Capítulo 26: Uma Cabeça Decapitada Pode Falar?
— Os novos visitantes vieram comprar carne ou... — O homem perguntou, tentando esboçar uma amigabilidade superficial.
Alice não gostava de rodeios e foi direta ao ponto: — Presumo que você seja o Açougueiro Marcos.
O Açougueiro Marcos estancou. Percebendo que não eram clientes, mas sim pessoas à sua procura, ele mudou o tom para uma voz afiada: — Sou eu mesmo.
— viemos buscar o fragmento da Madeira do Deus da Montanha.
Ao ouvir isso, o sorriso de Marcos desapareceu instantaneamente. No mesmo segundo, os outros jogadores sentiram uma onda de hostilidade avassaladora emanando dele. Todos recuaram alguns passos, temendo que o cutelo de picar ossos caísse sobre eles a qualquer momento.
— O fragmento não está à venda!
— Eu sei que não está, por isso viemos fazer uma troca — Alice avançou em vez de recuar. — Sacrifício de sangue, certo? Precisa de um frango vivo abatido e o sangue derramado na soleira. Mas nós não temos um frango.
Marcos semicerrou os olhos: — Então deem o fora.
Sem frango, sem negócio. Acham que sou fácil de enganar?
Alice apontou para si mesma: — E se usarmos o meu sangue no lugar do sangue do frango? Pode ser?
O ar pareceu congelar por alguns segundos. Mesmo sendo algo que já haviam combinado, os jogadores atrás dela não puderam deixar de prender a respiração. Um brilho de confusão surgiu nos olhos pequenos de Marcos.
Em vinte anos como açougueiro, ele vira inúmeros jogadores virem atrás do fragmento. Alguns tentavam roubar, outros traziam frangos para trocar, outros tentavam usar a força bruta. Mas ele nunca vira ninguém se oferecer como sacrifício voluntário. Muito menos alguém propor substituir o sangue animal por sangue humano. Inacreditável!!!
— Você quer morrer? — Marcos franziu a testa.
— Quero — Alice assentiu com firmeza. — Quero muito. Esse seu cutelo parece bem afiado. Dói muito? É de primeira ou precisa de vários golpes? Eu prefiro morrer de primeira, é mais prático.
Marcos: "..."
Marcos (o jogador) e Lucas fizeram caretas de preocupação. Alice estava falando com tanta seriedade que eles quase acreditaram que ela estava, de fato, buscando o fim de sua vida novamente.
O açougueiro Marcos encarou Alice por mais de um minuto e, lentamente, ergueu o cutelo. Como um NPC de jogo, ele não recusaria tal pedido.
— Já que você quer morrer, então eu vou...
— Espera aí. — No meio do movimento, Alice levantou a mão e pediu uma pausa.
— Arrependeu-se? — perguntou o açougueiro.
— Não é isso. — Alice tirou um pedaço de pano das vestes e começou a limpar cuidadosamente a lâmina do cutelo de Marcos. — Sua faca tem restos de carne, está suja. Matar alguém com uma faca suja é muito anti-higiênico. Deixe-me limpar para que eu possa morrer com dignidade.
Os outros: "..."
Quem se importa com higiene numa hora dessas?!
O açougueiro Marcos estava sem palavras. Além de querer morrer, a garota tinha mania de limpeza. Que tipo de aberração era aquela?
Alice concentrou-se em remover cada vestígio de carne e sangue da lâmina e assentiu satisfeita: — Pronto, agora está bem melhor. Pode cortar.
Marcos segurava o cutelo brilhante e começou a entrar em uma crise existencial. "Essa humana... limpou a minha faca... para eu usá-la contra ela. Isso conta como... auxílio ao suicídio? Eu devo cortar ou não? Se eu cortar agora que ela está colaborando tanto, não vou parecer um bobo? Mas se eu não cortar... vai contra as regras."
Vendo a hesitação dele, Alice apressou-o: — Vamos, corte logo! Estou com pressa, ainda tenho que ir à casa da Viúva Lúcia ao meio-dia.
Marcos respirou fundo e ergueu a faca. No momento em que ia desferir o golpe, aconteceu de novo.
— Espera só mais um pouco!
— O que foi agora?! — Marcos estava com as pálpebras pesadas de irritação. Quem queria morrer era ela, mas quem interrompia o processo toda hora também era ela. Estava ali para zombar dele?
Alice aproximou-se e começou a ajustar a posição das mãos de Marcos no cabo: — A postura está errada. Se segurar assim, a força não será bem distribuída e talvez você não me mate no primeiro golpe. Vem cá, eu te ensino: flexione levemente as pernas, use a força do tronco e da cintura, e mire exatamente nesta vértebra do pescoço...
Ela estava, literalmente, ensinando o açougueiro a decapitá-la.
Lucas sussurrou para Vitor: — Agora eu entendo perfeitamente como a Névoa Sinistra se sentiu ontem à noite.
Alice compartilhara com eles como o monstro de fumaça entrara confiante e saíra humilhado. Eles acharam que era exagero — afinal, entidades deveriam ser soberanas no jogo. Mas a cena à frente estava abalando suas convicções. Talvez Alice não atacasse o corpo físico das entidades, mas sim o psicológico delas. O estado mental de Marcos, o açougueiro, estava claramente se deteriorando.
Vitor assentiu: — Sinto pena do açougueiro por um segundo.
Finalmente, com a postura ajustada, Marcos segurou o cutelo com firmeza, com um olhar feroz, pronto para o golpe. Alice ia levantar a mão para uma "última pergunta", mas o açougueiro não deu chance.
— Já chega de conversa!
Marcos, em um acesso de fúria, ignorou os balbucios de Alice e desferiu um golpe brutal! O brilho da lâmina cortou o ar. O sangue espirrou instantaneamente, manchando as roupas do açougueiro. A cabeça de Alice rolou pelo chão, com um sorriso de satisfação estampado no rosto. O corpo caiu lentamente logo em seguida.
Os outros jogadores arregalaram os olhos. Mesmo sabendo que ela "não morria", ver a decapitação ao vivo era um choque visual forte demais. Vitor sentiu o coração na garganta. Ele temia que, ao perder um órgão tão vital quanto a cabeça, até mesmo o
Corpo Imortal
dela pudesse falhar.
Marcos, o açougueiro, ofegava. Gotas de sangue caíam da lâmina enquanto ele observava o cadáver. Ele pegou um pano e começou a limpar as manchas de sangue de si mesmo, sentindo que matar aquela humana fora o trabalho mais exaustivo de sua vida. Finalmente, ela estava morta. Agora, o sacrifício de sangue.
Ele caminhou até a soleira, pronto para usar a ponta da faca e derramar o sangue de Alice ali, quando a cabeça no chão subitamente abriu os olhos. E não apenas isso: ela começou a falar!
— Ei, Marcos! Bela pontaria, hein? De primeira.
O açougueiro Marcos congelou onde estava. Lentamente, ele virou a cabeça e viu aquele crânio sorrindo e piscando para ele. Uma cabeça... falando? Decapitada e ainda falando? Isso... isso não está certo...
— Só tem um pequeno detalhe — continuou Alice. — Você ainda não usou força suficiente na cintura, o corte ficou um milímetro torto. Minha quinta vértebra cervical não foi totalmente seccionada, está me dando uma coceirinha agora. Presta atenção na próxima vez, tá?
A mão de Marcos começou a tremer incontrolavelmente.