Capítulo 27: O Preço
Um cadáver que volta à vida?!
Isso era muito mais sinistro do que qualquer entidade. Quando uma entidade morre, ela morre de verdade, mas ela...
Não foi apenas o Açougueiro Marcos que ficou petrificado; os outros jogadores também acharam aquilo inacreditável. Se não tivessem testemunhado a cena bizarra com os próprios olhos, ninguém acreditaria em um relato verbal. Na melhor das hipóteses, seriam chamados de loucos.
— Ah, é mesmo, o sacrifício de sangue.
Alice reagiu tardiamente sobre o assunto principal e deu um aviso atencioso: — Rápido, derrame meu sangue na soleira e me entregue o fragmento. Estou com pressa, meu corpo precisa crescer de volta.
O Açougueiro Marcos olhou para a faca em sua mão, depois para a cabeça no chão, e tomou uma atitude que ninguém esperava. Com um som surdo de
baque
, ele caiu de joelhos e arremessou o cutelo para longe.
— Misericórdia, Grande Imortal! Eu fui cego e não reconheci sua grandeza. Tome o fragmento, mas, por favor, não me mate...
Para o açougueiro, se Alice não podia nem ser morta, tirar a vidinha dele seria a coisa mais simples do mundo. Alice piscou os olhos: — Leve eles lá dentro para pegar.
Em seguida, ela lançou um olhar para os companheiros, sinalizando para que aproveitassem que o açougueiro não mudara de ideia e pegassem logo o item. Caso contrário, a dor que ela sentira ao ter o pescoço cortado teria sido em vão. O grupo entendeu o sinal e assentiu para ela.
Enquanto eles entravam na casa seguindo o açougueiro, que rastejava de pavor, Alice aproveitou que estavam de costas. Sua cabeça rolou rapidamente para junto do corpo e, em menos de um minuto, a conexão entre o crânio e o pescoço cicatrizou em uma velocidade visível a olho nu.
Assim que a regeneração terminou, Alice levantou-se e girou o pescoço, produzindo um som de
estalo
. Vitor, que acabara de voltar ao pátio, deparou-se com Alice já recuperada, alongando o corpo. Ele sentiu um misto de choque e alegria; felizmente, ela estava bem.
Mas o que significava aquela expressão no rosto dela? Alice parecia profundamente decepcionada. Em sua mente, ela lamentava: "Plano de morrer de verdade através da decapitação: Falhou!!!".
Que pena, sentiu dor à toa de novo. Ela achou que, sem a cabeça, seria o fim definitivo, mas... o resultado a deixou frustrada. "Na próxima, tento em outro lugar do corpo", pensou ela.
Perdida em pensamentos, ela nem notou que Vitor, que deveria estar pegando o fragmento com os outros, já se aproximara.
— Você realmente não estava falando bobagem.
— Mas que susto! — Alice deu um pulo com a voz súbita. Ao processar o que Vitor disse, ela confessou: — Eu nunca falo bobagem. Já você, que tipo de habilidade inventada foi aquela?
Aquilo nem era uma habilidade de verdade!
— E não é? — Vitor perguntou, confuso. — Se não é uma habilidade, o que é então?
Alice não quis dar explicações longas. Em vez de deixar que soubessem que ela possuía um
Corpo Imortal
tanto na realidade quanto no jogo — correndo o risco de ser tratada como cobaia de laboratório —, era melhor deixá-los acreditar que era uma habilidade que sumiria ao fim do cenário.
— É uma habilidade, sim. Uma habilidade — respondeu ela, com desdém.
Nesse momento, os outros saíram da casa carregando uma caixa de madeira retangular. Marcos abriu a caixa para Alice e Vitor: dentro, havia um pedaço de madeira preta do tamanho de uma palma. A textura era extremamente retorcida e, olhando bem, lembrava um rosto humano. Então aquele era o fragmento. Ela achou que fosse uma lasca comum.
— Valeu. Da próxima vez que for cortar alguém, use a postura que eu te ensinei. Garanto que mata de primeira — brincou Alice com o açougueiro.
— Não... não ouso mais — respondeu o Açougueiro Marcos, com o rosto em prantos. — Vá com cuidado, Grande Imortal. Volte sempre... quer dizer, não volte nunca mais!
Sua humilde residência não suportava a presença de uma divindade dessas. Por favor, não venha mais me atormentar.
Enquanto os via se afastar, o açougueiro limpou o suor frio da testa, ainda trêmulo. Finalmente se foram. Só ele sabia o pavor que sentira ao ver uma cabeça cortada falando.
Assim que saíram do campo de visão do açougueiro, as pernas de Alice fraquejaram e ela desabou no chão. Sua pele estava pálida de forma assustadora e sua respiração tornou-se ofegante.
— Lara! — Vitor a amparou rapidamente.
— Tudo bem, só estou um pouco fraca — Alice forçou um sorriso pálido. — A habilidade não é infinita. Cada ressurreição consome muita energia, preciso descansar um pouco.
Na verdade, era a primeira vez que ela sentia aquele sintoma. Provavelmente, era o preço por ter tido a cabeça decepada. Antes, ela achava que o
Corpo Imortal
só doía na hora da morte, sem outros efeitos colaterais. Erro de cálculo!!! Agora, ela sentia uma fraqueza total, como se até caminhar fosse um fardo.
— Vitor, me ajude a levantar — pediu ela, sem forças.
Vitor, percebendo a dificuldade dela, ignorou os protestos e a colocou nas costas. — Vamos voltar para descansar. Vamos à casa da Viúva Lúcia à tarde.
Alice recusou, debilitada: — Não, vamos agora. O tempo está acabando. Além disso, ouvi dizer que a Viúva Lúcia rouba almas. Ainda não sei como é a sensação de ter a alma arrancada.
Ela só vira possessões e roubos de alma na TV; se o jogo tivesse essa mecânica, seria perfeito para ela. Marcos e Sara se entreolharam e suspiraram ao mesmo tempo. Aquela maluca não tinha jeito. Estava viciada em morrer.
— Você está nesse estado e ainda... — Vitor estava angustiado. Mesmo querendo vencer o jogo, não precisava de tanto esforço. Ele temia que ela morresse de exaustão antes do cenário acabar.
— Se não for me levar, me coloque no chão.
Alice tentou descer das costas dele; ela queria ir de qualquer jeito! Vendo a determinação dela, Vitor cedeu. — Está bem, está bem! Vamos logo para a casa da Viúva Lúcia!
Nove da manhã, sob a velha Serejeira do Sul.
A árvore centenária e seca estava coberta de fitas vermelhas desbotadas. Abaixo dela, um pátio isolado com portões de madeira trancados, onde brilhavam dois talismãs de papel branco amarelado.
Ao chegarem ao destino, Alice desceu das costas de Vitor. Seu rosto recuperara um pouco da cor e seus olhos brilhavam de excitação.
— A Viúva Lúcia perdeu o filho cedo e precisa de um sacrifício de alma. Ou seja, precisamos encontrar o tigre de pano do menino e entregar a ela.
Sara disse cautelosamente: — O papel diz que, se dissermos uma palavra errada na entrega, ela rouba a alma para substituir a do filho. O risco é alto demais. Não podemos pensar em outra forma?
Alice inclinou a cabeça: — Tipo o quê?
— Tipo...
Sara gaguejou, sem ideia.
— E se a gente botar fogo no pátio e obrigar ela a entregar o fragmento? — sugeriu Lucas, animado. Ele achou que seria emocionante. No mundo real isso seria crime, mas no jogo as regras eram outras.
Marcos balançou a cabeça negativamente: — Violento demais, não é bom.
Violento? Só isso? Lucas sorriu em silêncio; comparado ao que Alice fazia, aquilo era fichinha. Como sua única ideia fora rejeitada, ele se calou.
Alice sorriu levemente: — Além disso, que graça tem o fogo perto de ter a alma arrancada? Eu nunca experimentei uma projeção astral.
Marcos torceu o nariz e não aguentou: — Puta que pariu, o seu conceito de "diversão" tem sérios problemas!