Capítulo 28: Não existe ninguém normal?
Alice ignorou o comentário dele, caminhou apressadamente até o portão do pátio e começou a cantarolar descontraidamente para a fresta da porta:
—
“Coelhinho, seja bonzinho, abra a portinha, abra logo, eu quero entrar~”
Houve um silêncio mortal dentro do pátio; nenhuma resposta.
Sem desistir, Alice mudou para outra canção popular: —
“Menina, você senta na proa do barco, e eu, seu irmão, sigo pela margem—”
— Seria um milagre se ela abrisse a porta com isso — Sara murmurou, fazendo pouco caso. Como alguém se emocionaria com duas estrofes aleatórias?
Para a surpresa de todos, ouviu-se um
nhéééc
e a porta se abriu. Sara entortou o canto da boca; realmente, em um jogo, não se podia aplicar a lógica do mundo real.
Uma mulher de uns trinta e poucos anos, vestindo trajes de luto brancos, apareceu. Seu rosto estava pálido, seus olhos inchados de tanto chorar e ela carregava uma placa funerária. Olhando de perto, lia-se: "Placa Funerária do amado filho, Liu Xiaobao".
Ela encarou Alice fixamente, com um tom de reprovação: — Você acordou meu filho.
— Mil perdões, mil perdões. — Alice perguntou com total sinceridade: — Vim devolver uma coisa. O tigre de pano do seu filho, certo?
Ao ouvir a segunda metade da frase, a expressão desolada da Viúva Lúcia iluminou-se instantaneamente.
— Você encontrou o tigre do Xiaobao?
— Ainda não. Que tal um acordo? Você me diz a localização exata, eu vou buscar e te entrego. Em troca, você me dá o fragmento da Madeira do Deus da Montanha.
A Viúva Lúcia ficou em silêncio por um momento. Por algum motivo, a proposta soava estranha. Independentemente de como se olhasse, parecia que a viúva estava saindo no prejuízo. No entanto, ela acabou revelando o endereço. Não por ingenuidade, mas pelo desejo desesperado de recuperar o último objeto do filho.
— O tigre de pano está na escola abandonada ao norte da aldeia... com o Yan.
— O Menino Louco, Yan? — Sara ergueu as sobrancelhas. — Então ele é o terceiro morador da lista?
A viúva assentiu e as lágrimas começaram a rolar. Foi então que algo bizarro aconteceu: enquanto as lágrimas de uma pessoa comum são cristalinas, as da Viúva Lúcia eram de um vermelho-escuro, como sangue. Lucas recuou alguns passos, escondendo-se atrás de Marcos; um presságio terrível invadiu seu peito.
— Aquele garoto, Yan, roubou o tigre do meu Xiaobao... e se recusa a devolver. Vá buscá-lo e traga-o para mim.
— Fechado — Alice respondeu sem hesitar, virando-se para partir. De repente, ela parou e olhou para a viúva: — Pode me dar o fragmento como adiantamento? Tenho medo de você mudar de ideia quando eu voltar.
A viúva balançou a cabeça: — Não. Primeiro o tigre, depois o fragmento.
Quem garantia que eles não fugiriam com o item? Ela não queria ser passada para trás!
— Que pão-dura — resmungou Sara, seguindo o grupo em direção à escola mencionada. Esperavam que a mulher não estivesse mentindo.
Ao chegarem ao local, todos fizeram uma careta. Chamar aquilo de escola era um eufemismo; parecia mais uma casa mal-assombrada. Metade do telhado havia desabado e as janelas estavam estilhaçadas. Apesar de ser dia, o interior estava mergulhado em uma escuridão total. Era possível ver apenas vultos de classes jogadas e uma lousa quebrada.
Alice lançou um olhar para os outros. Nos últimos dias, ela sempre tomara a iniciativa; agora estava cansada e queria ver os outros agirem. Diante do silêncio dela, o grupo começou a trocar olhares, tentando empurrar a tarefa uns para os outros. Ninguém ousava entrar.
Vitor, perdendo a paciência, ia dar um passo à frente quando Alice agarrou seu braço.
— Onde você pensa que vai? — perguntou ela em um sussurro audível apenas para ele, impedindo-o de avançar.
Enquanto Vitor tentava entender o porquê da proibição, Marcos foi empurrado para frente pelos outros. Sem saída, ele teria que ser o primeiro. No momento em que Marcos ia abrir a boca, Alice aproximou-se e entregou-lhe a máscara de madeira que esculpira.
— Leve isto.
— O que é? — Marcos pegou o objeto, confuso. Para que serviria uma máscara de madeira?
— Com certeza vai te ajudar daqui a pouco.
Alice recuou para junto dos outros jogadores e fez um gesto de "prossiga". Marcos segurou a máscara e, tomando coragem, gritou: — O pequeno Yan está em casa?
Ele empurrou levemente a porta e, sem resistência, as folhas se abriram. No centro da sala, viram um vulto pequeno de costas, agachado no chão, brincando com algo.
— Yan? — Marcos aproximou-se com passos leves.
O vulto virou-se. Era um menino de sete ou oito anos, vestindo roupas infantis em frangalhos e com o cabelo todo emaranhado, parecendo alguém que vivia nas ruas há muito tempo. Ele abraçava um tigre de pano desbotado, que já havia perdido um dos olhos de botão, deixando o enchimento de algodão exposto.
— Quem é você? — perguntou o menino, caminhando cautelosamente para fora das sombras.
Quando a luz o atingiu, o grupo prendeu a respiração. Não por medo, mas pela aparência: o menino era extremamente feio. Yan tinha olhos de tamanhos desproporcionais, a boca torta para um lado e uma enorme mancha de nascimento escura na face. Mas o mais assustador era que o tigre de pano em seus braços estava se movendo. O corpo de algodão inflava e desinflava, como se estivesse respirando.
Marcos engoliu em seco. "Nesta aldeia não existe uma única pessoa normal?", pensou. Ou choravam sangue, ou tinham feições retorcidas.
— Você veio roubar o meu Tigrão? — Yan perguntou, vigilante.
Apesar de ser uma criança, a aura que ele emanava era hostil, quase ameaçadora. Marcos forçou um sorriso — que parecia mais uma careta de dor — e tentou ser gentil: — Não é roubo, é empréstimo. Este tigre era do Xiaobao, filho da Viúva Lúcia, não é? A mãe dele sente muita saudade e quer o brinquedo como lembrança.
Yan apertou o tigre com força: — Não dou! O Tigrão é meu amigo. O Xiaobao morreu, agora o Tigrão é meu.
—
Miau...
— Espera, aquele tigre de pano acabou de falar? — Lucas perguntou trêmulo, querendo confirmar se não estava tendo alucinações.
Sara respondeu com seriedade: — Tenha confiança: o som veio do tigre.
Lucas olhou para Vitor e obteve a mesma confirmação. Quando ia olhar para Alice, ele desviou o rosto rapidamente. Sabia que ela diria que ouviu também; afinal, coisas bizarras eram a especialidade dela. Três pessoas ouvindo significava que não era ilusão: o objeto de pano e algodão realmente emitira som. E o mais estranho: era um tigre, mas miava como um gato?! Que bizarro.
Vendo que Yan não cederia, Marcos lembrou-se da máscara que Alice lhe dera. Ele a tirou das vestes e mostrou ao menino: — Veja só, se eu te der esta máscara, você troca pelo Tigrão?