Capítulo 29: Código Civil?
Yan torceu o nariz e apertou o tigre de pano com ainda mais força: — Não quero. É feio demais.
Do outro lado, Alice, sentindo seu pequeno coração ferido, franziu a testa: — Mas eu levei a noite inteira esculpindo isso!
Como ele ousava chamá-lo de feio? Os outros jogadores, sem saber da história real por trás da máscara, começaram a brincar ao ver a expressão de Alice: — Olhem para ela... quem não soubesse, diria que o garoto a chamou de feia, e não o objeto.
Sara soltou uma risada com o comentário de Lucas, mas as palavras morreram em sua boca quando percebeu o olhar nada amigável de Alice. Ela segurava a vassoura com força, como se dissesse: "Se disserem mais uma besteira, eu varro vocês deste mundo". Conhecendo o poder daquele item, os dois se calaram imediatamente.
Vitor segurou o riso e deu um sinal de positivo para Alice; ali, apenas a força bruta impunha respeito. Até o mais teimoso temia uma vassoura capaz de desintegrar humanos e entidades! Alice soltou um bufo de irritação, guardou a vassoura e voltou sua atenção para a frente. Ser chamada de feia (ou ter sua obra chamada assim) e ainda ter que ouvir fofocas era demais para ela.
Dizem que recuar um passo abre um horizonte vasto, mas isso era para os outros. Para Alice, recuar um passo só a deixava mais furiosa, e aguentar um desaforo só a fazia sentir-se no prejuízo.
"Feio? Onde isso é feio?! Esses olhos assimétricos são arte abstrata, e essa boca torta é um sorriso desconstruído! Seus mortais sem cultura artística...", pensou ela. Alice respirou fundo, tomada por um senso de missão quase sagrado: o mundo podia aceitar a beleza medíocre, mas jamais silenciaria sua feiura única.
— Não pode mesmo trocar? — Marcos insistiu, tentando uma última vez.
Yan foi categórico: — Não!
Muito bem, negociações encerradas. Alice aproximou-se deles e soltou um suspiro profundo.
Marcos: "???" Por que ela está suspirando agora?
Diante da confusão dele, Alice disse com um tom de resignação: — Então não tem jeito. Vou ter que usar meu último recurso.
Marcos perguntou de imediato: — Que recurso?
Yan olhou para Alice com total desconfiança, mantendo os nervos tensos.
— Vou usar a lógica e a razão.
— Hein?
A resposta deixou tanto o menino quanto os jogadores perplexos. Será que ela enlouqueceu de vez? O que ela estava balbuciando agora? Apenas Vitor sabia que ela ia tentar o caminho "suave": conversar e usar a lógica com o Yan!
Alice começou, muito séria: — Veja bem, o Tigrão pertencia originalmente ao Xiaobao. Como o Xiaobao morreu, tecnicamente a herança pertence à mãe dele. Você ficar com ele agora configura apropriação indébita de propriedade alheia, de acordo com o Artigo 1122 do Código Civil—
Yan: "..."
Tigre de Pano: "..."
O que essa humana está dizendo... Código Civil? Isso é algum tipo de maldição?
Os outros jogadores: "..."
Você acha mesmo que ele entende isso? Ele é um NPC, garota! NPCs não estudam Direito!
Sara revirou os olhos, irritada. "Na hora de ser séria, ela faz palhaçada! Não aguento mais", pensou. Lucas observava tudo com curiosidade, pensando que, se aquele plano funcionasse, ele mesmo comeria o tigre!
Alice seguiu falando por cinco minutos sobre leis de sucessão e herança. Yan passou da desconfiança para a confusão e, por fim, para o tédio total, chegando a bocejar. Ele olhou para Alice com pena. "Pobrezinha... primeira vez que vejo um jogador ficar maluco assim", pensou o menino.
Alice manteve um sorriso gentil: — Você deveria devolver o Tigrão para a Tia Lúcia. É uma exigência tanto da lei quanto da moral, entendeu?
Yan esfregou os olhos: — Mana, você é muito chata.
— Então você vai devolver ou não?
— Não.
— ...
— Se não vai pelo caminho suave, vamos pelo caminho difícil.
A atitude de Alice mudou instantaneamente. Ela avançou para tomar o tigre à força. Não era possível que ela fosse perder para uma criança. O Tigrão sairia dali hoje de qualquer jeito.
Yan soltou um grito e, de repente, o tigre de pano saltou de seus braços e pulou no rosto de Alice. Mas ela estava preparada. Ela o agarrou no ar, mas o brinquedo possuía uma força descomunal, debatendo-se freneticamente. As garras de algodão arranharam a mão dela, deixando um corte profundo.
— Ora, veja só... um brinquedo violento.
Alice segurou-o com firmeza, mas em vez de se livrar dele, começou a analisá-lo: — Do que isso é feito? Algodão? Não... essa textura parece... cabelo?
Movida pela dúvida, ela rasgou um pequeno buraco no tecido com o dedo. Lá dentro, não havia algodão, mas sim mechas de cabelo humano manchadas de sangue. Yan, ao ver seu brinquedo ser "ferido", começou a chorar copiosamente. Grandes lágrimas rolavam por seu rosto — e, diferente das lágrimas de sangue da viúva, as de Yan eram um líquido preto e viscoso.
Após verem tantas bizarrices, os jogadores já não se assustavam com lágrimas pretas. O importante era que o Tigrão estava com eles.
— Devolve o meu Tigrão... devolve... buááá...
Alice parecia não suportar o choro de crianças. Para surpresa de todos, ela devolveu o objeto que acabara de conquistar.
— Tá bom, tá bom, para de chorar! Toma aqui. — O som do choro a irritava.
Os outros jogadores ficaram paralisados. "O quê? Ela devolveu assim, sem mais nem menos?", pensaram. Que tipo de lógica era aquela? Fraquejar por causa de um choro?
Marcos perguntou indignado: — Qual é o seu problema? Por que devolveu?
Alice deu de ombros, despreocupada: — Jovem, não tenha pressa.
Quem era o apressado antes de chegarmos aqui?!
, pensaram os outros. Eles entendiam cada vez menos o comportamento errático dela; em um momento era racional, no outro agia como uma maluca suicida. Parecia que o conceito de lutar pela vida, tão sagrado para os outros, não existia para ela.
Yan abraçou o tigre rapidamente e parou de chorar.
— Yan, por que você gosta tanto desse tigre de pano? — Alice perguntou. Para ela, tudo precisava de um motivo. Pelo menos, ela funcionava assim.
Yan baixou a cabeça e acariciou o brinquedo com ternura: — Porque o Tigrão fala comigo. As outras crianças não brincam comigo, dizem que sou feio e louco... só o Tigrão gosta de mim.
Alice ficou em silêncio. Uma
Precognição
surgiu subitamente. Anos atrás, Yan fora humilhado pelas crianças da aldeia por causa de sua aparência; viveu isolado a vida toda. Um dia, encontrou o tigre nesta escola abandonada e o tornou seu único amigo. O tigre se movia porque continha uma parte da alma de Yan.
Alice ficou estupefata. Realmente existia um método de extração de alma ali! Excelente! Ela adorou a ideia. Fora Yan quem fizera o "Sacrifício de Alma" para dar vida ao brinquedo.
— Yan, você também sabe fazer o Sacrifício de Alma, não é? — Alice perguntou, com um brilho de excitação nada normal nos olhos. — O mesmo que a Viúva Lúcia quer. Uma troca de alma.