: — O tom está errado. Tem que colocar sentimento.
"Infantil!", pensaram todos os jogadores, exceto Vitor. No fundo, Vitor também queria que o Madeirinha dissesse que ele era o homem mais bonito do mundo, mas preferiu esconder esse desejo.
Madeirinha respirou fundo e tentou de novo: — A Lara... é a mulher... mais linda do mundo~
Desta vez, Alice ficou satisfeita e bateu palmas: — Muito bom! Yan, você tem talento para a coisa.
Enquanto conversavam, Yan trouxe o fragmento de dentro da escola. Era idêntico ao do açougueiro: um pedaço de madeira preta do tamanho de uma palma, com a diferença de que as texturas eram ainda mais retorcidas.
— Tome, o fragmento! — Yan entregou o item e perguntou timidamente: — Mana, o Madeirinha pode brincar comigo depois?
Alice olhou de Yan para a máscara e abriu um sorriso astuto. Vitor soube na hora: ela tivera outra ideia mirabolante.
— Pode, mas você terá que fazer outro trato comigo.
— O quê?
— Eu deixo o Madeirinha com você para ser seu amigo, e você me ajuda a ouvir as conversas dos aldeões. Especialmente sobre o terceiro fragmento e o sacrifício de vida. Você é uma criança, eles não vão desconfiar de você. O que você ouvir de útil, conte ao Madeirinha; ele me repassará, pois temos um elo espiritual.
Os olhos de Yan brilharam de emoção: — É verdade? O Madeirinha pode mesmo ficar comigo?
Alice entregou a máscara para os braços de Yan: — Eu lá sou de mentir? Trate-o bem e não deixe ele aprender coisas erradas.
Madeirinha protestou: — Mestra! Eu não quero brincar com o garoto feio!
Alice deu um peteleco na máscara: — Cala a boca. Você também é um entalhe feio, não tem direito de reclamar dos outros.
Madeirinha: — ...Tá bom.
Yan abraçou a máscara com um sorriso raro e um pouco assustador, elogiando-a seriamente: — Mana, você é muito legal.
"Haha. Com três frases ela te dobrou, pelo visto você não é tão louco quanto o nome diz", pensou Vitor. O Menino Louco Yan, que eles achavam que seria mais insano que Alice, acabou sendo levado na conversa.
Yan baixou a voz: — Vou te contar um segredo. O terceiro fragmento está no Santuário.
Sara e Lucas, que estavam um pouco afastados e não ouviam a conversa, ficaram curiosos com o segredo. Yan continuou, e Vitor e Marcos ouviram cada palavra:
— Eu ouvi por acaso. Dizem que há algo protegendo o último fragmento lá dentro. Para pegá-lo, é preciso um sacrifício de vida. Um sacrifício de verdade... que mata.
Ao ouvir a palavra "mata", a excitação nos olhos de Alice aumentou consideravelmente.